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Na coluna anterior, comentei os problemas do Reino Unido com sua rede de baterias de armazenamento de eletricidade, necessárias para acumular o excesso de geração de energia eólica e solar que ocorre em boa parte do dia e liberá-la nas calmarias ou à noite. Como observei, o próprio Operador Nacional do Sistema Energético (NESO, sigla em inglês) tem advertido para o alto risco de sobrecarga das linhas de transmissão implicado na operação dos sistemas de baterias, além de outros problemas acarretados pela elevada participação de tais fontes intermitentes no sistema elétrico.
Pois, na noite de 23 de junho, enquanto milhões de torcedores ingleses se preparavam para assistir ao jogo de sua seleção contra Gana na Copa do Mundo, o sistema esteve a segundos de um apagão em grande escala, sendo o desastre evitado apenas por uma providencial injeção emergencial de eletricidade vinda da França, arranjada por frenéticos telefonemas através do Canal da Mancha.
Em 26 de julho, o diário Telegraph noticiou o episódio:
“Era 23 de junho, e o país sofria com uma onda de calor, o que levou muitos a ligarem ventiladores e ar-condicionado em casa.
“Com um grande número de pessoas também grudadas na televisão até altas horas da noite, a demanda no sistema elétrico estava excepcionalmente alta.
“O que os torcedores não sabiam, no entanto, era que, em uma sala de controle em Reading, engenheiros do Operador Nacional do Sistema Energético (NESO) estavam se esforçando ao máximo para manter o jogo funcionando.
“Às 20h17min17s, apenas uma hora antes do início da partida, a crise atingiu o seu ponto mais crítico. O desastre só foi evitado depois que os responsáveis pela rede elétrica imploraram por ajuda aos seus colegas franceses por telefone.
“A história está sendo vista por alguns especialistas como o exemplo mais claro até agora de que a rede elétrica britânica está vulnerável. ‘É um aviso, e um do qual teremos que aprender’, diz Ben Watts, analista de energia independente. ‘Acho que todos concordam que estivemos muito perto de ter um problema, mas não chegamos a esse ponto.’
“O NESO também enfrenta denúncias de informantes – que estão sendo investigadas de forma independente – de que seus executivos tentaram encobrir as evidências de instabilidade em 23 de junho.
“O operador da rede insistiu que o sistema funcionou corretamente o tempo todo. Esta é uma possível explicação, dizem os especialistas. Outra é que o dia só foi salvo graças à pura sorte e à boa vontade dos franceses.
“Então, quem está certo? E o que aconteceu?”
A explicação oferecida pela reportagem aponta para a crescente complexidade, fragilidade e perda de resiliência do sistema elétrico britânico, entulhado com fontes intermitentes e precários sistemas de baterias instalados para compensá-las:
“Com a aproximação das 20h, a frota de baterias de 3,3 GW [gigawatts] da Grã-Bretanha estava com pouca energia, e a quantidade de capacidade de reserva a gás disponível havia diminuído para apenas 80 MW [megawatts] no sul do país.
“Às 19h50, a frequência caiu novamente abaixo dos níveis normais de operação e, precisamente às 20h, atingiu 49,656 Hz [hertz] – o nível mais baixo observado neste ano.
“Isso foi suficiente para levar o NESO a pedir ajuda emergencial.
“Pouco antes das 20h, os engenheiros na sala de controle britânica pegaram o telefone e ligaram para seus colegas da RTE, a operadora da rede francesa. Um aviso oficial ao mercado foi então publicado às 20h01, mas não forneceu detalhes.
“Minutos após a ligação do NESO, os operadores da rede em Paris entraram em ação. Entre 19h55 e 20h05, três interconexões francesas mudaram de direção e começaram a canalizar quase 2 GW de energia de volta para a Grã-Bretanha.
“Com isso, a frequência da rede rapidamente voltou à zona de conforto e não saiu dela novamente pelo resto da noite. A França salvou o dia.”
Nas redes sociais, a consultora de energia independente Kathryn Porter foi taxativa:
“Não havia mais reserva. Isso é profundamente preocupante, porque, se tivéssemos perdido um grande gerador naquela noite, poderia ter sido o fim, principalmente com tantas linhas de transmissão operando acima da capacidade. Parece que o NESO levou a rede além do seu limite naquela noite e foi salva por dois fatores: a França fornecendo megawatts extras e nada ter quebrado durante o período crítico da noite.”
Ou seja, mais uma repetição de ocorrências semelhantes em outros países que trocaram a segurança da geração de base com fontes energéticas consagradas – termelétricas, hidrelétricas e nucleares – pela quimera da “transição energética” apoiada em fontes intermitentes e totalmente inadequadas para o abastecimento de grandes centros urbanos e industrializados, cujo atrativo maior é o rápido retorno financeiro assegurado por vultosos subsídios.
Três dias depois, o editor da edição dominical do jornal, Allister Heath, jogou a toalha em um comentário feito nas redes sociais:
“Chegou a hora de aceitar esta realidade alarmante, reconhecer nossos prejuízos, parar de lutar contra (e construir) moinhos de vento e abandonar a farsa desprezível que é o carbono zero líquido.
“Fomos enganados a acreditar que poderíamos, sozinhos, salvar o mundo, uma estratégia fútil, sem dúvida alguma.
“Prejudicamos a indústria britânica, prejudicamos os consumidores e levamos a rede elétrica à beira do colapso, tudo isso sem nenhum impacto perceptível nas emissões globais e no clima. A retomada do coletivismo pelo Reino Unido, o racionamento de energia e nosso caso avançado de empatia suicida pouco fizeram além de nos colocar à mercê da China. Todos os nossos esforços para a redução de carbono (e os da União Europeia) foram amplamente anulados pelo aumento das emissões chinesas.
“No entanto, impulsionadas por um revivalismo moral neovitoriano, as elites bipartidárias do Reino Unido, tendo perdido um império e buscando um papel como planejadores centrais internacionais, convenceram-se de que deveríamos liderar pelo exemplo e por meio do autossacrifício, apostando tudo no carbono zero. As pessoas comuns estão pagando o preço por essa ilusão.”
A mensagem ganha relevância adicional pelo fato de o Telegraph não ser um dos tabloides ingleses notórios pelo sensacionalismo, mas um dos órgãos de imprensa que representam o pensamento das elites britânicas.
De nossa parte, só podemos esperar que o recado possa repercutir além do Canal da Mancha e do Oceano Atlântico.

Lorenzo Carrasco é jornalista, presidente do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (MSIa) e da Capax Dei Editora. É autor de alguns livros, entre eles: "Conselho Indigenista Missionário: Filho da Mentira" e “Um mundo novo é possível? Doutrina Social, Direito Natural e Multipolaridade”. É também coautor de "Máfia Verde: o ambientalismo a serviço do Governo Mundial" e "A missão da Rússia na mudança de época global", e outros. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



