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Um passo a passo para perverter a democracia (2)
| Foto: Reprodução Instagram

Dando continuidade ao meu artigo anterior, prossigo com a análise do mapeamento feito pelo filósofo Noam Chomsky das estratégias utilizadas pelo “sistema” para controlar a opinião pública e perverter as regras da democracia. Entendendo por “sistema” não o poder formal constituído por meio de eleições limpas, mas um conjunto de forças que não necessariamente reconhece a legitimidade desse poder – e pode até confrontá-lo, caso o governo eleito contrarie seus interesses e sua agenda.

É o que acontece hoje, quando a grande mídia, representantes do poder Judiciário – inclusive ministros da Suprema Corte – e a elite intelectual e acadêmica sabotam abertamente o governo escolhido pela maioria, abandonando a isenção, a neutralidade e a honestidade intelectual que seriam de se esperar desses atores, na sua relação com a política.

Não existe mais sequer a preocupação, por parte desses atores em simular neutralidade, ao contrário: faz-se questão de assumir um lado, como se fosse natural juízes e jornalistas exercerem a militância política e promoverem o pensamento único. Hoje, no Brasil, o ativismo judiciário anda de braços dados com o ativismo jornalístico, como nas piores ditaduras: a diferença é que aqui esta aliança se faz contra o governo, e não a favor.

Não se pretende aqui defender nem elogiar o governo: trata-se apenas fazer o registro de uma situação anormal e altamente preocupante de partidarização e perda de credibilidade de instituições que deveriam ser neutras - ainda mais em um ano que promete ser marcado pela crescente polarização. A frustração do lado derrotado na próxima eleição, seja ele qual for, será imensa, o que aumenta a responsabilidade de quem detém o dever de zelar pela democracia - e o poder de influenciar o processo eleitoral.

Voltando ao mapeamento de Chomsky:

4 – Apelo emocional e temor:

“Apelar para o emocional de forma ou sentimentalista ou atemorizante com intuito de promover um atraso tanto na resposta racional quanto do uso do senso crítico. A utilização do registro emocional permite o acesso ao inconsciente e promove um aumento da suscetibilidade ao enxerto de ideias, desejos, medos e temores, compulsões, etc. e à indução de novos comportamentos.” 

Comentário:

A tática do terror foi bastante utilizada, por exemplo, na campanha de 2014: a ideia era espalhar entre os eleitores, sobretudo nos de menor renda e escolaridade, o medo de que, caso Dilma Rousseff não fosse reeleita, o Bolsa-Família e outros programas sociais fosem extintos. Até mesmo a candidata Marina Silva foi alvo desse ataque.

A ideia desse tipo de ação era explorar a desinformação e o medo entre os brasileiros mais carentes. O tempo mostrou que se tratava simplesmente de uma mentira. Dilma caiu, e o Bolsa-Família continuou. Bolsonaro foi eleito, e – surpresa – o Bolsa Família aumentou.

(Aumentou em um volume assustador, aliás: li que o Auxílio Brasil supera hoje o número de empregos com carteira assinada em 12 estados, principalmente no Nordeste. É claro que isso também ainda é consequência da tragédia da pandemia.)

O ativismo judiciário anda de braços dados com o ativismo jornalístico, como nas piores ditaduras: a diferença é que no Brasil esta aliança se faz contra o governo, e não a favor

5 – Valorizar a ignorância e a mediocridade:

“Manter em alta a popularidade de pessoas medíocres e ignorantes aumentando sua visibilidade na mídia, para que o estúpido, o vulgar e o inculto seja o exemplo a ser seguido principalmente pelos mais jovens.”

Comentário:

A promoção da ignorância, a celebração da vulgaridade, o incentivo ao português errado, a exaltação da falta de escolaridade, o desestímulo ao estudo e à leitura, a ideia de que o mérito e o esforço individual são falácias das elites – tudo isso era recorrente, de maneira subliminar ou explícita, na narrativa de governos passados.

Essa cultura foi mal camuflada pela criação de milhares de universidade de esquina, com farta distribuição de diplomas para bolsistas, para vender a ilusão de que os pobres teriam pela primeira vez acesso ao ensino superior no Brasil. E criou-se assim uma geração de graduados em lacração, sem emprego nem qualificação para nada, mas... orgulhosos de diplomas que valem cada vez menos.

Mas a conta só chega lá na frente. Causas têm consequências, e as consequências geralmente vêm depois. Como disse Darcy Ribeiro, “a crise da educação no Brasil não é uma crise: é um projeto”.

6 - Cultivar e incutir a culpa:

“Incutir, incentivar e reforçar a culpa do indivíduo quando do seu fracasso, dividindo assim a sociedade em duas categorias: a de vencedores e a de perdedores. O “perdedor” é o indivíduo que não possui habilidades ou competências para alcançar o sucesso que o outro tem. Daí a grande visibilidade que a mídia oferece a modelos minoritários de beleza e sucesso. (...) Ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo resigna-se e conforma-se com sua situação pessoal, social e econômica, atribuindo seu “fracasso” à sua completa incompetência. Culpar-se constantemente por isso, atua na formação de um desejado estado depressivo, do qual, origina-se a apatia.” 

Comentário:

Neste caso particular, a estratégia foi exatamente oposta. Quando ocupou o poder, a esquerda criou uma narrativa que incutia sistematicamente a culpa e a consciência pesada não nos brasileiros mais humildes, mas na classe média e nos formadores de opinião – intelectuais, artistas, professores, cineastas etc. E, principalmente, nos estudantes.

A má consciência persistentemente cultivada nas salas de aula das escolas e universidades com partido fez com que toda uma geração se sentisse portadora de dívidas históricas a saldar. De repente, todos passamos a ser culpados pelos danos e injustiças causados a qualquer minoria ao longo de 500 anos de História.

Uma dívida, evidentemente, impagável, mas que pode ser amortizada com posts lacradores nas redes sociais: basta posar de bonzinho e praticar o ódio do bem para esquecerem que você é rico, viaja para a Europa todos os anos e nunca entrou em um ônibus lotado. A elite hoje expia sua culpa e paga suas dívidas históricas se declarando de esquerda - enquanto mantém os privilégios de sempre.

Porque o objetivo dessa revolução do mimimi, ainda em pleno curso, não é de fato quitar dívida nenhuma: é criar uma situação na qual a dívida seja exposta e capitalizada diariamente, como ferramenta para constranger, intimidar e calar todos aqueles que divergem politicamente do grupo que se autoconcedeu o monopólio da representação das minorias historicamente exploradas.

(continua)

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