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Os longos braços das ditaduras
| Foto: BigStock

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelou que espiões iranianos conspiraram em um plano que tinha como objetivo atrair uma jornalista iraniana-americana para a Venezuela, depois sequestrá-la e enviá-la para responder por seus crimes sob as leis dos aiatolás. O "crime" de Masih Alinejad, de 44 anos, é denunciar a longa lista de violações aos direitos humanos por parte do governo iraniano, principalmente aqueles que se referem às mulheres – as maiores vítimas daquela teocracia. O plano foi descoberto, denunciado, e o FBI identificou os agentes que operavam dentro e fora dos Estados Unidos para fazer os planos autoritários do regime surtirem efeito a milhares de quilômetros de Teerã, mais especificamente em Nova York, onde Masih vive e tanto incomoda.

No Brasil, nada menos que vinte estados já usam ou estão implantando câmeras com capacidade de fazer reconhecimento facial. Uma maravilha da tecnologia que promete revolucionar a segurança pública. O governador petista Rui Costa, da Bahia, é um dos maiores entusiastas do sistema. Em 2019, ele foi à China agradecer pelo engenho e fazer propaganda de seus resultados. Naquele momento, mais de 100 criminosos já haviam sido capturados graças aos equipamentos fabricados pela controversa Huawei.

Pesam sobre a Huawei – e não somente sobre ela – suspeitas de espionagem e violação à privacidade. Além dela, também estão sob suspeitas as chinesas Hikvision e Dahua que são acusadas de prover a tecnologia que permite ao Partido Comunista Chinês perseguir minorias étnicas como os uigures.

O que os sistemas chineses têm a ver com o caso de Masih Alinejad?

Eis um exercício. Imaginem um opositor chinês procurado por Pequim que acaba de desembarcar no Aeroporto Internacional de São Paulo e ao fazer seus trâmites migratórios tem seus dados biométricos capturados, roubados e transmitidos para os seus algozes em Pequim? Ou um jornalista independente que deixa os chineses bem irritados, que por acaso escolha viver em São Paulo ou Salvador e use o metrô para se deslocar, sendo identificado pelo regime liderado por Xi Jinping?

Em sendo verdade que algumas empresas chinesas, cuja estampa privada é uma fachada para ocultar os interesses estratégicos do regime, permitir a ação deles em países como o Brasil é o mesmo que amplificar o poder de seus olhos e braços, dando-lhes a chance de alcançar quem quer que seja em qualquer lugar.

Pode parecer absurdo. Até mesmo distópico. Mas, infelizmente não é. Tais dados não só entregariam a presença do ativista de direitos humanos no Brasil como possibilitaria rastreá-lo e até mesmo o seu sequestro no Brasil. Se o Irã que é o Irã com menos recursos e capacidades se atreveu a tentar capturar uma jornalista que os incomoda desde os Estados Unidos, o que pensar da China que descobriu que no Brasil eles podem tudo?

Os sistemas de reconhecimento facial mostraram a sua força nos protestos anti-China em Hong Kong em 2019. Manifestantes flagrados foram presos em casa, horas ou dias depois dos protestos. Ninguém estava seguro e o regime queria dizer eu "sei e saberei sempre quem é você e o que você fez". Razão pela qual estas empresas foram alvos de sanções dos Estados Unidos.

Ditaduras não têm limites, inclusive eles não respeitam sequer as regras e fronteiras para tentar impor suas vontades.

O Brasil está completamente desguarnecido pelo simples fato de que qualquer discussão madura sobre o tema é abortada por quem tira da cartola os três argumentos básicos que impedem a discussão: "é disputa comercial", "a China é o principal parceiro" e "é teoria da conspiração".

E assim o Brasil vai, bovinamente, cedendo espaço para que os longos braços da ditadura chinesa possam alcançar quem quiser no Brasil.

Não faz muito tempo, os governos petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff deram lições de como voluntariamente seus governos aumentaram o alcance dessas ditaduras amigas. Em 2007, Lula mandou prender e deportar (sem qualquer base legal) os pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy. Os dois, que foram ao Brasil para participar dos Jogos Pan Americanos, abandonaram a delegação de Cuba e planejavam deixar o Brasil. Bastou um pedido de Fidel Castro para as autoridades brasileiras agirem como se fossem um anexo das de Havana.

Dilma foi além. Quando criou o Programa Mais Médicos, com o intuito de enviar bilhões de reais para Cuba, ela submeteu mais de 15.000 médicos cubanos a uma situação esdrúxula. Eles viviam no Brasil, mas estavam sujeitos às regras de Cuba. Tinha os salários confiscados em mais de 75% do total e quem sequer caísse em suspeição de que poderia abandonar o programa, pedir asilo ou fugir para os Estados Unidos ou qualquer outro lugar era imediatamente desligado do programa e devolvido para Cuba. Não faltam relatos das vítimas para confirmar os abusos.

Por falar em Cuba, a ilha vive uma insurgência. O povo, cansado de miséria e opressão, resolveu dar um basta. Foi para rua enfrentar balas de borracha e munição real para denunciar a ditadura mais longeva do continente e derrubar a máscara de fofura que cultiva tantos simpatizantes.

Tem chamado a atenção em Cuba a eficiência com que o regime tem conseguido identificar manifestantes. Está indo buscá-los em casa. Espancando-os e fazendo-os desaparecer. As listas das organizações de defesa dos direitos humanos listam mais de uma centena deles.

É célebre a cultura da delação instaurada pelos castristas desde o início da ditadura. As pessoas são estimuladas a entregar até a mãe, caso ela demonstre comportamento antirrevolucionário. "Se você não falar, alguém vai e você vai junto". Uma receita cujo ingrediente principal é o medo e que sempre deu certo. Mas algo mudou.

Começam a surgir suspeitas que Cuba ganhou um presente chinês. As tais câmeras de reconhecimento facial. São suspeitas. Apenas suspeitas. Mas nada soaria absurdo se tratando do fato que Pequim é a nova ditadura guarda-chuva de Cuba.

No Brasil, cubanos que vivem no exílio foram para as portas da Embaixada de Cuba, em Brasília, e do Consulado, em São Paulo, para protestar. Se uniram, de certa maneira, aos seus amigos e parentes que estavam tomando golpes de cassetete nas ruas de Santo Antonio de Los Baños, Havana e tantas outras cidades de Cuba.

Para surpresa deles, os longos braços do regime cubano estavam ali. Vestidinhos com seu indefectível vermelho básico, militantes do Movimento dos Sem Terra, PCdoB, Psol, PT, PCO tocavam bumbo (literalmente). E não só se manifestam. Reprimem. Ameaçam. Amplificam a violência de seus ídolos contra quem buscou a liberdade bem longe do regime.

Os braços das ditaduras estão ficando cada vez mais longos. Nunca foi tão evidente.

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