
Ouça este conteúdo
Durante bastante tempo, a cultura do cancelamento pareceu um fenômeno irreversível. Nas redes sociais, bastava uma mobilização repentina — um post indignado, uma denúncia amplificada, um coro de reprovação — para que reputações fossem demolidas em poucas horas. Um deslize, uma piada infeliz, uma frase mal formulada ou uma opinião impopular bastavam para ameaçar carreiras inteiras.
Artistas, intelectuais e acadêmicos aprenderam rapidamente as regras implícitas desse novo tribunal moral: alinhar-se às campanhas de cancelamento era prova de virtude; questioná-las, sinal de cumplicidade com o mal. Em uma era dominada pelas redes, o cancelamento consolidou-se como instrumento de justiça rápida e implacável, evoluindo para um mecanismo de linchamento virtual.
Criticar publicamente um colega acusado tornou-se uma forma rápida de demonstrar alinhamento — uma espécie de seguro reputacional. Ao participar do linchamento, esperava-se evitar ser linchado. Mas cada nova onda de indignação redefine os limites do aceitável. Quem ontem parecia estar do lado certo da História descobre, de repente, que ficou do lado errado da versão atualizada.
A armadilha é inevitável: quem empunha a tocha da moralidade digital descobre, mais cedo ou mais tarde, que a chama queima nos dois sentidos. Quem legitima o cancelamento como forma de justiça moral admite implicitamente que esse mecanismo poderá ser usado contra qualquer um — inclusive contra quem o defende.
Diferentemente dos sistemas jurídicos formais, a cultura do cancelamento não tem critérios claros, procedimentos previsíveis nem direito de defesa. Seu funcionamento se baseia em uma dinâmica permanente de indignação. Cada nova campanha precisa demonstrar mais fúria que a anterior; cada nova geração de militantes precisa provar que é mais vigilante e moralmente rigorosa.
Nesse ambiente, ninguém permanece seguro por muito tempo. Quando a punição social substitui o debate racional, todos passam a viver sob vigilância constante.
Um episódio recente ilustra bem essa instabilidade. O ator Timothée Chalamet, um dos nomes mais celebrados de sua geração em Hollywood, protagonizou o filme “Um Dia de Chuva em Nova York”, dirigido por Woody Allen. Quando o movimento #MeToo ganhou força, antigas acusações nunca comprovadas contra o cineasta voltaram aos holofotes, e Chalamet decidiu romper publicamente com o diretor.
Chalamet cuspiu no prato em que comeu: declarou arrependimento por ter participado do filme e anunciou que doaria seu salário a causas feministas. Naquele momento, seu gesto foi celebrado como exemplar. Atores progressistas buscavam demonstrar alinhamento com a nova ética cultural, e a decisão parecia perfeitamente sintonizada com o espírito da época.
A lógica do cancelamento exige uma escalada contínua de pureza moral. O que ontem era prova suficiente de virtude pode se tornar insuficiente amanhã — ou até suspeito. É exatamente o que está acontecendo com Chalamet.
Qualquer cultura que transforma a destruição de reputações em espetáculo acaba devorando seus protagonistas. Mais cedo ou mais tarde, a guilhotina que você afia para o outro apontará para o seu próprio pescoço
Nos últimos anos, ele já vinha recebendo críticas suaves nas redes por escolhas de papéis, comentários antigos e rumores sobre sua vida pessoal — nada particularmente grave, apenas o funcionamento rotineiro da engrenagem que ele próprio ajudou a legitimar. Mas a situação ganhou novo impulso há poucas semanas. Durante um evento organizado pela revista “Variety”, em Austin, o ator fez um comentário tolo, mas inofensivo, sobre ópera e balé. Disse não ter interesse em trabalhar com “coisas que tentam permanecer vivas mesmo quando ninguém mais parece se importar”.
A frase viralizou rapidamente. Comunidades ligadas à dança clássica e à ópera reagiram com irritação. Bailarinos, diretores e críticos o acusaram de elitismo e desprezo pela tradição. O episódio ganhou ampla cobertura e passou a ser tratado como um obstáculo à campanha de Chalamet ao Oscar de melhor ator. O ator que participara de um cancelamento emblemático viu-se, de repente, diante da mesma máquina que ajudara a legitimar.
O caso de Chalamet está longe de ser isolado. A história recente está repleta de episódios semelhantes: pessoas que celebraram o cancelamento de colegas descobrem, algum tempo depois, que também podem se tornar alvos. Jornalistas que exigiram demissões por opiniões controversas acabam afastados por declarações antigas. Professores universitários que defenderam punições a colegas acusados de heresia ideológica passam a enfrentar campanhas idênticas quando discordam das novas ortodoxias.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que cresce a reação contra a cultura do cancelamento. Cada vez mais artistas, escritores e intelectuais percebem que a lógica da exclusão permanente é incompatível com a própria ideia de cultura. A arte sempre foi espaço de ambiguidade, experimentação e risco. Muitas obras hoje consideradas clássicas nasceram em contextos moralmente complexos, criadas por autores controversos. Se cada criador tiver de passar por um teste permanente de pureza moral, a produção cultural tende a se tornar mais cautelosa, previsível e pobre.
O fenômeno dificilmente desaparecerá de uma hora para outra. Ele responde a incentivos poderosos: indignação gera engajamento; engajamento gera visibilidade; visibilidade produz poder simbólico. Mas, à medida que mais pessoas experimentam o outro lado do cancelamento — inclusive aquelas que antes o defendiam — torna-se cada vez mais evidente o caráter arbitrário e destrutivo dessa prática.
Hoje cancela-se um cineasta veterano. Amanhã cancela-se o jovem ator que tentou demonstrar virtude cancelando o veterano. Depois de amanhã cancela-se quem ousou criticar o próprio cancelamento.
No fim das contas, a lição é clara: qualquer cultura que transforma a destruição de reputações em espetáculo acaba, inevitavelmente, devorando seus próprios protagonistas. Mais cedo ou mais tarde, a guilhotina que você afia para o outro apontará para o seu próprio pescoço. Todos os canceladores serão cancelados.









