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E se as teorias da conspiração forem mais que meras teorias?
E se as teorias da conspiração forem mais que meras teorias?| Foto: iStockphoto

Mesmo no limitado lapso de tempo de uma geração, parece haver fases em que as coisas ficam meio paradonas em termos de desenvolvimento histórico, e outras em que, ao contrário, a História parece se acelerar bruscamente, como que movida por um impulso irrefreável.

Em vários aspectos, estamos vivendo uma fase assim. A pandemia e os experimentos sociais que ela ensejou – em termos de controle da população, certamente, mas não somente isso – acabaram por articular e potencializar uma série de movimentos que, seguramente, já estavam em curso, mas que, no cenário global sem precedentes criado pela Covid 19, ganharam enorme tração.

Cito a esmo, como exemplos: a estranha aliança entre a esquerda e o grande capital, a consolidação da juristocracia, o consenso fabricado em torno da agenda ESG, a generalizada lacração woke, o empoderamento dos movimentos identitários, a ideologia de gênero, a censura nas redes sociais, a polarização maniqueísta da política, a intolerância disfarçada de tolerância, a criminalização do pensamento, o ódio do bem, a adoção pela grande mídia de uma narrativa única, a ressignificação da censura, a naturalização da linguagem neutra (e de outras práticas que, não muito tempo atrás, seriam rechaçadas como simplesmente ridículas). Etc.

Não é apenas no Brasil, está acontecendo também nos Estados Unidos, no Canadá e na maioria dos países da Europa e da América Latina. Não há para onde fugir. Aliás, a frequente simultaneidade de determinadas pautas em diferentes pontos do planeta gera a percepção de uma ação coordenada – mesmo naquelas pessoas que costumam desconfiar de teorias da conspiração.

Como se sabe, a expressão "teoria da conspiração" tem uma conotação negativa, sendo muitas vezes usada para ridicularizar opiniões impopulares ou intimidar quem não segue a cartilha do pensamento único.

Fato é que, na maioria dos casos, teorias da conspiração não correspondem mesmo à realidade: elas simplesmente atendem a uma necessidade psicológica e emocional de atribuir sentido a um mundo sem sentido.

Mas há coisas que são tão esquisitas que só mesmo uma teoria da conspiração é capaz de explicar. Freud dizia que, às vezes, um charuto é apenas um charuto. Conspirações, por sua vez, nem sempre são teoria.

Conspirações tampouco são, necessariamente, fruto de uma mente paranoica. Às vezes elas acontecem de verdade – especialmente quando o que está em jogo é a manipulação da opinião pública a serviço de uma agenda ideológica.

A simultaneidade de determinadas pautas em diferentes pontos do planeta gera a percepção de uma ação coordenada – mesmo naquelas pessoas que costumam desconfiar de teorias da conspiração

Neste caso, as conspirações podem mesmo acontecer a céu aberto, sem qualquer preocupação com o sigilo – especialmente quando o sujeito da agenda é um consórcio peculiar entre megacapitalistas, grandes corporações da mídia e instituições governamentais.

A acelerada implementação dessa agenda engendra, inclusive, uma nova forma de democracia: a democracia sem confronto de ideias, sem convívio saudável de diferenças, sem oposição real, sem liberdade de expressão e, principalmente, sem povo.

A própria História recente vem sendo reescrita em um ritmo vertiginoso. Personagens da política e acontecimentos ainda frescos na memória são reinventados e repaginados sem a menor cerimônia ou pudor.

É assim que a liberdade de expressão funciona na nova democracia: quem discorda está sujeito a ser perseguido e esfolado nos tribunais.

Ainda outro dia uma importante liderança política defendeu abertamente a adoção de uma determinada narrativa para um determinado fim. E se eu não falo quem foi é porque a autocensura – que é um subproduto inevitável da censura – já está em plena vigência no nosso país.

Não é de hoje que jornalistas minimamente críticos e independentes estão se policiando e medindo as palavras, sobretudo depois de verem o que aconteceu com alguns colegas mais corajosos.

Aliás já me antecipei à censura, digo, à regulamentação das redes sociais que se anuncia para breve: já há algum tempo só posto textos fofos, fotografias da praia ou comentários sobre partidas de xadrez. Isso, por enquanto, acho que ainda pode.

Porque é assim que a liberdade de expressão funciona na nova democracia – celebrada e aplaudida, aliás, por muitos jornalistas: quem discorda está sujeito a ser perseguido e esfolado nos tribunais sumários das redes, ou mesmo em tribunais convencionais. Tempos muito estranhos.

Mas, ao menos na percepção do cidadão comum, o movimento atual de supressão das liberdades e imposição de um consenso artificialmente fabricado não tem nada de espontâneo, ao contrário. Ele pressente estar em curso um ambicioso projeto de uniformização de corações e mentes, ao qual fica cada vez mais complicado resistir.

Diante da escalada da repressão à liberdade de pensamento e expressão, este cidadão, que trabalha e paga boletos e impostos, se vê sendo reduzido, cada vez mais, ao papel de espectador passivo dos acontecimentos. Entre amedrontado e perplexo, ele observa consternado que da perseguição não estão livres sequer jornalistas consagrados e parlamentares eleitos.

Ele intui que algo de muito ruim e errado está acontecendo, mas engole em seco antes de reclamar. Por medo de também ser esmagado por poderosas forças ocultas, ou nem tão ocultas assim. Ele adere, então, à espiral do silêncio, fenômeno que já abordei em outro artigo.

É claro que tudo isso resulta, por outro lado, em um abismo crescente entre os senhores da narrativa e a sociedade real. Ainda mais em um país onde até o passado é imprevisível, ninguém pode saber ao certo onde isso vai dar. Mas a História demonstra que todas as tentativas de controle da sociedade e supressão das liberdades terminaram muito mal.

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