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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) utilizou a tribuna da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22), para reafirmar as frequentes críticas ao seu homólogo norte-americano Donald Trump em relação à política externa e para defender o que considera como soberania nacional.
As críticas, sem citar diretamente Trump ou os Estados Unidos, foram feitas durante o discurso de abertura da 81ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em que o Brasil tradicionalmente inicia os debates. Logo após Lula, o presidente norte-americano também discursa por ser o país sede do órgão.
"Somos chamados a optar pelo multilateralismo ou unilateralismo, soberania ou subordinação", disse Lula em um dos trechos do discurso. O petista vem, desde o ano passado, acusando os Estados Unidos de impor uma política de parcerias unilaterais com a ameaça de sobretaxas sobre países que não fecham acordos.
Em outro momento, afirmou que o atual secretário-geral da ONU, António Guterres, foi "testemunha direta dos crescentes desmandos da super potência" e, ainda, que o Brasil "não cabe no quintal de ninguém".
Citando países como Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba, Lula afirmou que o mundo sofre de "ingerência externa" em eleições; criticou o andamento de guerras pelo mundo que, na visão dele, podem levar a uma escalada global; e que o Brasil está ciente das dificuldades que têm no combate ao crime organizado.
Afirmou que entregou uma proposta de cooperação com Trump para a luta contra o tráfico de drogas, como uma resposta às recentes investidas dos Estados Unidos em afirmar que o Brasil falha em combater facções criminosas como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC).
"Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei", pontuou.
Ainda durante o discurso, Lula defendeu a regulação das "big techs" e da inteligência artificial, criticou o desenvolvimento da tecnologia supostamente sem ética, citou a exploração das terras raras em território nacional, falou sobre as mudanças climáticas no mundo e ressaltou a "soberania" do PIX, o sistema de pagamentos brasileiro que foi apontado como concorrência desleal aos norte-americanos.
Em relação às guerras atualmente em andamento no mundo, Lula defendeu a paz entre Israel e Palestina e acusou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, de promover um genocídio em Gaza. O petista, porém, classificou o grupo Hamas como terrorista, algo que, no começo do conflito, evitou fazer publicamente.
"Gerações de palestinos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", pontuou o petista.
Na parte do discurso em que direcionou críticas diretas aos Estados Unidos, mas sem qualquer citação nominal, Lula afirmou que "governos capitulam" no mundo "frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem". Essa prática vem sendo feita por Trump desde o começo deste segundo mandato, provocando crises internas principalmente com o Judiciário e externas com velhos parceiros comerciais.
Eleições decisivas pela "democracia", diz Lula
Ainda durante o discurso, em que também falou de seus feitos no governo, Lula classificou a eleição presidencial de outubro como uma decisão "entre democracia e negacionismo" e "avançar rumo ao futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de exclusão".
"Não permitiremos que os inimigos da democracia internos e externos atentem contra a vontade popular. A democracia pertence aos brasileiros, o Brasil continuará sendo um país soberano e ninguém nos afastará desse caminho", disparou defendendo o sistema eleitoral brasileiro.
O petista costuma criticar seu principal oponente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), de se aliar a Trump e aos interesses dos Estados Unidos.
Neste mesmo sentido, em outro momento do discurso, Lula afirmou que a América Latina voltou a presenciar o que chamou de "ingerência externa" em processos eleitorais e que "a democracia está novamente em xeque".
"Os países da região conheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. [...] A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos", disparou.
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Críticas à ONU
Seguindo com um discurso semelhante ao adotado em outros fóruns internacionais, Lula voltou a criticar duramente a ONU e seu Conselho de Segurança por não cumprirem com seu papel de barrar o andamento de guerras pelo mundo, afirmando que há um sentimento de "indignação".
"A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa", afirmou.
Para ele, o Brasil já havia alertado, em 1946, para o risco de que o "direito de veto" dos membros fixos do Conselho (Estados Unidos, China, França, Reino Unido e Rússia) poderia gerar para o mundo. Lula disparou que esse "vício de origem" levou a um "pecado de origem" que permitiu aos países o que chamou de "privilégio da insensatez".
Retomada da campanha eleitoral no Brasil
Lula volta ao Brasil no começo da tarde para retomar a campanha eleitoral na quarta-feira (23). A comitiva presidencial deste ano é composta por 73 pessoas entre ministros e auxiliares e a primeira-dama Janja da Silva, que o acompanhou na ONU.
Desde que chegou a Nova York no domingo (20), Lula tem se encontrado com lideranças de esquerda dos Estados Unidos para discutir ações de Trump em relação a outros países – que o petista diz que age como um “imperador do mundo” – e defender ações como a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Havia a expectativa de um encontro reservado com Trump, o que não ocorreu, de acordo com informações preliminares. No ano passado, os dois presidentes se esbarraram nos bastidores do evento e tiveram uma "química", segundo disse o norte-americano.
Encontro com esquerdistas
Na segunda-feira (21), Lula teve reuniões com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, com o senador Bernie Sanders e com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi. As conversas giraram em torno de críticas a Trump, mudanças climáticas e a defesa da soberania dos países.
No mesmo dia, em entrevista à CNN Internacional, Lula afirmou que já pediu a Trump para não interferir nas eleições brasileiras de outubro e classificou o tarifaço imposto pelo governo do país norte-americano como “mentiras”. Ele também voltou a citar a possibilidade de aplicar a Lei da Reciprocidade caso as negociações para reduzir as sobretaxas não levem a um resultado satisfatório.
O presidente brasileiro também criticou a ação militar dos Estados Unidos na Venezuela que levou à prisão o ditador Nicolás Maduro, no começo do ano, chamando o ato de “afronta gravíssima à soberania da Venezuela”. Para ele, as ações do país norte-americano “não são boas para a democracia”.








