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Bastou ser divulgado o resultado oficial do segundo turno para que se operasse, na grande mídia, uma reordenação brusca e sincronizada de narrativas. Já no dia seguinte, os principais jornais e portais se alinharam em torno do mesmo diagnóstico: a derrota de Flávio aposenta o bolsonarismo e abre espaço para uma nova liderança da direita, de preferência Tarcísio de Freitas.
O exílio político do candidato derrotado é tratado no mesmo tom. Sua dramática fuga para os Estados Unidos, segundo essa leitura, seria o golpe de misericórdia em um movimento em desagregação. Parece haver um esforço coordenado para consolidar rapidamente um “novo normal”, no qual vivemos uma democracia plena, as instituições funcionam normalmente e o país pode, enfim, voltar a respirar sem o fantasma do radicalismo.
Acho que não entenderam nada. Ou entenderam, mas fingem que não.
O primeiro grande erro dos analistas de plantão está na incompreensão das forças políticas em conflito. Da mesma forma que o lulismo não é sinônimo de esquerda, o bolsonarismo não é sinônimo de direita. Lula e a família Bolsonaro não são peças substituíveis em um tabuleiro burocrático. São fenômenos de massa essencialmente personalistas. Da mesma forma que não existe esquerda competitiva fora do lulismo, não existe direita competitiva fora do bolsonarismo.
Essa ilusão de substituição ficou demonstrada nos meses que antecederam o primeiro turno, quando foi notável o empenho do sistema em emplacar uma terceira via. Tentou-se, de todas as formas, inflar as candidaturas de Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e até de Renan Santos, além do próprio Tarcísio. O plano parecia factível nos gabinetes e nas redações, mas faltou combinar com o eleitorado: a direita orgânica e popular não aceita herdeiros por decreto.
Durante quatro anos tentaram destruir o bolsonarismo de todas as maneiras – e deu no que deu. Acredito que a tentativa precoce de aposentar o bolsonarismo pela via da desqualificação e do apagamento tende a fracassar mais uma vez. O resultado oficial das urnas, por si só, não tem o poder mágico de apagar as causas estruturais que levaram mais da metade do país a rejeitar o projeto governista já no primeiro turno.
O desfecho inesperado do segundo turno tampouco muda os fatores concretos que fizeram Flávio vencer o primeiro: a perda severa do poder de compra da população, o aumento alarmante da violência urbana, a má qualidade dos serviços públicos e a percepção difusa, mas profundamente enraizada, de que o STF age de forma parcial, extrapolando suas funções constitucionais em uma rotina de proteção aos amigos e censura e perseguição aos adversários. Justificada ou não, esta é a percepção de boa parte da sociedade – e, em política, percepção importa.
Não há qualquer sinalização institucional de que isso vai mudar. Ao contrário, a tendência é que todos esses fatores de insatisfação social se agravem nos próximos meses.
A tentativa de pintar o cenário atual com as cores da normalidade institucional esbarra, portanto, na crueza dos fatos. Vivemos objetivamente a seguinte situação: o principal líder da oposição se encontra incomunicável, em prisão domiciliar, e o principal candidato da mesma oposição, favorito em praticamente todas as pesquisas de intenção de voto, julgou necessário deixar o país antes de ter seu passaporte apreendido por ordem de um ministro do STF.
O que está no forno, pronto para ser servido à sociedade, é um bolo cuja receita combina ingredientes altamente explosivos
Não é preciso entrar no mérito jurídico dessas situações para constatar o óbvio: esta não é uma situação normal ou saudável em uma democracia que se pretenda plena. Isso sem falar no interminável inquérito das fake news, nos presos de 8 de janeiro, nos políticos e jornalistas no exílio e na relativização recorrente da liberdade de expressão, alimentando um ambiente de censura e autocensura que se dissemina por toda a sociedade. É preciso ser muito otimista — ou deliberadamente cego — para acreditar que um sistema político operando sob tamanha assimetria e tensão pode produzir alguma estabilidade duradoura.
Os próximos meses prometem ser bem feios. A euforia inicial de parte do eleitorado de Lula tende a passar bem depressa, engolida pela realidade prática de um país em severa crise econômica e moral. Neste aspecto, é um cenário semelhante ao segundo governo de Dilma, que foi reeleita após fazer promessas impossíveis e acabou sendo expelida pelo sistema.
O que está no forno, pronto para ser servido à sociedade, é um bolo cuja receita combina ingredientes altamente explosivos.
O primeiro ingrediente é o descrédito de metade da população em relação ao processo eleitoral. É compreensível: nesta eleição foram tolerados disparos em massa em grupos de whatsapp e outras estratégias digitais que na eleição passada foram rigorosamente proibidos; gastos governamentais estratosféricos em plena campanha, que também costumavam ser proibidos, foram tratados como pequenas estripulias; como cereja do bolo, a prorrogação extemporânea do horário de votação alimentou, inevitavelmente, a desconfianças (justificada ou não) de dezenas de milhões de brasileiros.
O segundo ingrediente é o descrédito em relação ao STF, um sentimento que tende a aumentar geometricamente se as investigações em curso avançarem de forma seletiva (acelerada contra opositores e devagar quase parando no caso dos aliados do poder) – e à medida que novas vagas na Corte forem preenchidas, a depender dos nomes indicados.
Por fim, entre todos os economistas sérios, como Marcos Lisboa e o próprio Armínio Fraga, há o consenso de um colapso econômico à vista. O governo eleito se encontra em uma encruzilhada fiscal perigosa: ou tentará uma correção de rumos dolorosa e impopular através da austeridade – produzindo recessão e repetindo o estelionato eleitoral que marcou o início do segundo mandato de Dilma Rousseff – ou seguirá pelo caminho populista de dobrar a aposta na gastança irresponsável, acelerando a inflação, o desemprego e, consequentemente, a violência. A segunda hipótese parece mais provável.
Ou seja, o Brasil continua dividido não entre direita e esquerda, mas entre o lulismo e o bolsnarismo. A fratura atual ultrapassa, contudo, as divergências ideológicas do passado. A diferença não está mais em interpretações diferentes da mesma realidade: o país vive duas realidades paralelas, separadas por uma fenda intransponível.
Em uma dessas realidades, já abraçada e reverberada pela grande mídia, o bolsonarismo termina após esta eleição, restando à oposição o caminho da domesticação sob uma nova liderança palatável ao sistema – a chamada “direita permitida”. Na outra realidade, vivida por milhões de cidadãos nas ruas e nas redes, o bolsonarismo sai desse processo ainda mais fortalecido, porque alimentado por uma engrenagem que – mais uma vez, napercepção dessas pessoas – jogou com cartas marcadas. Qual dessas duas realidades prevalecerá?
O certo é que o bolsonarismo não morreu. Ele apenas observa e aguarda, do outro lado da fenda, o colapso inevitável do "novo normal" que já começam a tentar impor.

Luciano Trigo é jornalista e escritor, autor de "Guerra de narrativas - A crise política e a luta pelo controle do imaginário" (2018) e "O ano em que a Terra parou - Polarização da política e a escalada da insanidade" (2021). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




