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Jason Miller, o cidadão americano detido em Brasília por… ser conservador
| Foto: Reprodução Twitter

Entre os vários episódios do Sete de Setembro que ainda não receberam a devida atenção – porque foram ofuscados pelo tamanho das manifestações e pelos próprios discursos do presidente – o mais significativo foi a detenção arbitrária e a tentativa de interrogatório de Jason Miller, cidadão americano.

Para que não sabe, o ex-conselheiro do presidente Donald Trump foi abordado no Aeroporto Internacional de Brasília quando se preparava para deixar o país: conduzido à sala da Polícia Federal, foi informado de que não estava sendo acusado de ter feito nada errado: “Queremos apenas conversar”, foi o que lhe disseram, segundo contou Miller mais tarde.

O americano e sua equipe ficaram em silêncio: “Informamos que não tínhamos nada a declarar”. Acabaram sendo liberados – quatro horas depois.

Ou seja, durante quatro horas, um cidadão americano sobre quem não pesa nenhuma acusação formal ficou proibido pela Justiça brasileira de deixar o país. Em condições normais, seria algo bastante grave. Mas, como se sabe, vivemos uma situação anormal: estamos vivendo uma nova ordem jurídica, sob os auspícios da grande mídia.

(E me permitam abrir aqui um longo parêntesis:

A nova lei – subtítulo do filme “Minority Report”, de Steven Spielberg, distopia atualíssima na qual as pessoas são presas antes de cometer crimes – é a seguinte: se for para sabotar, enfraquecer ou derrubar o ditador genocida, vale tudo. Às favas os escrúpulos de consciência.

O Judiciário parece estar autorizado – pelo próprio Judiciário – a inovar na interpretação da Constituição para legitimar perseguições e prisões por crime de opinião (é o “crimideia” concebido por George Orwell em “1984”).

Antigamente, a ideia de harmonia entre os Poderes implicava que cada Poder respeitaria seus limites constitucionais, sem invadir competências alheias, com o Executivo governando, o Legislativo legislando e o Judiciário zelando pelo respeito à Constituição. Coisa do passado. Hoje o Judiciário pode legislar, e o Legislativo pode se unir ao Judiciário na missão nobre de atrapalhar a vida do chefe do Executivo.

A grande mídia, por sua vez, aplaude. Está definitivamente cancelado qualquer compromisso com a defesa da liberdade de expressão e com a isenção no trato com a notícia; a ordem agora é classificar como antidemocrática e golpista qualquer manifestação de gente ordeira vestida de verde e amarelo. Democráticas são aquelas manifestações cheias de bandeiras vermelhas que invariavelmente terminam com pneus queimados, vidraças quebradas e barricadas no meio da rua. São as famosas festas da democracia.

A exemplo de Cuba, todos que tiveram suas imagens gravadas estão sujeitos a acordar com a polícia batendo na porta e uma ordem de prisão – ou, pelo menos, um “Só queremos conversar”. E será bem feito!

Para desqualificar centenas milhares de manifestantes (e dezenas de milhões de votos), basta pinçar imagens de cartazes de gatos pingados defendendo intervenção militar que está tudo certo. Já nos protestos em defesa democracia cartazes pedindo explicitamente a ditadura do proletariado são tolerados com simpatia. Num e noutro caso, é a mídia “do bem” quem determina que imagens são representativas das manifestações – e quais manifestações representam o povo.

E a conclusão é a seguinte: a multidão que foi às ruas no Sete de Setembro “não representa o povo”. Está decretado que quem representa o povo é a turma que fica gritando “genocida!” nas redes sociais enquanto se aglomera sem máscara nos bares da zona sul do Rio de Janeiro. Mas atenção, tome cuidado, porque tudo tem limite, e mesmo frequentar bares pode ser perigoso: na nova ordem, se você ousar falar mal de um ministro do STF em uma conversa de botequim e algum defensor da democracia ouvir, também corre o risco de ser preso.

Não se iluda, é para o seu bem: os defensores da democracia, dentro e fora das redações, sabem que as crianças, os idosos, os deficientes, as famílias inteiras reunidas ontem pacificamente em Brasília, em São Paulo, no Rio de Janeiro etc são fascistas que merecem ser publicamente execrados e esfolados vivos. A exemplo de Cuba, todos que tiveram suas imagens gravadas estão sujeitos a acordar com a polícia batendo na porta e uma ordem de prisão – ou, pelo menos, um “Só queremos conversar”. E será bem feito!

Mas está tudo bem, porque, na cabeça dos juízes que têm lado, dos defensores da democracia e dos jornalistas do bem, essa gente toda vestida de verde e amarelo nem gente é: não são cidadãos, não são eleitores, não são sequer seres humanos: são apenas “bolsonaristas”, e como tal podem ser desprezados, perseguidos e odiados sem culpa.

Os jornalistas também estão autorizados a brigar com as imagens: o povo – Ops! Os fascistas disfarçados de povo! – pode comparecer aos milhões nas ruas, não importa; a mídia vai dar sempre um jeito de minimizar o impacto das manifestações e de demonstrar que não tinha tanta gente assim: foi tudo ilusão de ótica. Metodologias sofisticadas demonstraram que as manifestações foram bem mequetrefes (“Entenda”). Mas negacionistas são os outros.

Eu já tinha cantado essa pedra no artigo “Como será a batalha do Sete de Setembro, nas ruas e na mídia”.

Mas fecho aqui o parêntesis, já demasiado longo, para voltar ao caso Jason Miller.)

Pois bem, parece que estamos vivendo em um país no qual “Queremos apenas conversar” já é justificativa para deter informalmente um cidadão estrangeiro, que não fez nada de errado, por quatro horas. A frase lembra, aliás, os clichês dos filmes de mafiosos e, nos filmes, geralmente é usada quando querem intimidar alguém.

A não ser que seja revelado que Jason Miller é um perigoso criminoso internacional, isso equivale a dizer que vivemos em uma ordem na qual passaram a existir leis e crimes informais, tipificação que não está prevista na Constituição mas permite às autoridades deter, interrogar e constranger qualquer pessoa, inclusive um estrangeiro que, até onde foi divulgado, não violou nenhuma lei.

Mas aí é que está: Jason Miller pode não ter violado nenhuma lei formal, mas talvez tenha cometidos várias violações informais. E a primeira delas é... ser conservador - o que, como todos sabem, é um crime hediondo aos olhos dos defensores da democracia. Continuo no próximo artigo.

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