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Hungarian Prime Minister Viktor Orban delivers his annual state of the nation speech in Budapest, Hungary, February 12, 2022. Slogan reads “Let’s go forwards, not backwards!”. REUTERS/Bernadett Szabo
Hungarian Prime Minister Viktor Orban delivers his annual state of the nation speech in Budapest, Hungary, February 12, 2022. Slogan reads “Let’s go forwards, not backwards!”. REUTERS/Bernadett Szabo| Foto: REUTERS

Apesar da inédita frente ampla que uniu a oposição do país, juntando partidos de esquerda e direita, o primeiro-ministro da Hungria Viktor Orbán, contrariando as pesquisas, que previam uma disputa acirrada, foi reeleito com folga neste domingo, conquistando seu quinto mandato (o quarto seguido: ele ocupou o cargo entre 1998 e 2002, voltou em 2010 e não saiu mais).

Seu partido, o Fidesz, considerado nacionalista e ultraconservador, deve conquistar mais de dois terços das 199 cadeiras do Parlamento, o que garantirá vida fácil ao premiê nos próximos quatro anos.

Orbán é frequentemente acusado de violar a democracia, enfraquecer as instituições, sequestrar o poder Judiciário, controlar a imprensa e perseguir a oposição.

A mídia ocidental o pinta como uma figura execrável, um fascista reacionário genocida heteronormativo antidemocrático etc. Uma figura execrável em todos os aspectos. E, no entanto, ele mantém altos índices de popularidade em seu país, vencendo eleição após eleição. Como pode?

A primeira explicação é econômica: a população da Hungria prefere estabilidade a mudanças - ainda mais no contexto de insegurança e risco nos países europeus provocado pela guerra na Ucrânia. Combinando uma política econômica liberal com medidas populares, como leis que beneficiam os aposentados, a Hungria vem apresentando indicadores econômicos satisfatórios e um contexto de crise.

Outra explicação é histórica: o apego da sociedade a governos de direita tem raízes na opressão soviética nos tempos do comunismo - bastando lembrar o massacre de 1956, quando tanques russos invadiram o país e milhares de civis foram executados ou presos. Ali ficou claro que qualquer dissidência seria esmagada.

(Reparem: todos os países do Primeiro Mundo que experimentaram o comunismo real valorizam mais as liberdades individuais que a narrativa coletivista socializante. As teorias da esquerda são lindas e muito atraentes para os xovens de coração puro, mas a História demonstra que a prática é bem diferente.

A teoria na práxis é outra: jamais haverá justiça social sem uma economia próspera, e jamais haverá prosperidade econômica com planejamento central do Estado. O máximo a que se pode almejar em um país socialista é a redução das desigualdades por meio da socialização da miséria. Basta olhar para a Venezuela. Simples assim.)

No embate entre progressistas e conservadores pela mudança de valores e costumes, o respeito à infância ainda é um limite que a sociedade não admite que seja ultrapassado

Sem conhecer em profundidade as nuances da política húngara, eu me arrisco a acrescentar uma terceira explicação para o sucesso de Orbán, que está associada a outra votação que aconteceu esta semana na Hungria: ele encarna hoje em seu país a resistência a um projeto global muito sofisticado de destruição de valores associados à família.

(É um processo ao qual se assiste diariamente também no Brasil, diga-se de passagem. A eleição de Bolsonaro em 2018 também deveu muito à adesão da esquerda a uma agenda de costumes que é claramente rejeitada pela maioria da população.)

Dias antes da eleição que garantiu um novo mandato a Orbán, os húngaros também votaram maciçamente em um referendo sobre o direito dos pais de decidir como educar seus filhos. O referendo foi decorrência de uma lei de proteção das crianças aprovada pelo Parlamento húngaro em julho de 2021.

A sociedade húngara rejeitou de formal cabal, com mais de 92% dos votos, a introdução da ideologia de gênero no currículo e aulas de educação sexual compulsória nas escolas públicas do país, entre outras coisas.

O referendo também incluía perguntas sobre promoção ou divulgação de tratamentos de mudança de sexo e transição de gênero para menores de idade, incluindo a veiculação de reportagens sobre o tema nos canais de televisão. A rejeição à pauta progressista foi ainda mais acachapante: mais de 95% dos eleitores votaram “Não”.

Como era de se esperar, a militância do ódio do bem classificou o referendo como sendo prejudicial à comunidade gay. Orbán respondeu que a intenção da lei é combater a pedofilia e defender os direitos dos pais contra o que ele identifica como um poderoso lobby LGBTQIA+: “É a defesa dos direitos das crianças e dos pais, só isso”, declarou. “O futuro de nossos filhos está em jogo, então não podemos ceder nessa questão”.

Evidentemente, qualquer discriminação ou manifestação de intolerância contra minorias de gênero deve ser rejeitada e combatida. Mas o texto do referendo e a campanha em torno dele deixaram claro que não se tratava de incentivar o preconceito contra homossexuais, nem de promover a homofobia nas escolas públicas, e a sociedade húngara compreendeu isso – como demonstra o resultado do referendo. Ou será que mais de 90% dos húngaros são pessoas más, que defendem a perseguição a homossexuais?

O dever da tolerância e a luta pela igualdade de direitos são algo muito diferente de uma campanha orquestrada para implementar um experimento social nas escolas, cujas consequências só aparecerão lá na frente. No embate entre progressistas e conservadores pela mudança de valores e costumes, o respeito à infância ainda é um limite que a sociedade não admite que seja ultrapassado, na Hungria como no Brasil.

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