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Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

Lealdade ideológica

O erro de governar apenas para base

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Presidente Donald Trump enfrentará grandes desafios políticos após a derrota dos republicanos nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. (Foto: DIVYAKANT SOLANKI/EFE/EPA)

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Os republicanos perderam a Câmara, o Senado e até disputas que pareciam fora do alcance dos democratas. No Texas, um democrata foi eleito senador pela primeira vez em 38 anos. No Kansas, isso não acontecia desde 1932. O mapa não revela uma conversão repentina dos americanos ao progressismo como muita gente insiste em comentários acalorados no Brasil. Os resultados são mais complexos e sugerem que os eleitores que levaram o presidente Donald Trump à Casa Branca em 2024 não se sentiram obrigados a continuar apoiando seu partido em 2026.

Trump transformou a eleição legislativa num referendo sobre si mesmo. Pediu que os eleitores votassem como se seu nome estivesse na cédula. Obedeceram. O partido que controlava as duas casas do Congresso entregará ambas aos adversários. Trump não perdeu o controle do movimento MAGA. Perdeu a disputa fora dele, entre americanos que não frequentam comícios e não devem fidelidade a presidente algum. E como isso aconteceu?

Quase nove em cada dez eleitores consideraram o custo de vida importante ou decisivo no voto. Cerca de dois terços disseram que as políticas de Trump pioraram a economia. Sete em cada dez queriam um Congresso mais disposto a limitar o poder presidencial. Dois terços também consideravam erradas as prioridades do presidente. A mensagem não poderia ser mais clara: os eleitores não estavam cobrando mais combatividade. Estavam cobrando um governo que olhasse para suas preocupações.

O eleitor que decide o resultado não pede provas de pureza ideológica

Trump foi eleito para controlar a imigração, conter preços e restaurar a confiança na economia. Mas as tarifas apresentadas como demonstração de força chegaram ao bolso do consumidor. O show em torno das deportações não pegou bem e deixou o eleitor latino sem chão e desiludido. Mesmo assim, os auxiliares do presidente, presos na bolha das redes sociais e do próprio movimento político dobrava a aposta. Daí veio a suposição de que o entusiasmo dos seguidores dispensava o convencimento dos demais.

Na seleção de candidatos, Trump privilegiou a lealdade pessoal. No Texas, apostou em Ken Paxton, envolvido em controvérsias, e viu James Talarico vencer. Na Carolina do Norte, a identificação do republicano Michael Whatley com Trump pesou contra ele. A base podia gostar dos escolhidos. Os demais não tinham obrigação de gostar. O presidente confundiu o poder de escolher o candidato republicano com o poder de fazê-lo vencer uma eleição geral.

Nas primárias americanas, como no primeiro turno brasileiro, faz sentido falar aos mais fiéis. São eles que organizam a militância e sustentam a candidatura. Na disputa final, o candidato precisa conquistar quem não estava ali. Depois da posse, continua precisando. Mas há governantes que tratam a vitória como autorização para retornar ao palanque.

O Brasil já assistiu a esse filme. Bolsonaro chegou ao Planalto prometendo enfrentar uma estrutura política desacreditada. Mas fez do conflito quase um método de governo. Quando a crise se agravava, a resposta frequentemente era convocar os convertidos. A tensão com o Congresso, o Supremo e a imprensa alimentava a militância, mas afastava brasileiros cansados de briga. Bolsonaro acabou se aproximando do Centrão. Negociava no Congresso, mas continuava prometendo à plateia governar contra o sistema. Concedia poder para obter apoio e disfarçava a concessão com mais confronto. Terminou 2022 com uma militância fiel, porém sem os votos adicionais de que precisava.

Todo governante enfrenta uma escolha desagradável. Para preservar o projeto que o elegeu, precisará decepcionar parte de seus eleitores. Dizer não à ala que exige guerra diária, aceitar uma composição imperfeita ou abandonar uma medida que se tornou prejudicial. A base chamará de traição. Mas traição maior pode ser preservar a pureza do discurso e entregar o poder aos adversários.

A vitória democrata tampouco foi um endosso entusiasmado de suas propostas. Muitos americanos votaram em candidatos de um partido do qual também desconfiam. Votaram mais por castigo ao presidente Trump que por amor aos democratas. O resultado disso é que o presidente enfrentará os dois últimos anos de mandato com um Congresso hostil, menos espaço para sua agenda e mais obstáculos às suas iniciativas. O preço também será pago pelos conservadores que esperavam ver suas propostas avançar. Valeu a pena ser tão intransigente?

Uma eleição se vence com votos de quem acredita no candidato e de quem apenas o considera o menos ruim. Depois da posse, os primeiros continuarão cobrando lealdade. Os segundos cobrarão resultados. Quem governa apenas para os primeiros corre o risco de ser derrotado pelos segundos. Para a direita brasileira, a lição é dura. Uma base pode sustentar um movimento por décadas. Não pode, sozinha, garantir uma maioria. O eleitor que decide o resultado não pede provas de pureza ideológica. Pede que o governo resolva problemas. Trump esqueceu disso. Bolsonaro também. As urnas foram menos complacentes que seus seguidores.

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