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Polarização política agrava crise de identidade do jornalismo
| Foto: Reprodução Instagram

O Reuters Institute publicou esta semana o conceituado relatório “Digital News Report 2021”, que monitora já há 10 anos o comportamento do consumidor de notícias ao redor do planeta. Alguns resultados deveriam ser alarmantes para as grandes empresas de comunicação, particularmente no Brasil, mas tudo indica que elas continuarão alheias aos sinais do colapso que se aproxima.

Por exemplo, o relatório revela que o percentual de brasileiros que pagam para ler conteúdos jornalísticos online despencou de 27% para 17% em apenas um ano. Pior ainda é a situação do jornalismo impresso: somente 12% dos brasileiros citaram jornais e revistas de papel como fonte de informação (contra 23% no ano passado). Em outras palavras, os modelos de negócio vigentes – pelo menos aqueles que envolvem assinaturas como receita relevante – estão em queda livre.

Diferentes fatores ajudam a entender essa queda assustadora.

Em primeiro lugar, parece evidente que o fenômeno das redes sociais produziu uma mudança real de paradigma na relação dos leitores com as notícias. Criou-se um cenário no qual todos produzem conteúdos para todos, 24 horas por dia, sete dias por semana. Como ninguém tem tempo para consumir tudo que se publica, o excesso de oferta consolida um novo modelo, de “jornalismo” à la carte, que fornece incessantemente notícias e opiniões customizadas para todos os gostos, sobre qualquer assunto.

Por exemplo, para uns Bolsonaro já está reeleito, para outros ele cai na semana que vem. Basta pensar também na cobertura da pandemia: o leitor que atribui ao governo a responsabilidade pelas mortes por Covid 19 tem ao alcance do mouse toneladas de artigos, pesquisas e reportagens que confirmam sua opinião.

Mas o leitor que isenta o governo de culpa também tem: esta semana mesmo foi divulgado que a Universidade de Oxford está pesquisando a eficácia da Ivermectina como tratamento para Covid. Para quem passou as últimas semanas elogiando Renan Calheiros e a CPI por massacrarem médicos que defenderam o tratamento precoce, basta ignorar solenemente a notícia. Ninguém vai cobrar coerência de quem luta pelo nobre objetivo de sabotar o governo. Desnecessário dizer, se amanhã descobrirem que a Ivermectina é eficaz, ninguém vai pedir desculpas: não se pede desculpa a genocidas.

Mas o fato é que os grandes veículos de comunicação já não detêm o monopólio da informação de outrora. O chamado “quarto poder” se pulverizou. É um processo lento, mas irreversível. O antigo modelo, no qual poucos produziam conteúdos para muitos, vive uma crise estrutural, da qual ainda não descobriu como sair.

O grande jornalismo se aproximou das redes sociais no que elas têm de pior: na superficialidade, no imediatismo, no opinionismo e na adesão a uma agenda ideológica

No relatório do Instituto Reuters, as redes sociais já aparecem à frente da televisão como “fonte de notícias” para os brasileiros. O que sinaliza uma confusão reveladora: as pessoas deixaram de fazer distinção entre jornalismo e mera produção/divulgação de conteúdos opinativos. Notícia passou a ser tudo aquilo que se divulga, seja fruto de uma apuração rigorosa, seja uma opinião do blogueiro da vez.

Mas a mudança de comportamento dos consumidores de conteúdos não deve ser atribuída exclusivamente a inovações tecnológicas, nem é uma consequência necessária da explosão das redes sociais. Aqui vai uma interpretação altamente pessoal: isso está acontecendo porque os grandes veículos de comunicação caíram em uma armadilha.

Em vez de apostar na qualidade e no rigor e em vez de mobilizar seus recursos para investir em jornalismo de qualidade, com apurações e rigorosas e tendo a imparcialidade como um horizonte – já que não existe imparcialidade absoluta – is grandes jornais e revistas ficaram com inveja do engajamento alcançado por youtubers e blogueiros (e agora tiktokers) sem qualquer formação e decidiram emular e se deixar pautar por eles. Na minha humilde opinião, foi uma decisão errada. Se perseverarem nesse caminho, o futuro será sombrio.

O grande jornalismo se aproximou das redes sociais no que elas têm de pior: na superficialidade, no imediatismo, no opinionismo, até numa certa irresponsabilidade no tratamento dos fatos, sem falar na clara adesão a uma agenda ideológica que contraria os valores dos brasileiros comuns. Não optaram por fazer melhor algo que só ele pode fazer, mas por competir fazendo algo que outros fazem melhor.

Nessa competição por agendar os assuntos que serão discutidos pela sociedade, os grandes jornais desceram ao nível do blog do Felipe Neto e outros influencers, que se tornaram, vejam só, exemplos de grandes profissionais a seguir.

O resultado é que essas empresas estão perdendo o seu principal capital: a credibilidade. Aliás, somente em um cenário de crise de confiança dos leitores é possível explicar o fenômeno das agências de checagem – só faltou entenderem que essas agências já nasceram sem qualquer credibilidade, já que ninguém checa as checagens das agências de checagens, geralmente dominadas por gente despreparada e ideologicamente motivada.

Resumindo: em vez de buscar se diferenciar do que é oferecido gratuitamente no Facebook, no Twitter, nos grupos de WhatsApp, no Instagram e em blogs de subcelebridades as mais diversas, as empresas de jornalismo adotaram a estratégia de imitar, na forma e no conteúdo, aquilo que é oferecido nessas plataformas.

O resultado óbvio é que o cidadão comum deixa de ter motivo para pagar por “notícias”, uma vez que opinião, torcida e palpite ele tem de graça nas redes sociais.

É por isso que os grandes veículos estão vivendo não somente uma crise financeira, mas também uma crise de identidade. Naturalmente, esse processo é agravado pela polarização política: em uma sociedade rachada entre dois grupos antagônicos, a tendência é cada um buscar ler somente aqueles conteúdos que confirmem suas opiniões e valores: é o chamado “viés de confirmação”.

Aqui, mais uma vez, seja na cobertura da pandemia, da política ou da CPI, o que importa é ler quem tem a mesma opinião que a minha, não interessa se em um grande jornal, em um potal pago ou no blog gratuito da celebridade da vez. Mas nada de bom pode vir da surdez deliberada ao que diz e pensa o “outro lado”, da cegueira aos valores e opiniões de minorias barulhentas e maiorias silenciosas.

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