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Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Corrupção

Confesso que errei: subestimei a resiliência institucional no Brasil

Enquanto os discursos sugerem harmonia, o recado ao país é outro: enfrentar a corrupção pode custar mais caro do que praticá-la. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Em janeiro de 2018, quando coloquei o ponto final em meu livro Hugo Chávez, o Espectro, encerrei com um posfácio otimista. Eu explicava por que o Brasil, apesar de vícios endêmicos como corrupção, patrimonialismo, compadrio e apatia cidadã, não corria risco real de se “venezuelizar”. A base do meu argumento era simples: institucionalidade. As engrenagens rangiam, mas resistiam.

O mais incômodo daquela conclusão era reconhecer que o freio principal não era, propriamente, os pesos e contrapesos. Eu via um Judiciário resiliente na fricção entre Executivo e Legislativo, mas o verdadeiro amortecedor do ímpeto “revolucionário” do PT era outro: o Centrão.

O salva-vidas do Brasil era um condomínio fisiológico que se move para qualquer lado ideológico oferecendo governabilidade em troca de privilégios. Paradoxalmente, esse cálculo de sobrevivência conteve planos de controlar a imprensa, avançar sobre bancos e impor reformas de feição revolucionária. Eles sabiam que, no dia em que largassem o cabresto, seriam devorados. Sendo assim, domaram a fera para se salvar. Como se vê, não era virtude, mas puro instinto de autopreservação.

Naquele momento, o Brasil parecia colecionar sinais de autocorreção: o Mensalão já havia sido enfrentado; Dilma Rousseff sofreu impeachment por crimes de responsabilidade e por uma condução fiscal temerária que afundou o Brasil em uma crise que persiste até hoje; e a Lava Jato, com todas as suas imperfeições, funcionava como uma operação de assepsia institucional. Havia motivos para acreditar em anticorpos antibolivarianos.

Mas, em 2019, os ventos viraram. O país foi submetido a uma operação de corrosão da credibilidade da própria ideia de responsabilização. As mensagens obtidas por hackeamento e batizadas de “Vaza Jato” serviram de pretexto para implodir a operação.

O efeito político foi imediato: o que era remédio passou a ser vendido como veneno. A partir daí, “Lula Livre” deixou de ser slogan e virou uma engenharia institucional.

O efeito político foi imediato: o que era remédio passou a ser vendido como veneno. A partir daí, “Lula Livre” deixou de ser slogan e virou uma engenharia institucional

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Para desmontar o que estava ajudando o Brasil a encarar um de seus males estruturais, abriu-se uma avenida para relativizar ritos, desidratar provas e reescrever a história. O resultado não foi apenas a reabilitação de um líder; foi a reabilitação de um método: fazer política por atalhos judiciais, com atores exercendo as funções de árbitro e jogador.

O rescaldo foi devastador. Corruptores confessos, com cifras devolvidas aos cofres públicos, foram reposicionados no jogo. Mais grave: a cleptocracia aprendeu com os erros. Não precisou sofisticar tanto os crimes. Só foi necessário um upgrade nos mecanismos de proteção.

A estratégia central passou a ser a compra de influência por meio da captura de elites — políticas, judiciais, policiais e midiáticas. O mercado de “serviços” migrou do técnico para o relacional. No Brasil pós-Lava Jato, o maior ativo não é a tese jurídica, mas o nível de acesso. Operar na cozinha do poder ou ostentar “DNA supremo” virou capital.

Esse ecossistema tem embalagem respeitável: escritórios de lobby travestidos de advocacia, intermediários de atalhos. Não é que isso não existisse antes. A diferença é que, depois do desmonte, isso deixou de ser patologia para virar modelo de negócio dominante.

O recado ao país foi cristalino: perseguir a corrupção pode ser mais perigoso do que praticá-la. Foi assim com a perseguição ao pessoal da Lava Jato e tem sido assim com os auditores e diretores do Banco Central que atuam no caso do banco Master.

Por falar em Master, não deveria surpreender que novo escândalo tenha surgido de maneira tão volumosa. O chefão do esquema, Daniel Vorcaro, não fez nada de extraordinário. Ele só se aproveitou do ecossistema criado no Brasil para normalizar a liberdade de Lula e dos demais envolvidos nos esquemas apurados pela Lava Jato. Vorcaro cresceu em um caldo de cultivo em que não existem mais limites éticos e morais entre quem investiga e é investigado, entre quem julga e é julgado, entre quem prende e é preso.

Em 2018, eu errei ao acreditar na resiliência institucional brasileira. Eu sabia que seus pés eram de barro, mas subestimei a velocidade com que o barro viraria lama.

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