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Dez anos após o impeachment de Dilma Rousseff, o Brasil encara uma constatação incômoda: um processo que mobilizou a sociedade com a promessa de renovação da política acabou desembocando, ironicamente, na restauração das forças que pretendia superar.
Na época, o afastamento de Dilma foi defendido por amplos setores como remédio constitucional e resposta legítima à deterioração fiscal e à erosão da confiança da população. As pedaladas fiscais foram o argumento jurídico formal, mas o que importava mesmo era o pano de fundo político: a reação a um governo fragilizado e inepto, cercado por denúncias da Operação Lava Jato.
Parecia o momento de virar a página do ciclo do PT no poder – partido que, aos olhos de boa parte da população, transformara o Estado em uma máquina de corrupção e destruição da economia. A punição exemplar de mensaleiros e petroleiros e a expectativa de reformas para tirar o Brasil do atoleiro estatista justificavam a esperança.
Mas o que parecia o fim de uma era se tornou frustração dolorosa. Dez anos depois, Lula está no fim do terceiro mandato e, ao que tudo indica, concorrerá ao quarto. Essa reversão de expectativas não se deveu somente às urnas, mas à aliança, explicitada mais tarde, entre o PT, parte da grande mídia, a parcela ativista do Judiciário e as elites financeiras – em suma, o sistema.
Vamos recapitular. Quando Michel Temer assumiu, o mercado comemorou. A aprovação da PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista proposta por Temer pareciam sinalizar que o Brasil finalmente entraria no século 21. Por sua vez, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, com 57 milhões de votos, confirmou o desejo popular de aposentar o lulopetismo.
Mas veio a contraofensiva articulada. O Judiciário, que emergira como protagonista no combate à corrupção, sofreu uma inflexão decisiva. A Lava Jato, símbolo da responsabilização, inédita no país, de elites políticas e empresariais, perdeu fôlego em meio a controvérsias sobre métodos e excessos. Decisões posteriores anularam condenações emblemáticas e reconfiguraram o entendimento sobre competências e procedimentos.
O Brasil de 2026 está mais velho, mais endividado, mais triste e mais cansado que o de 2016
O STF, que durante anos pareceu determinado a combater a corrupção, desmontou a operação com duas ou três canetadas. Libertou Lula após 580 dias de prisão e anulou suas condenações, com o argumento formalista da incompetência territorial”. Não foi uma absolvição, mas uma escolha política, resultado de uma convergência de interesses.
A grande mídia, que em 2016 havia sido feroz contra Dilma, com direito a editoriais hostis quase diários, mudou de lado com impressionante velocidade, mandando às favas os valores e princípios que anteriormente defendia. Essa dinâmica se acentuou ainda mais a partir de 2019, quando a cobertura jornalística se voltou sistematicamente contra o governo Bolsonaro, amplificando seus erros até o delírio.
Nas eleições de 2022, construiu-se o enredo da “democracia em risco”. A mesma mídia que antes aplaudia a Lava Jato passou a tratar a operação como exceção autoritária. O foco deslocou-se para narrativas seletivas, na tentativa de moldar a opinião pública. E, com o descrédito da Lava Jato, antigos réus confessos voltaram a ser parceiros leais.
As elites financeiras completaram o serviço. Banqueiros, industriais e gestores de fundos de investimento, que vibraram com o impeachment de Dilma e com a reforma da Previdência de Temer, também viraram a casaca em 2022. O argumento, agora, era a necessidade de “previsibilidade”: melhor um Lula moderado, cercado por Fernando Haddad e Geraldo Alckmin, que um Bolsonaro imprevisível.
O mercado financeiro, que tanto lucrou com a estabilidade fiscal pós-2016, preferiu fechar os olhos para os riscos de um governo que havia quebrado o país. O capital rentista, sempre pragmático, trocou o combate à corrupção pela garantia da continuidade dos subsídios amigos e do aumento do gasto público. Ideologia? Este conceito não cabe nas planilhas de balanço financeiro.
O custo dessa traição coletiva é evidente. Dez anos depois, o Brasil enfrenta os mesmos problemas pré-2016: aparelhamento da máquina pública, inflação corroendo o poder de compra dos mais pobres, polarização alimentada como ferramenta de perpetuação no poder. Alianças fisiológicas e distribuição de cargos para o Centrão convivem com narrativas de justiça social e defesa da democracia.
Não foi falta de oportunidade. O impeachment de Dilma abriu uma janela para mudanças profundas, mas preferiram fechá-la, preservando privilégios e narrativas. A consequência é mais uma década perdida: o Brasil de 2026 está mais velho, mais endividado, mais triste e mais cansado que o de 2016.
Por tudo isso, o marco de dez anos do impeachment convida a uma reflexão menos passional e mais analítica. O problema não se limitava – e não se limita hoje – a um partido ou a um governo específico. Trata-se de um sistema que tende à autopreservação, no qual diferentes atores, mesmo quando em aparente conflito, acabam convergindo para soluções que garantam seus interesses.
O impeachment, apresentado como inflexão histórica – o fim de um ciclo marcado por escândalos, aparelhamento e crise econômica – hoje pode ser visto menos como um ponto de virada e mais como um interlúdio. Um momento de ruptura aparente, que não se traduziu em transformação duradoura. Mudanças reais exigem mais que a substituição de líderes: requerem a disposição de corrigir vícios e enfrentar estruturas, algo que o Brasil ainda não foi capaz de fazer.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos









