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Policiais haitianos escoltam grupo de pessoas durante detenção de suspeitos do assassinato do presidente do Haiti Jovenel Moïse. A maioria dos presos é de origem colombiana
Policiais haitianos escoltam grupo de pessoas durante detenção de suspeitos do assassinato do presidente do Haiti Jovenel Moïse. A maioria dos presos é de origem colombiana| Foto: EFE/ Jean Marc Herve Abelard

A vida intelectual do youtuber Felipe Neto mudou quando ele leu o livro do jornalista uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), cujo título é copiado por esta coluna. Não só a adolescência serôdia de Felipe foi marcada pelo texto que conta cinco séculos de opressão de América Latina, como se todos os problemas da região tivessem se iniciado com a chegada das caravelas.

Antes de Colombo, ensina a obra, havia um ambiente de equilíbrio social e ecológico que fazia da região uma espécie de altar na Terra, que fora sucessivamente vilipendiado. Galeano ajudou a moldar o pensamento de parte da esquerda que lê e reforçou a lamentação da outra parte que esquerda aquela que apenas escuta e repete. O resultado é mais ou menos o seguinte: a gente é o que é porque fomos espoliados. Nunca nos foi dada a chance de alcançar desenvolvimento e independência e até hoje temos que lutar para voltar a ser o que éramos. Uma pátria grande, próspera e feliz.

Bolivarianos em geral (Ops… Simón Bolívar não seria também um branco invasor?) ignoram que o colapso da civilização Maia, por exemplo, foi provocado pelos próprios nativos, como sendo uma combinação de superpopulação e devastação ambiental que podem ter sido agravados com eventos climáticos extremos, possivelmente secas.

Para justificar o coitadismo latino-americano, a literatura revolucionária infantiliza e, de certa maneira, idiotiza as civilizações autóctones. Vale relembrar a cena dramática em que Galeano narra como o espanhol Hernán Cortés – “confundido” pelo imperador asteca como sendo deuses enviados pelo deus maior Quetzalcoatl – marchou com seus cavalos sobre os corpos dos pobres índios. Uma versão até hoje repetidas nas escolas latino-americanas (não custa lembrar que o Brasil também faz parte do continente), mas que não tem amparo algum na realidade, já tendo sido desmentida, mas sem efeito prático nos cursos de história do ensino médio, onde Galeano é um clássico.

Pense no Haiti.

Nesta semana, o presidente Jovenel Moïse foi fuzilado enquanto dormia. As autoridades haitianas parecem ter identificado e prendido os responsáveis: um grupo de mercenários colombianos possivelmente recrutados e liderados por dois haitianos que viviam nos Estados Unidos. Pelo menos é o que diz o governo local.

O que é o Haiti? É um daqueles atoleiros sem solução. A morte de Moïse, que teve um governo bem tumultuado e que chegou ao poder em eleições igualmente tumultuadas, tem potencial de empurrar o país ainda mais para o fundo do brejo.

A pobreza e instabilidade do Haiti são culpa de Cristóvão Colombo, que um dia chamou aquela terra de Hispaniola? Por que o Haiti não virou algo parecido com o Chile ou com a vizinha República Dominicana, ambos ex-colônias?

Para entender o que leva o Haiti ser o Haiti é preciso olhar e perguntar para os haitianos. A resposta não está em Colombo ou os franceses que assumiram a colônia que vão explicar.

E que cargas d’água (como diziam os conquistadores portugueses) fazia um comando de ex-militares colombianos trabalhando como mercenários no Haiti? A resposta não pode ser buscada na teoria da eterna dependência latino-americana. Eles são resultado de fenômenos relativamente recentes.

A Colômbia viveu décadas de conflito armado contra uma guerrilha que queria implantar uma ditadura socialista no país. Financiada em parte pelo tráfico de cocaína, as Farc infernizaram a vida social e política do país sul-americano. A Colômbia foi obrigada a ter forças militares altamente treinadas e proficientes em combates reais que faziam parte do dia a dia de seus quadros militares.

Desde que os acordos de paz com as Farc foram firmados na Colômbia – como resultado de uma manobra eficiente da própria guerrilha que conseguiu garantir acesso à legalidade e manter o seus negócios criminosos em atividade – o governo colombiano reduziu os investimentos e muitos militares trocaram a carreira nos cartéis por atividades privadas. As baixas já superam em mais de 50.000 homens.

Somente as investigações poderão confirmar, mas os mercenários que mataram o presidente Moïse inegavelmente trocaram as forças regulares pelo trabalho subterrâneo do mercenarismo. E não há apenas excedente de militares. A Colômbia virou um reservatório de guerrilheiros desempregados. Gente que não pensa duas vezes em oferecer seus serviços para o crime organizado seja por lá, ou em qualquer outro lado das fronteiras, entre os quais está o Brasil.

Em 2018, as autoridades do Amazonas trocaram tiros com traficantes colombianos em território brasileiro. Por sinal bem longe da fronteira, “quase” (nos conceitos amazônicos de distância) nos arredores de Manaus. Foram encontrados com os mortos equipamento militar colombiano e armas idênticas às usadas pelos guerrilheiros das Farc.

Um excedente de mão de obra cuja existência tem mais relação com Marx, Stalin e Mao Tse Tung que com qualquer um dos vilões das Veias Abertas da América Latina. Mesmo tipo de fenômeno que na América Central nutriu as gangues e os cartéis de drogas com combatentes desempregados transformando as organizações em algumas da mais letais do hemisfério.

A lista de desventuras é enorme e passa pela falência da Venezuela, pela narcopolítica boliviana, o naufrágio argentino, e o Brasil, o país do quase. Quase potência. Quase Venezuela. Quase Argentina. Quase Haiti.

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