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Cinco diferenças entre Daniel Ortega e Angela Merkel
| Foto: Reprodução Instagram

Como se sabe, Daniel Ortega foi reeleito no último dia 8 para o seu quinto mandato como presidente da Nicarágua. Houve quem achasse isso muito natural, perguntando qual seria a diferença entre o ditador nicaraguense e Angela Merkel, chanceler da Alemanha nos últimos 16 anos.

Seguem abaixo algumas respostas à pergunta, que vão muito além das óbvias especificidades dos sistemas presidencialista e parlamentarista - que já tornariam, por si sós, a comparação absurda. Mas as diferenças entre Ortega e Merkel são muito maiores.

1)

Durante a campanha eleitoral deste ano, Daniel Ortega mandou prender todos os sete pré-candidatos presidenciais que, segundo os institutos de pesquisa, deveriam derrotá-lo nas urnas – entre eles Cristiana Chamorro, Arturo Cruz e Félix Maradiaga, acusados de traição à pátria. Mandou prender, inclusive, ex-companheiros revolucionários que se tornaram símbolos da oposição à ditadura sandinista, como Dora Maria Tellez, Hugo Torres e o ex-vice-chanceler Victor Hugo Tinoco.

Além disso, impedidos de enviar observadores ao país, os Estados Unidos e a União Europeia classificaram como ilegítima a reeleição de Ortega (e de sua mulher Rosario Murillo, como vice-presidente). O casal, vejam só, recebeu 75% dos votos! Um fenômeno de popularidade.

(A reeleição de Ortega não foi reconhecida, tampouco, por diversos países da América Latina, embora um partido brasileiro tenha emitido nota parabenizando o "feito" do ditador e caracterizando sua vitória como “uma grande manifestação popular e democrática”.)

Ao que se saiba, Angela Merkel nunca mandou para a prisão seus adversários, nem jamais foi levantada qualquer suspeita sobre a lisura das eleições que venceu.

2)

Como revelou o jornal espanhol “El País” em dezembro de 2010, na reportagem “A Nicarágua de Ortega”, o ditador nicaraguense recebeu vultosos recursos do narcotráfico e do governo chavista venezuelano. A dinheirama servia, entre outras coisas, para pagar as campanhas eleitorais da FSLN – Frente Sandinista de Libertação Nacional, o partido do ditador. Em contrapartida, Ortega ordenava que o Judiciário libertasse traficantes presos (este é o problema de um Judiciário aparelhado e servil).

Ao que se saiba, Angela Merkel nunca foi financiada pelo narcotráfico, nem recebeu dinheiro de ditaduras, nem constrangeu o Judiciário alemão a libertar traficantes.

3)

Em 2018, revoltados contra os abusos de poder, os recorrentes escândalos de corrupção e as arbitrariedades em série do regime Ortega-Murillo, milhares de nicaraguenses foram as ruas para pedir o fim da ditadura. Os protestos, que duraram 100 dias, foram declarados ilegais e violentamente reprimidos por Daniel Ortega, que também censurou e mandou fechar vários órgãos da imprensa.

A resposta brutal da ditadura sandinista resultou em mais de 300 mortes, incluindo a da estudante brasileira Raynéia Gabrielle Lima, vítima de disparos efetuados por uma milícia paramilitar no sul de Manágua.

Protesto contra o casal Ortega em Manágua, em 2018
Protesto contra o casal Ortega em Manágua, em 2018

Mais de 2.000 manifestantes desapareceram, e houve incontáveis denúncias de tortura. Mas, em um discurso indignado, a dublê de primeira-dama e vice-presidente chamou os manifestantes de “minúsculos”, “vândalos”, “delinquentes”, “vampiros”, “terroristas”, “golpistas” e “diabólicos”: “Não passarão!”, esbravejou. “Os diabólicos jamais governarão a Nicarágua!”.

Ao que se saiba, os alemães nunca foram em massa às ruas para protestar contra abusos de poder e escândalos de corrupção envolvendo Angela Merkel; ela jamais declarou ilegal ou reprimiu violentamente qualquer manifestação contrária ao seu governo, nem tampouco mandou fechar jornais ou perseguir jornalistas. Seu vice jamais desqualificou cidadãos alemães. E não existem casos de opositores torturados ou desaparecidos durante seu governo.

4)

Ortega interferiu diversas vezes na Constituição da Nicarágua para se perpetuar no poder. Com a cooperação de um Legislativo submisso e amedrontado, burlou abertamente regras da democracia e do presidencialismo, eliminando, por exemplo, qualquer restrição a reeleições intermináveis e estabelecendo a regra de maioria simples em um só turno na eleição presidencial.

O ditador também criou a “Lei de Defesa dos Direitos dos Povos à Independência”, que determina que pessoas que participaram de protestos contra o governo estão proibidas de se candidatar a cargos majoritários.

Ao que se saiba, Angela Merkel jamais tentou subordinar a Constituição a seus interesses políticos para se perpetuar no poder. Nem tentou proibir críticos ao seu governo de se candidatarem.

5)

Como se não bastasse esse currículo de Daniel Ortega na política, em março de 1998 sua enteada Zoilamérica Narváez Murillo o acusou, em uma carta aberta publicada em vários jornais, de abusos sexuais recorrentes e de agressões físicas e psicológicas cometidas desde que ela tinha 12 anos. Uma denúncia formal foi apresentada e devidamente arquivada: alegou-se que Ortega, então integrante da Assembleia Nacional da Nicarágua, gozava de imunidade parlamentar.

Ao que se saiba, Angela Merkel nunca foi acusada de abusos contra crianças.

Resumindo, em que pesem eventuais equívocos de seu governo, Angela Merkel sempre respeitou as instituições e as regras da democracia. Já Daniel Ortega é um ditador sanguinário, que trata a Nicarágua como sua propriedade particular.

Não fazer distinção entre os dois significa não entender (ou fingir não entender) a diferença entre uma ditadura e uma democracia. É assustador.

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