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Milhares de pacotes abertos ou danificados cobrem os trilhos de trem na região de Lincoln Heights, leste de Los Angeles (EUA), 15 de janeiro
Milhares de pacotes abertos ou danificados cobrem os trilhos de trem na região de Lincoln Heights, leste de Los Angeles (EUA), 15 de janeiro| Foto: EFE/EPA/DAVID SWANSON

Ah, a Califórnia. Quem nunca sonhou em viver a vida sobre as ondas ou ser artista de cinema? Pois afinal, na Califórnia é diferente. É muito mais do que um sonho. Dono de um Produto Interno Bruto de US$ 3,35 trilhões, se fosse um país, o estado mais rico dos Estados Unidos seria a quinta maior economia do mundo. A Califórnia só perde para Estados Unidos, evidentemente, a China o Japão e a Alemanha.

O estado tem um clima interessante, produz bons vinhos, frutas, é o berço e sede das maiores empresas de tecnologia do planeta e tem um mar rico em pescados com uma porta de saída para os mercados do Oriente, pela sua linda e longa costa pacífica. A lista de qualidades é enorme e listá-las não vem mais ao caso. Resumindo, o estado é sensacional. Juro.

Nesta semana, a inglesa BBC exibiu imagens perturbadoras de Los Angeles. A reportagem mostra o trecho de uma ferrovia coalhado de lixo. Caixas e caixas de papelão destruídas e amontoadas sobre e ao lado dos trilhos. Escombros de um estado pré-falimentar.

A paradisíaca Califórnia virou um lugar infernal.

As caixas abandonadas eram as sobras de saques que bandidos fazem diariamente nos trens de carga que atravessam a maior das cidades da Califórnia. A Los Angeles de 2022 tem um visual “Mad Max”, concebido pelo cinema australiano 42 anos atrás.

Os ladrões arrombam os contêineres e roubam à luz do dia o que lhe convêm. Por praticidade e melhor proveito da operação, eles abrem os pacotes, reviram as mercadorias e descartam ali mesmo o que não lhes apetece.

A pilhagem virou regra e ninguém é incomodado. Às vezes a polícia aparece. Dá um susto no pessoal, mas vai embora. Na Califórnia de 2022 se tornou impossível ser punido por esse tipo de crime.

“A Justiça prende muito e prende mal” (alguém já ouviu esta frase antes e em português?).

Em 2014, as leis criminais da Califórnia foram reformuladas e roubos e furtos não entraram mais na categoria de crimes violentos. Para melhorar – pois afinal a mudança veio para deixar a Califórnia ainda mais moderna e humana –, quando o valor do produto pilhado não ultrapassa US$ 950, nem pode se chamar de crime. É só uma contravenção. Para se ter uma ideia, a cota cobre o preço de um iPhone 13, por exemplo.

Por uma coincidência, a procuradora-geral da Califórnia, quando se deram as mudanças, era uma senhora que entraria para história apenas seis anos depois ao ser eleita a primeira mulher vice-presidente dos Estados Unidos.

Kamala Harris, que fique claro, não é a arquiteta das mudanças, mas coube a ela a aplicação. Missão que ela cumpriu com louvor.

Antes da mudança, a Califórnia registrava crimes contra o patrimônio em uma taxa inferior à média nacional. Naquele mesmo 2014, o estado passou a média e os ladrões foram ganhando mais e mais coragem para meter a mão no bolso alheio. A fantástica São Francisco não ficou de fora. Em 2019, a taxa de crimes registrada naquele ano foi mais que o dobro da média do estado. E nunca mais baixou.

Desde o ano passado, a cidade vive uma autêntica pandemia de saques. Lojas de grife tiveram que substituir suas belas vitrines envidraçadas por tapumes de madeira. Câmeras de segurança filmam todos os dias a horda que invade lojas e leva para casa desde relógios de luxo a bolsas que valem alguns milhares de dólares.

Ah! Mas e a cota de US$ 950 para roubar à vontade?

Em São Francisco, a roubança ganhou um reforço. A cidade ganhou em janeiro de 2020 um promotor-geral que não gosta de prisão. Tem pavor de ver gente socialmente desfavorecida na cadeia. E conduziu uma política de tolerância extrema. Derrubou a exigência de fiança para crimes não violentos e derrubou as penas. Tudo para reduzir a população carcerária.

O resultado não poderia ser outro. Além da pilhagem diária nas lojas da cidade, o número de roubo de carros aumentou 22% na cidade, frente ao crescimento médio nacional de 4% em 2020.

Muitos locais querem o promotor Chesa Boudin fora do cargo e organizam um processo de “impeachment”.

Mas Boudin tem um histórico de vida interessante. Seus pais eram membros da organização de esquerda ultrarradical Weather Underground. Ambos foram presos e condenados por assassinatos, roubo a carro-forte e atentados. Seu pai amargou 40 anos na cadeia e só saiu 35 anos antes do previsto porque ganhou o perdão judicial do então governador de Nova York Andrew Cuomo.

Boudin cresceu sem os pais e só os via nas visitas que fazia à prisão. Algo doloroso e que deixa cicatrizes. É compreensível que ele tenha seus traumas. Aliás, são dignos não só de compreensão, mas de compaixão. Mas é não razoável que uma cidade inteira pague por eles.

Boudin gastou tempo para traduzir para o inglês um livro de entrevistas de Hugo Chávez explicando o que a revolução bolivariana tem de melhor e abraçou a agenda mais radical da esquerda americana.

O ponto-chave é o seguinte. A Califórnia não é o único lugar em transformação radical nos Estados Unidos. O esvaziamento das ruas de Washington, D.C, transformou um passeio noturno pela capital em uma experiência tensa. Ladrões do Bronx e de outras quebradas do entorno de Nova York estão desembarcando em Manhattan para roubar e saquear sem serem incomodados, pois por lá as regras também foram afrouxadas depois da onda de redução do tamanho, fundos e prestígio das polícias em meio ao oportunismo que se instalou no país depois da morte de George Floyd na mão de um mau policial.

Mas a culpa é da pandemia. Não falta quem diga que a confusão começou com Trump e se agravou com o racismo. E assim a América vai indo pelo ralo.

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