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A dramática captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua mulher, Cília Flores, que no metaverso chavista é tratada como a primeira-combatente, foi celebrada como o fim do regime. Depois, parecia ser apenas o começo. Mas, cada vez mais, parece que será apenas uma acomodação. Isso porque remover Maduro foi a parte fácil.
Maduro caiu, mas sob o seu “trono” está um regime criminalizado, fundido com redes ilícitas transnacionais, cujo desmantelamento seria muito mais complexo, caro e incerto. Muitos observadores esperavam que os Estados Unidos seguissem a prisão de Maduro com uma intervenção militar em grande escala ou com a rápida instalação de um governo de transição.
Em vez disso, o governo Trump optou por uma abordagem mais delicada e menos disruptiva, que é negociar uma transição de dentro do próprio regime chavista, mesmo que isso signifique empoderar as mesmas figuras que antes protegiam ou possibilitavam os empreendimentos criminosos de Maduro.
É uma estratégia pragmática, com uma lógica clara. Uma ruptura violenta tornaria inviável qualquer governo imposto, ainda que esse governo fosse legítimo, como seria o de Edmundo González. O risco de insurgências poderia mergulhar a Venezuela em um caos ainda mais profundo. Isso exigiria uma presença militar cara dos EUA, algo que o presidente Trump definitivamente não quer.
Ao incentivar a deserção e cooptar facções dentro da elite governante, Washington espera evitar derramamento de sangue e um envolvimento direto. Mas essa escolha traz seus próprios riscos. Ela pressupõe que as mesmas redes que construíram a arquitetura criminosa da Venezuela agora podem ser confiáveis para desmantelá-la.
Este não é um regime comum. A Venezuela não é apenas um Estado falido ou um clássico “narcoestado” no sentido tradicional. A criminalização do Estado sob o chavismo chegou ao ponto em que o próprio Estado se torna o agente central da atividade criminosa. O Estado criminoso, ou o Estado-narco.
Não se trata mais de cartéis se infiltrando no Estado. Na Venezuela, o Estado é o cartel. Sob Chávez e, depois, Maduro, o crime organizado foi institucionalizado como estratégia de sobrevivência. As Forças Armadas, as forças de segurança e a liderança política se tornaram atores-chave no tráfico de cocaína, na mineração ilegal de ouro e nos esquemas de proteção.
A fusão do poder estatal e do crime organizado não é apenas uma questão de corrupção — é estrutural. Ministérios, polícia e comandos militares operam tanto como instituições estatais quanto como sindicatos criminosos.
O Cartel de los Soles, termo que tem sido combatido por lobistas de Washington em favor da defesa de Nicolás Maduro, não exprime totalmente o que a Venezuela se tornou. Ainda que ele seja abandonado, até mesmo como estratégia de negociação com os chavistas, não se perde a dimensão do que a Venezuela se tornou.
A mineração ilegal, os negócios de armas com o Irã, a proteção de grupos guerrilheiros colombianos como o ELN e dissidentes das FARC e até mesmo a aproximação diplomática com o Hezbollah são fios de uma teia que conecta a elite governante da Venezuela a redes criminosas e terroristas transnacionais que independem de Nicolás Maduro.
A captura do ditador tem poder simbólico e didático. Manda um recado para os que ficaram: ou negociam ou terão o mesmo destino
O resultado é claro. Embora a fusão entre o Estado e o crime permaneça intacta, alguns de seus operadores mais importantes agora estão envolvidos em negociações para desembrutecer o regime.
Tudo indica que o que está por vir é apenas uma mudança para um regime sem hostilidades aos Estados Unidos, com maior abertura aos investimentos externos e menos perseguição política. Parece que a troca será de uma ditadura para uma ditabranda.
Oportunistas de todos os espectros políticos estão se aproveitando dessa situação sui generis. A esquerda grita por soberania e acusa os Estados Unidos de apenas querer o petróleo. Do outro lado, alguns espezinham Maria Corina Machado como se ela fosse a grande derrotada, ignorando que ela não é perdedora de nada. Segue sendo a única líder democrática viável para a Venezuela.
Quem celebra a “transição” como um veto da Casa Branca erra ao não perceber que assumir um país destruído e desestabilizado não é prêmio. Com um pouco mais de paciência, Maria Corina terá a chance de conduzir uma Venezuela muito mais perto do normal do que hoje. Quanto tempo será necessário esperar? Ninguém sabe a resposta.
Por enquanto, é isso. Todos nós precisamos de mais tempo para observar e pensar sobre o que está acontecendo. Volto ao tema na semana que vem.





