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Lorenzo Carrasco

Lorenzo Carrasco

A agenda climática irreal do governo brasileiro

Um caminho para o desastre

Lula Alemanha Pesquisa EUA
Após o fiasco da COP 30, governo insiste em agenda climática vista como irreal, ignorando prioridades como saneamento e riscos econômicos. (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

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Após o fiasco da conferência COP 30, em Belém (PA), a presidência brasileira do convescote climático comprometeu-se a elaborar, para a COP 31, um “mapa do caminho” para a “transição para o afastamento dos combustíveis fósseis de forma justa, ordenada e equitativa” e para o “fim e reversão do desmatamento e da degradação florestal até 2030”.

Ao mesmo tempo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou um prazo de 60 dias para a elaboração das diretrizes para o “mapa” da transição energética no país.

Como se sabe, a expressão remete à agenda de substituição acelerada dos combustíveis fósseis até meados do século, com ênfase na ilusória “transição energética”, baseada na proliferação de fontes intermitentes como a solar e a eólica, além de tecnologias ainda distantes da maturação, caso do hidrogênio.

No último dia 15 de abril, a Frente Parlamentar Mista Ambientalista (FPMA) do Congresso Nacional divulgou a sua contribuição para a pauta, com a divulgação do Mapa do Caminho para a Agenda Legislativa Socioambiental, com “orientações para a atuação de deputados, senadores, assessores e corpo técnico nos próximos oito anos” (Agência Brasil, 15/04/2026).

O “mapa” divide a agenda ambiental em seis eixos prioritários: 1) Transição energética, ecológica e econômica; 2) Proteção dos direitos dos territórios, justiça climática e combate ao racismo ambiental; 3) Inovação, renovação, governança e fortalecimento institucional; 4) Orçamento e financiamento da política ambiental; 5) Capacitação e enfrentamento à desinformação; e 6) Defesa da floresta, dos animais, da água, dos oceanos e de biomas estratégicos.

Pela pauta, percebe-se que a FPMA apenas repassa a agenda ambientalista-indigenista que tem sido imposta ao Brasil nas últimas décadas – e docilmente aceita por quase todos os governos do período. Nenhuma menção, por exemplo, ao problema ambiental mais sério do país: as deficiências de infraestrutura de saneamento básico e suas consequências.

No texto de 35 páginas, a palavra “saneamento” ocorre apenas duas vezes, assim mesmo, nos títulos de documentos citados em notas de rodapé

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Sem surpresa, o “mapa” foi elaborado com a colaboração das ONGs Legisla Brasil, Engajamundo e NOSSAS, vinculadas à rede internacional de financiadores da agenda da “descarbonização” – Open Society Foundations (do megaespeculador George Soros), Climate Land Use Alliance, European Climate Foundation, Heinrich Böll Stiftung, Instituto Clima e Sociedade, Laudes Foundation, Oak Foundation, Climate Justice Resilience Fund, WWF, The Body Shop, Climate and Land Use Alliance e United Nations Population Fund.

Dias antes, com uma justificativa apocalíptica, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encaminharam ao governo federal uma carta cobrando as diretrizes para o “mapa do caminho” brasileiro:

“A urgência é real e crescente. As evidências científicas indicam que o planeta se aproxima de forma alarmante do limiar de 1,5°C de aquecimento antes de 2030 e pode ultrapassar 2°C antes de 2045, com sérias consequências para a sociedade, o meio ambiente e a economia brasileiras. O Brasil é particularmente vulnerável: o risco de colapso irreversível da Amazônia, de redução da produtividade agrícola e de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes e devastadores – enchentes, secas e ondas de calor – já comprometem vidas, infraestrutura e a capacidade do Estado de planejar e executar políticas públicas de longo prazo. Cada ano de inação acarreta custos econômicos e humanos imensamente superiores aos da necessária transição energética (SBPC, 09/04/2026).”

Quem acompanha minimamente o panorama internacional pode constatar que o catastrofismo ambiental e climático encontra-se em franco refluxo, principalmente sob o impacto das ações do governo de Donald Trump nos EUA e do recuo da alta finança globalizada, que até há pouco vinha sendo a sua principal promotora. Como já observei em colunas anteriores, megafundos de gestão de ativos – BlackRock, Vanguard etc. – e megabancos como JP Morgan Chase, Bank of America, Morgan Stanley e outros já viraram a página das “finanças verdes”, trocando-as por investimentos e iniciativas produtivas mais ligadas à economia real.

Não por acaso, a esperada edição deste ano da carta anual aos investidores do CEO da BlackRock, Larry Fink, tido por muitos como um virtual oráculo da alta finança internacional, não contém quaisquer menções a expressões frequentes nas edições anteriores, como clima, sustentabilidade, meio ambiente ou transição energética.

Por esses e outros motivos, inclusive um questionamento crescente entre a própria comunidade científica, é deplorável que legisladores e representantes da ciência brasileira se mantenham aferrados a um “mapa” que leva apenas a um retrocesso tecnológico e a um desastre econômico.

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