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A Vovó de Kalashnikov e um vídeo assustador da Ucrânia
| Foto: Reprodução

Uma fotografia e um vídeo chamaram a minha atenção ao ler o noticiário sobre a guerra na Ucrânia, nos últimos dias. Vamos a eles.

A fotografia

A senhora da foto se chama Valentyna Konstantynovska. Ela tem 79 anos e está aprendendo a atirar com um fuzil Kalashnikov, sob a orientação de um militar ucraniano. No dia em que a foto foi tirada, Valentyna declarou desejar estar pronta para enfrentar os invasores russos. A imagem da “Vovó de Kalashnikov” correu o mundo como símbolo do espírito guerreiro e da resistência do povo ucraniano.

Mas a história não termina aqui. Outras fotografias tiradas no mesmo dia revelaram que o treinamento paramilitar do qual Valentyna fez parte está sendo oferecido aos civis ucranianos pelo Batalhão de Azov – uma milícia de extrema-direita vinculada ao Ministério do Interior da Ucrânia.

Nos valores e na estética, o Batalhão de Azov tem claro parentesco com o Nazismo: seus soldados usam como insígnia uma runa que também estampava tanques do exército alemão durante a Segunda Guerra. Outros símbolos nazistas também são utilizados.

Em 2010, o criador da milícia (e ex-parlamentar) Andriy Biletsky declarou que a missão da Ucrânia era “liderar as raças brancas do mundo em uma cruzada final contra os Untermenschen [“sub-humanos”] liderados por semitas”.

O próprio FBI já classificou o Batalhão de Azov como uma “unidade paramilitar associada à ideologia neonazista”. Apesar de tudo isso, o Azov tem autorização oficial para agir livremente, inclusive fazendo treinamento militar e doutrinação de crianças.

Não é só isso: além da agenda ultranacionalista, há relatos do envolvimento do Batalhão de Azov – e outros grupos paramilitares que atuam em parceria com as Forças Armadas da Ucrânia – em casos de violações de direitos humanos durante os protestos de 2014, incluindo episódios de tortura, execuções, estupro, saque, limpeza étnica, destruição de locais de culto e perseguição violenta de imigrantes e de minorias como judeus, homossexuais e... russos (já que os russos são uma minoria na Ucrânia).

Isso justifica a invasão da Ucrânia? Óbvio que não. Mas cria nuances que a narrativa da grande mídia decidiu ignorar.

Quando Putin usa o pretexto da desnazificação da Ucrânia para invadir o país, ele certamente exagera e mascara as suas verdadeiras intenções. Mas o pretexto foi oferecido pelo próprio governo da Ucrânia, ao abrigar e apoiar oficialmente uma milícia neonazista.

Por outro lado, quando a grande mídia e as Big Techs do Ocidente tentam reduzir tudo que acontece na Ucrânia a um conflito entre o bem e o mal, é óbvio que elas também estão a serviço de uma agenda. É o que explica o relativismo moral do Facebook, que liberou, vejam só, posts elogiando o Batalhão de Azov, desde que sejam posts atacando a Rússia.

Em uma guerra, a primeira vítima é sempre a verdade. A frase – atribuída a Ésquilo, ao senador americano Hiram Johnson e ao político britânico Philip Snowden, entre outros – nunca foi tão verdadeira.

O vídeo

O vídeo mostra um tanque de guerra russo atropelando e esmagando um carro civil em um subúrbio de Kiev, na sexta-feira passada. Milagrosamente, o motorista não morreu (pelo menos não na hora do atropelamento): na sequência do vídeo aparecem imagens de pessoas tentando resgatá-lo do que restou do carro.

Não há muito a dizer. São imagens mais do que representativas do horror desta guerra, do horror de todas as guerras. Para o piloto do tanque, o motorista do carro não era um ser humano, era apenas um alvo a ser abatido. Somente a desumanização do inimigo permite a um ser humano esmagar um semelhante como se fosse uma barata. (E que ninguém venha dizer que foi sem querer...)

Conta-se que uma heroína de guerra russa, Lyudmila Pavlichenko, matou mais de 300 soldados alemães durante a Segunda Guerra. Quando lhe perguntaram quantos seres humanos ela tinha matado, ela respondeu: “Nenhum. Só matei fascistas”. Ou seja, para ela, os fascistas não eram seres humanos. O piloto do tanque assassino poderá responder a mesma coisa: não atropelei nenhum ser humano, só um ucraniano nazista.

O perigo dos dias atuais é esse direito (de desejar a extinção do outro sem qualquer remorso) extrapolar o contexto da guerra e se tornar aceitável (e até bonitinho) em tempos de paz: em uma época na qual qualquer pessoa pode ser chamada de fascista e execrada publicamente – basta discordar da opinião do militante que toma Toddynho e acha que está salvando a humanidade cada vez que lacra no Facebook – não faltarão heróis que, com a consciência tranquila, dirão que não cancelaram, nem perseguiram, nem destruíram a vida de ninguém. Só de fascistas.

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