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Há fotografias que não precisam explicar nada para dizer muito.
A imagem dos ministros do STF dando risadas e conversando descontraidamente, enquanto uma crise envolvendo as relações entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro domina o noticiário, pertence a essa categoria.
Magistrados não são obrigados a representar permanentemente a gravidade das circunstâncias. O problema da fotografia não está no que ela demonstra. Está no que ela simboliza. E ela encontra uma analogia pronta na nossa história: o Baile da Ilha Fiscal.
Na noite de 9 de novembro de 1889, a monarquia brasileira ofereceu uma grande recepção na Ilha Fiscal, no Rio de Janeiro. Havia ministros, diplomatas, militares, aristocratas, uniformes, joias, música e champanhe. Seis dias depois, a República seria proclamada.
O tempo transformou aquela festa em símbolo — talvez injustamente, porque D. Pedro II não estava propriamente dançando às vésperas de perder o trono. Mas os símbolos obedecem a uma lógica própria. O Baile da Ilha Fiscal sobreviveu porque condensou, em uma única cena, a distância entre a percepção daqueles que estavam no poder e a realidade que se movia do lado de fora.
Os convidados festejavam. O regime acabava.
É essa dissociação que torna a fotografia do STF tão perturbadora. Não se trata de equiparar uma crise institucional contemporânea ao colapso da monarquia. A analogia seria historicamente preguiçosa. A questão é outra: instituições podem demorar a perceber a dimensão de uma crise de legitimidade que já se tornou evidente para a sociedade.
Quem está dentro de uma instituição enxerga os acontecimentos a partir de suas próprias referências. Conhece os bastidores, as pessoas envolvidas, as disputas internas e informações que o público não tem. Isso pode produzir uma espécie de cegueira involuntária diante daquilo que, para quem está de fora, já adquiriu um significado evidente.
Em 1889, havia música na Ilha Fiscal. Em Brasília, há risadas no Supremo
Os ministros que aparecem na fotografia podiam estar reagindo a um comentário engraçado, nada mais. Não sabemos o que aconteceu antes ou depois daquele instante. Mas a fotografia não precisa revelar suas intenções para produzir um efeito. Instituições não vivem apenas daquilo que são. Vivem também daquilo que parecem ser — e da confiança que conseguem inspirar.
O clima de camaradagem na foto, nas circunstâncias atuais, não inspira confiança na sociedade, ao contrário. Ela parece mostrar uma instituição que, diante de uma questão gravíssima, se comporta como se tudo estivesse normal. As risadas sugerem indiferença e distância em relação à crise. O problema é que a distância e a indiferença, quando se instalam entre as instituições e a sociedade, só agravam o cenário.
Um gesto, uma expressão ou uma fotografia de poucos segundos podem condensar sentimentos que vinham se acumulando há muito tempo. A imagem não cria necessariamente a desconfiança; muitas vezes, apenas oferece uma forma para que ela se reconheça.
O poder, porém, raramente se desfaz no instante em que perde a confiança. Durante algum tempo, ele pode conservar intactos seus instrumentos, suas prerrogativas e sua capacidade de impor decisões. O que começa a desaparecer antes é outra coisa: a disposição dos governados de reconhecer autoridade naquilo que o poder faz.
É uma diferença sutil, mas decisiva. Instituições podem permanecer formalmente intactas enquanto sua autoridade simbólica se desgasta. Talvez seja justamente esse desgaste que uma fotografia consegue revelar.
Aqui está o ponto de contato entre a fotografia e a Ilha Fiscal. O que a memória histórica transformou em símbolo foi a impressão de que uma elite continuava celebrando dentro de um universo próprio enquanto, fora dele, tudo estava desabando. A Monarquia tinha perdido a capacidade de enxergar a si mesma pelos olhos daqueles sobre os quais exerce autoridade. É o que pode estar acontecendo novamente. Em 1889, havia música na Ilha Fiscal. Em Brasília, há risadas no Supremo.
A fotografia importa porque registrou, involuntariamente, uma metáfora: de um lado, uma crise que exige respostas capazes de restaurar a confiança; de outro, ministros da mais alta corte do país aparentemente se sentindo protegidos pela rotina, pela proximidade com seus pares e pela convicção de que as instituições continuarão de pé.
Talvez continuem, mas já não serão as mesmas.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




