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Os vídeos feitos com inteligência artificial em estética de bonecos Lego, usados por redes pró-Irã para ridicularizar os Estados Unidos e, sobretudo, o presidente Donald Trump, não viralizaram por acaso. Eles foram produzidos em inglês, com linguagem de meme, humor em formato nativo das plataformas e uma ambição clara: moldar a narrativa da guerra e estimular oposição ao confronto contra Teerã no próprio ambiente informacional ocidental.
A pergunta importante, porém, não é apenas como essa campanha foi feita. É por que ela funciona tão bem. E a resposta é simples e desagradável: o Irã aprendeu com a Rússia – pioneira nesse tipo de ação – que, no Ocidente, as pessoas já estão predispostas a abraçar qualquer coisa que humilhe o líder político de quem não gostam.
Para muita gente, pouco importa que a peça venha da máquina de propaganda de um regime que massacra manifestantes, restringe brutalmente a dissidência e submete mulheres a uma estrutura legal e política abertamente discriminatória.
Quando o alvo é o inimigo doméstico, a origem da munição parece irrelevante. O conteúdo deixa de ser examinado moralmente e passa a ser consumido tribalmente. É aqui que vale recorrer a um trecho muito interessante de O mago do Kremlin, livro de Giuliano da Empoli.
No romance, inspirado em fatos reais, aparece a metáfora do arame: para romper uma estrutura, não é preciso convertê-la a uma verdade nova; basta torcê-la para lados opostos até que ela se parta. Essa talvez seja a melhor descrição da guerra informacional contemporânea.
Não se trata mais de convencer. Trata-se de detectar, por algoritmo, a fissura emocional de cada grupo e alimentá-la até o paroxismo
Um público odeia Trump? Entregue-lhe humor anti-Trump. Outro odeia Israel? Sirva-lhe conteúdo inflamado anti-Israel. Outro quer apenas caos? Dê-lhe caos embalado como entretenimento.
Isso funciona precisamente porque já não consumimos política como política. Consumimos política como identidade, vingança, oposição, pertencimento e afetividade. O vídeo não viraliza porque informa; viraliza porque gera satisfação, porque oferece ao público o prazer de ver seu adversário humilhado.
A Rússia entendeu isso primeiro e transferiu para o regime iraniano algo que muitas democracias ainda fingem não ver: na era da saturação digital, a propaganda eficaz não veste uniforme, não fala em nome do Estado e não parece discurso oficial. Ela vem fantasiada de piada, trend, meme e até mesmo de coisa séria; basta ver no que Tucker Carlson se tornou.
O fenômeno é tão amplo que já engoliu a direita. Nos Estados Unidos, Carlson rompeu publicamente com Trump e disse estar “atormentado” por tê-lo apoiado, depois de atacá-lo pela guerra contra o Irã. O debate se torna tão feroz que o ponto não é arbitrar quem tem razão em cada disputa.
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O desafio é convencer as pessoas a ver algo evidente, mas que se torna invisível diante da névoa da polarização afetiva: elas estão sendo levadas a alimentar um ecossistema de conflito baseado na radicalização, pertencimentos, testes de lealdade e ressentimentos que podem se converter em feridas incuráveis.
No Brasil, a dinâmica é familiar. Basta observar as guerras intestinas em setores do bolsonarismo. A acusação permanente de traição virou método de disputa por capital moral e proximidade ao presidente Jair Bolsonaro. Quem é mais bolsonarista do que quem? Quem vendeu a causa? Quem “amarelou”? Quem serve ao sistema?
É a mesma lógica do arame: não construir maioria, mas tensionar a tribo; não persuadir, mas excomungar; não esclarecer, mas incendiar. O objetivo não é a verdade. É a fidelização pela ira. Parece não haver santo no céu ou na terra capaz de interceder pelo fim dessa carnificina autofágica.
Por isso, o sucesso dos vídeos de Lego do Irã deveria nos preocupar muito mais do que divertir. Não porque sejam sofisticados, bem produzidos e impressionantemente atraentes.
A eficiência da propaganda iraniana revela uma vulnerabilidade moral e cognitiva do Ocidente
Há gente disposta a servir, sem perceber, como retransmissora voluntária da propaganda de um regime teocrático e repressivo, desde que essa propaganda venha embalada contra o político que ela detesta. Vale tudo quando é para desmoralizar o adversário?
Quando passamos a aceitar qualquer peça, qualquer mentira útil, qualquer propaganda estrangeira, qualquer manipação grotesca, desde que ajude a ferir o nosso inimigo doméstico, é sinal de que estamos permitindo que o arame de nossa sociedade já está sendo torcido e comece a se romper. E essa, talvez, é a maior vitória do regime iraniano: não fazer o Ocidente concordar com Teerã, mas induzi-lo a colaborar alegremente com sua própria fragmentação.









