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Lula no centro do mundo
| Foto: Secom

O IBGE lançou um novo mapa-múndi. Nele o Brasil está representado no centro do mundo. O produto é mais que uma representação cartográfica. É um diagnóstico psicológico. Sob o lulismo, o Brasil persegue uma relevância que só se explica pela necessidade imanente do líder ser o centro de tudo.

O tal “O Brasil voltou”, nada mais é que Lula voltou. Não se trata de sinônimos, mas de uma dissimulação. Fica meio feio louvar o líder como uma espécie de Sol do sistema político internacional, então fica melhor pegar emprestado o nome do país.

Embora a Secom, que comanda a propaganda do governo, já tenha estampado o rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o sol nascente, a sutileza do IBGE e do Itamaraty tendem a ser mais eficientes.

Lá nos seus dois primeiros mandatos, Lula tentou ensinar para os Estados Unidos como resolver as crises com o Irã. Também se apresentou para acabar com a fome do mundo. Também se alistou em uma série de frentes para redesenhar a ordem global. Lula sonhou com um Nobel da Paz e aspirava ser Secretário-Geral da ONU.

Desde o início deste seu terceiro mandato, já tentou colocar um fim na guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, tentando convencer os ucranianos a se renderem e pararem de encher o saco do companheiro Putin. Também se apresentou para mediar a guerra em Gaza e posou de pacificador na disputa em que Nicolás Maduro tenta anexar quase metade do território da Guiana.

Em nenhum dos eventos, em que Lula se apresentou como estrela pacificadora, ele de fato tem algum poder ou influência. É mais ou menos como a alegoria do novo mapa-múndi do IBGE. O Brasil está no centro porque pensa que está.

A cartografia é por sinal uma abstração. No século XVI, o jesuíta Matteo Ricci mostrou aos chineses um mapa super atualizado, que já incluía as conquistas das Américas. Seus interlocutores ficaram extasiados com a vastidão do mundo, mas se molestaram com o fato de a China estar escanteada, no cantinho superior direito, como estamos acostumados a ver nas projeções mais populares.

Ricci, que além de ser um missionário aplicado era um exímio cartógrafo, providenciou uma adaptação que condissesse com o sentimento chinês de que eles eram o “império do meio”. Em 1602, e entregou aos chineses uma obra prima que reposicionava os continentes de maneira que a China estivesse onde o império acreditava que deveria estar.

Em nenhum dos eventos, em que Lula se apresentou como estrela pacificadora, ele de fato tem algum poder ou influência

O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, não é o novo Matteo Ricci. Longe disso. O seu mapa com o Brasil no centro não tem nada a ver com aculturação, soft power ou muito menos inteligência cultural. É idolatria ao chefe. Volto a dizer. O que está no centro do mapa não é o Brasil. É Lula.

O mapa-múndi, assim como o novo Atlas do IBGE, trazem marcas próprias do modo petista de ver o mundo.

As Ilhas Malvinas, grafadas assim como gostam os argentinos, vêm acompanhadas por um (ARG) sob o seu nome. Para o IBGE, o PT e Lula, o fato de as ilhas Falklands serem ocupadas pelos britânicos desde 1833 é irrelevante.

Outro detalhe chama atenção. O IBGE entende que Taiwan não é um país. Nas representações na nova edição do Atlas, a Ilha é da China é ponto final. É demarcada como parte e não tem tratamento como país. A posição está em consonância com o Itamaraty que se refere a Taiwan, como “Taipei Chinês”. O Brasil não tem relações diplomáticas com os taiwaneses. Mantém uma representação comercial com funções consulares para atender os brasileiros por lá.

O mapa petista destaca o “Estado da Palestina”, embora o tal “estado” seja uma abstração. Nem todos os países reconhecem o status de Estado dos palestinos. O Brasil está na lista daqueles que sim, mas, muito embora o faça, jamais abriu uma embaixada por lá. A razão é simples. Reconhecer é fácil, fazer acontecer é difícil. Como Estado, a Palestina é um projeto que grupos terroristas como o Hamas impedem de acontecer. Mas essa história é longa e não cabe aqui.

O mapinha petista não tem nada demais e não vai mudar nada na forma como o mundo nos vê e como nos vemos como brasileiros. Os asseclas de Lula festejam, os críticos criticam e a maioria ignora como tem que ignorar.

Ao final das contas, trata-se apenas de uma alegoria. Uma metáfora sobre adoração, bajulação e uma pitada de jequice.

Conteúdo editado por:Jônatas Dias Lima
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