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O que seria pior para o sistema: a continuidade de Luiz Inácio Lula da Silva ou a eventual vitória de Flávio Bolsonaro? A resposta é menos simples do que parece. Ela depende menos de preferências ideológicas do que dos diferentes riscos que os dois candidatos representam para o poder estabelecido. Na ausência de uma alternativa competitiva, o sistema terá de escolher, em algum momento, aquele que enxergar como o menor dos males.
Empenho não faltou para viabilizar uma terceira via. Desde que Tarcísio de Freitas saiu do páreo, tentaram, com todas as forças, alavancar Romeu Zema, Ronaldo Caiado e até mesmo Renan Santos. Mesmo com todo o apoio midiático que receberam, nenhum deles conseguiu decolar.
Com a mesma intensidade — e com alguma ajuda do fogo amigo da "direita permitida" — tentaram inviabilizar a candidatura de Flávio. Também não deu certo. Como alertei na coluna "Estão tentando transformar Flávio na terceira via", esta eleição estava destinada, desde o início, a contrapor, mais uma vez, o bolsonarismo e o lulismo.
A explicação está menos nas características individuais dos candidatos do que no ambiente político criado pela crise de representação da última década. O centro tradicional perdeu capacidade de mobilização porque deixou de representar, para o eleitorado, uma alternativa capaz de traduzir seus desejos e frustrações.
Lula e Flávio Bolsonaro representam riscos distintos. Mas a dura verdade é que os diferentes atores que compõem o sistema não agirão por ideologia, muito menos por amor ao Brasil. Eles sempre apoiarão o candidato que melhor preservar seus interesses, seja qual for a consequência para o cidadão comum.
O risco associado a Lula está no prolongamento de um modelo que beneficiou, até aqui, o sistema — basta observar os lucros recordes dos bancos —, mas já dá sinais claros de esgotamento. A combinação entre expansão do gasto público, baixa produtividade, dependência das commodities e falta de reformas estruturais pode levar o país ao colapso.
A vantagem de Lula é ser conhecido. O lulismo, apesar de suas contradições, opera dentro de uma lógica institucional que acomoda interesses e favorece as elites. Flávio, por sua vez, representa um risco de natureza diferente: não a deterioração econômica, mas a dificuldade de construir os compromissos necessários para preservar os pilares que sustentam a continuidade do sistema. Associado a uma base de contestação às práticas tradicionais, incluindo o modelo que favorece os bancos e sufoca cada vez mais o cidadão comum, Flávio é menos domesticável, o que preocupa elites acostumadas à estabilidade e ao controle.
O eleitor é tratado como peça secundária nesse jogo de forças, mas continua sendo o elemento decisivo. O que é pior para o sistema não é necessariamente pior para o Brasil
Nenhum dos dois caminhos parece seguro para o sistema. Lula oferece continuidade, mas traz o risco de aprofundar um modelo exaurido. Flávio representa uma chance de correção de rumos, mas traz incertezas sobre sua capacidade de construir pontes duradouras que favoreçam a negociação, a acomodação e a absorção das diferenças.
Essa diferença explica o comportamento ambíguo de alguns atores do sistema. Sem alternativa viável fora da polarização, cada um deles procura mitigar danos e preservar sua capacidade de influência.
A grande mídia, por exemplo, apresenta comportamento oscilante: ora se distancia de Lula ao denunciar casos de corrupção e expor a fragilidade da economia; ora atua como sua aliada, amplificando seu discurso e minimizando seus erros. Essa dualidade reflete a tentativa de não fechar portas antes do desfecho eleitoral, mas também a dificuldade de conciliar críticas ao modelo atual com o receio de uma ruptura.
O mercado financeiro adota postura ainda mais pragmática. Seu objetivo não é escolher um candidato por razões ideológicas, mas reduzir riscos. A Faria Lima conhece as limitações do modelo econômico vigente e sabe que a fatura pode ser alta nos próximos anos. Ainda assim, parece preferir Lula, mas procura manter canal de diálogo com Flávio para tentar preservar as engrenagens fundamentais do sistema caso ele vença.
O Judiciário ocupa posição ainda mais sensível nessa equação. Desde a crise política iniciada em 2016, o STF ampliou de forma extraordinária sua presença na política. Questões antes restritas ao Legislativo passaram a ser decididas pela Corte. Como consequência desse protagonismo, passou ele próprio a ser julgado por critérios políticos. Uma parcela expressiva da sociedade enxerga decisões do STF como exercício abusivo de poder e acredita que o campo majoritário da Corte deseja impedir, a qualquer custo, a vitória de Flávio, ainda que isso aprofunde a crise de confiança no Judiciário.
Uma instituição criada para arbitrar conflitos depende da percepção pública de neutralidade. Quando parte relevante da população acredita que ela atua para influenciar o resultado de uma eleição, mesmo sob o argumento de proteger a democracia, sua legitimidade é afetada.
O eleitor é tratado como peça secundária nesse jogo de forças, mas continua sendo o elemento decisivo. As narrativas construídas por elites políticas, econômicas e institucionais podem influenciar percepções, mas não substituem a escolha popular. Em última instância, cabe à sociedade decidir se prefere a continuidade de um modelo conhecido ou a aposta em uma mudança cujo resultado permanece incerto. O que é pior para o sistema não é necessariamente pior para o Brasil.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




