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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

Tarifas ao Brasil

Enviem a conta da tarifa de Trump às ONGs “bem intencionadas”

A tarifa de Trump é arbitrária, mas expõe como o Brasil alimentou narrativas internacionais que hoje se voltam contra si. (Foto: AARON SCHWARTZ/EFE/EPA)

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O pretexto para a tarifa adicional de 12,5% imposta pelo governo de Donald Trump ao Brasil, a existência de trabalho escravo e desmatamento como condições favoráveis à produção agropecuária do país, é claramente absurdo. Não que os problemas inexistam, mas nem de longe têm a dimensão atribuída pelos EUA e, de resto, encontram-se em franco declínio.

Todavia, trata-se de uma arbitrariedade sustentada por argumentos que, nas últimas décadas, têm sido proporcionados por sucessivos governos brasileiros que acolheram acriticamente uma agenda intervencionista externa baseada na instrumentalização política de pautas de grande apelo público e propagandístico, em especial, a “proteção” do meio ambiente e das comunidades indígenas e a promoção do “identitarismo”, dos “direitos humanos”, da “democracia” e do desarmamento civil (as aspas são indispensáveis).

Com base nelas, ditadas a partir de potências hegemônicas como os próprios EUA, Reino Unido e outras, países em desenvolvimento como o Brasil têm sido enquadrados em agendas políticas que, apesar de serem comumente contrárias aos seus interesses, têm influenciado grandemente as suas políticas públicas.

Nesses países, em geral, elas são promovidas por vastas redes de organizações não governamentais (ONGs), quase invariavelmente muito bem financiadas por agências governamentais, fundações privadas e ONGs de grande porte das potências hegemônicas.

Tais ONGs 'ativistas' formam um verdadeiro exército irregular de interferência em políticas públicas

Tais ONGs “ativistas” formam um verdadeiro exército irregular de interferência em políticas públicas, mesclando causas legítimas com ações desproporcionais e até infundadas que, com frequência, ensejam prejuízos maiores do que as causas que as motivaram.

Na área ambiental, o impacto negativo é visível, com grandes campanhas internacionais que passam ao largo dos grandes problemas ambientais reais do planeta, como é o caso notório dos efeitos da poluição hídrica causada pelas deficiências de infraestrutura de saneamento básico, sendo o Brasil um exemplo destacado.

Por aqui, a agenda verde tem se empenhado em destacar o país como um gestor relapso dos seus vastos biomas, principalmente a Amazônia e o Cerrado, em suposto detrimento do clima global, com os índices de desmatamento e queimadas sendo elevados à virtual condição de crimes contra a humanidade.

Pessoalmente, desde o final da década de 1980, tenho acompanhado de perto essas campanhas, que se tornaram um dos focos de minha atividade jornalística e editorial no país, cujos resultados já foram apresentados e debatidos em literalmente centenas de palestras em quase todos os estados brasileiros, além de várias comissões parlamentares de inquérito do Congresso Nacional e da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul.

Uma das ONGs mais influentes na agenda “verde-indígena” é o Instituto Socioambiental (ISA), fundado em 1994, a partir de uma operação internacional envolvendo a ONG multinacional Conselho Mundial de Igrejas e as estadunidenses National Wildlife Federation, Environmental Defense Fund e Cultural Survival. Anteriormente, as três últimas foram responsáveis pela projeção internacional do líder seringueiro Chico Mendes, cujo assassinato, em 1988, colocou de vez o Brasil no foco da agenda ambientalista.

O ISA é uma das mais ricas e ativas ONGs do país, com orçamentos anuais da ordem de R$ 60-70 milhões, sendo mais de 90% provenientes de fontes estrangeiras.

Outro exemplo, atuante tanto na pauta ambiental como no trabalho escravo, é a Repórter Brasil, fundada em 2001, “desenvolvendo relatórios, livros e cartilhas sobre impactos sociais, trabalhistas e ambientais”. Como se lê em seu sítio: “Em casos de impactos sociais e ambientais gerados por empreendimentos, marcos legais e políticas corporativas determinam que elos de uma cadeia produtiva possuem deveres a cumprir, tanto com monitoramento quanto com exclusão de fornecedores e clientes. O trabalho de rastreamento realizado pela Repórter Brasil aumenta a transparência das cadeias e facilita a cobrança de responsabilidades.”

Seu orçamento de 2025 foi de R$ 18,1 milhões, com quase 60% provenientes de “convênios com entidades e organizações internacionais”.

Independentemente da eventual justiça e legitimidade das causas defendidas por tais entidades, a grande proporção de financiamento internacional de suas atividades é sugestiva do alinhamento delas com a agenda hegemônica citada, algo de que dá testemunho a frequência com que se manifestam contra o Brasil em fóruns internacionais.

Da mesma forma, tem sido frequente o intercâmbio de elementos desse aparato intervencionista entre ONGs e postos de governo. No governo Collor, o secretário de Meio Ambiente, José Lutzenberger, era representante da Gaia Foundation britânica, além de financiado por ela, como denunciei na ocasião.

Fernando Henrique Cardoso referia-se às ONGs como “organizações neogovernamentais”, tendo criado as figuras jurídicas das Organizações Sociais (OS) e Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), alegadamente, para superar os vícios de um Estado considerado burocrático, corrupto e suplantado pelos ventos da “globalização” financeira.

Na primeira passagem de Marina Silva pelo Ministério do Meio Ambiente, o órgão era conhecido como “ministério das ONGs”, tal o número de representantes delas em postos de direção, tendo repetido o feito em seu recente retorno ao cargo.

Assim sendo, independentemente das idiossincrasias trumpianas, a conta dos 12,5% pode ser apresentada àquelas ONGs e aos seus enclaves no aparelho do Estado

E, em última análise, ao conceder parte de suas prerrogativas decisórias a esse aparato intervencionista, o Brasil debilita a legítima defesa da soberania nacional.

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