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Exibicionisno moral e bom-mocismo ‘fake’ ameaçam a democracia
| Foto: Divulgação

“Um outrora entusiasmado participante de guerras culturais on-line refletiu recentemente (...): ‘Sempre que eu chamava alguém de racista ou sexista, eu sentia a adrenalina. Essa descarga de adrenalina era reafirmada e prolongada pelos corações, ‘joinhas’ e estrelas que representam as moedas de aprovação das mídias sociais’”.

Esse trecho do livro “Virtuosismo moral – As ideias por trás dos cancelamentos, boicotes e difamações nas redes sociais”, de Brandon Warmke e Justin Tosi, aponta para um aspecto importante da epidemia de bom-mocismo fake que tomou conta da sociedade: além de conquistar o apoio e reconhecimento dos pares, perseguir e massacrar os outros para afirmar a própria virtude traz uma recompensa emocional e psicológica valiosa para quem tem uma vida medíocre.

“Quando alguém usa o grandstanding, é consideravelmente motivado pelo desejo de ser visto pelos outros como uma pessoa moralmente respeitável”, escrevem os autores. “Este é um defeito de caráter, mas o impulso agressivo de prejudicarmos outra pessoa apenas para demonstrar algo a nosso respeito é bastante comum. Infelizmente, as pessoas muitas vezes se mostram dispostas a tirar vantagem de outros para exibir uma boa autoimagem”.

Esta é apenas uma das explicações do “grandstanding (exibicionismo) moral”, que pode ser definido como o uso do discurso moral para fins de autopromoção. Não é algo novo, mas seguramente o fenômeno foi potencializado pelas redes sociais.

Apontar o dedo com uma mão e bater no peito com a outra virou o grande ritual social da nossa época. De uma hora para outra, milhões de pessoas encontraram nessa prática perversa um sentido para suas existências enfadonhas. Por isso, cada vez mais as pessoas em busca de plateia e reconhecimento vivem à caça de oportunidades para investir contra equívocos morais alheios, reais ou imaginados, só para mostrar como elas próprias são “do bem”.

Fazem parte do grandstanding a indignação de butique, os insultos em conversas virtuais, a difamação, as frases feitas e os chavões morais, bem como o uso de rótulos e acusações graves que não podem ser provadas – formas que os imbecis encontram de se sentir moralmente superiores a quem pensa de forma diferente. O propósito não é defender uma causa ou persuadir o outro, é massacrar todo aquele que é percebido como adversário, em linchamentos coletivos nos quais a responsabilidade individual se dilui, e nos quais a arrogância compensa.

Para as “milícias do bem”, já se tornou rotina enviar ameaças ao alvo da vez, molestar sua família e seus amigos e – o cúmulo da falta de caráter – pressionar o empregador do “transgressor” para que ele seja demitido

É claro que a coisa e complicou ainda mais quando esse exército de “mendigos de likes” foi cooptado e arregimentado pelo campo político-partidário autointitulado progressista, que canaliza todo o ódio e ressentimento de uma massa de gente infeliz contra adversários escolhidos a dedo. Hoje, qualquer um que ouse pensar fora da caixinha politicamente correta do progressismo identitário se tornou um alvo potencial desse ódio. Jornalistas e professores, particularmente.

Declarar-se conservador ou de direita nas redações e nas salas de aula virou algo até perigoso. Como escrevem os autores, “Jornalistas costumam ser duramente atacados com mensagens de ódio por escreverem coisas que as pessoas não querem ouvir a respeito de suas figuras políticas favoritas (ou daquelas que desprezam). Acadêmicos que entram em conflito com as últimas tendências ideológicas em suas áreas são ameaçados de exílio profissional ou coisas ainda piores. Até mesmo espectadores desavisados acabam pisando no campo minado que é nossa guerra cultural contemporânea, experimentando a ira de uma multidão sequiosa por atenção”.

Pior: já se tornou rotina para membros dessas “milícias do bem” enviar ameaças ao alvo da vez, molestar sua família e seus amigos e – cúmulo da escrotidão e da falta de caráter – pressionar o empregador do “transgressor” para que ele seja demitido.

Em vez de buscar o diálogo, os exibicionistas morais usam de má-fé para descrever as crenças e propostas políticas se seus adversários, questionam sua integridade e encorajam os outros a evitá-los. Eles não querem a solução harmoniosa de um conflito, preferem o estardalhaço que traz pouco resultado. Um usuário do Twitter citado pelos autores comentou: “É estranho, mas eu posso digitar coisas nesta caixa que destruirão a minha vida”.

Qualquer debate saudável depende de certas condições sociais e culturais, como um ambiente favorável à liberdade de expressão, espaço para a discordância sensata e algum grau de abertura a novas ideias. O grandstanding destrói tudo isso: ele mina a confiança entre os indivíduos, estimulando o cinismo em relação ao discurso moral público e promovendo a polarização. Nas palavras dos autores, o grandstanding “torna as democracias mais vulneráveis ao perigo das facções; ele torna difícil para membros de partidos opostos deixarem de lado suas diferenças e negociarem para resolver problemas em termos aceitáveis para todos”. Ou seja, além de criar divisões em uma sociedade; o grandstanding também torna difícil superar essas divisões.

Warmke e Tosi vão além: “O objetivo da ação política é resolver problemas, não criar um fórum para a glorificação daqueles que dele participam. Mas, quando a política se torna um desfile de moralidade, os oponentes têm um incentivo para manter intactos os problemas – ou, pior ainda, talvez: têm incentivo para se engajar num ativismo sem absolutamente nenhum objetivo claro. Nós antecipamos que quanto mais a política se torna um fórum para a exibição das qualidades morais de alguém, mais as pessoas se dedicarão ao ativismo em benefício próprio, simplesmente como veículo para a vaidade”.

Este é um dos paradoxos da hipocrisia do grandstanding dos políticos: quando um agente político consegue tudo o que quer, a sua função deixa de ter sentido. Se para um indivíduo o que mais importa é ser um ator político, então resolver os problemas sociais atrapalha os seus planos, porque a possibilidade de obter status por meio de grandstanding desapareceria.

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