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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Derrubar um líder não basta

O erro de Trump no Irã

Trump ignorou uma lição da história: derrubar um ditador não basta. Regimes autoritários também sobrevivem pela adesão de parte da sociedade. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Donald Trump afirmou ter ficado chocado ao ver a multidão de iranianos chorando no funeral do aiatolá Ali Khamenei. Disse que sempre acreditou que a população odiava o líder iraniano. A surpresa revela mais do que uma avaliação equivocada: ela expõe uma velha ilusão, a de que basta remover o tirano para libertar o povo.

A presença de multidões em funerais de líderes autoritários não pode ser interpretada como uma fotografia da alma de uma nação. Em sociedades submetidas a longos períodos de controle político, uma demonstração pública de luto pode reunir convicção religiosa ou ideológica, medo, pressão social, coerção e até oportunismo. Pessoas comparecem porque acreditam, porque temem, porque se identificam com parte da narrativa do regime ou simplesmente porque se acostumaram a viver dentro dele.

Ainda assim, o funeral gigantesco de um homem que, aos olhos do Ocidente, simbolizava décadas de repressão revela um fato frequentemente ignorado: ditaduras não sobrevivem apenas pela força. Com o tempo, elas constroem vínculos emocionais, identidades coletivas e mecanismos de adaptação psicológica.

A ilusão de que basta remover o tirano para desencadear uma revolta popular é sedutora em sua simplicidade: existe um ditador no topo e um povo oprimido embaixo; basta eliminar o primeiro para que o segundo faça o resto. Mas a história quase nunca funciona assim. Sociedades não são máquinas esperando que uma peça seja retirada para voltar ao normal.

A surpresa de Trump ajuda a explicar por que a estratégia americana de eliminar a liderança iraniana não produziu a esperada mobilização popular. Trump parece ter partido da mesma premissa que orientou outras tentativas de mudança de regime patrocinadas pelos Estados Unidos: a de que eliminar a liderança bastaria para abrir caminho para o restabelecimento de uma ordem democrática.

A surpresa de Trump expõe uma velha ilusão: a de que basta remover o tirano para libertar o povo

Por exemplo, a deposição de Saddam Hussein eliminou o ditador do Iraque, mas não produziu a democracia estável que os estrategistas previram. Ela resultou em anos de guerra civil, fragmentação política e violência sectária. Derrubar um governo foi muito mais simples do que reconstruir as instituições, as lealdades e a cultura política sobre as quais a nova ordem precisava se apoiar.

A política não é feita apenas de escolhas racionais. O poder religioso iraniano construiu, ao longo de décadas, uma narrativa que combina fé, identidade nacional e soberania, criando uma espécie de escudo emocional contra ameaças externas. Foi justamente por ignorar essa dimensão que a estratégia de Trump fracassou.

A psicologia política ajuda a compreender esse fenômeno. Em Medo à Liberdade, Erich Fromm observou que muitos indivíduos experimentam a liberdade não como conquista, mas como fonte de angústia. Hannah Arendt, por sua vez, mostrou que os regimes totalitários consolidam seu poder não apenas pela coerção, mas também por meio de narrativas que reorganizam a realidade e transformam o poder autoritário em elemento da identidade coletiva.

A história oferece diversos exemplos. Muitos russos ainda preservam uma memória positiva de Stalin, apesar dos milhões de mortos sob seu governo. Muitos chineses continuam vendo Mao Zedong como herói da China moderna, apesar das tragédias do Grande Salto Adiante e da Revolução Cultural. Na Coreia do Norte, uma dinastia construiu uma relação quase religiosa entre poder e identidade nacional.

Às vezes, a morte de um líder enfraquece um regime. Outras vezes, fortalece seus símbolos, alimenta o sentimento de cerco nacional e aproxima ainda mais a população do poder estabelecido.

Derrubar um líder pode eliminar um governante, mas dificilmente elimina, por si só, as crenças, os vínculos e as estruturas que sustentam um regime. O autoritarismo frequentemente se adapta, sobrevive e pode até se fortalecer diante de crises externas. O verdadeiro erro de Trump não foi subestimar a força da ditadura, mas superestimar a rapidez com que uma sociedade abandona o regime sob o qual aprendeu a viver.

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