Bolsonaro na pandemia
Bolsonaro montou num cavalo em meio a uma aglomeração de pessoas em Campo Alegre de Loures (BA)| Foto: Alan Santos/PR

O presidente Jair Bolsonaro desrespeitou o distanciamento social recomendado pelas autoridades sanitárias e gastou mais com viagens pelo país durante a pandemia da Covid-19 do que no mesmo período do ano anterior. As despesas de março a dezembro de 2019 ficaram em R$ 7,2 milhões. No ano passado, chegaram a R$ 8,6 milhões – quase 20% a mais. Bolsonaro percorreu o país, sem usar máscara de proteção, promovendo aglomerações e distribuindo abraços e apertos de mão.

Considerando as viagens nacionais e internacionais, as despesas chegaram a R$ 10,4 milhões em 2019 e a R$ 11,4 milhões em 2020. Na soma dos dois primeiros anos de governo, foram gastos R$ 21,8 milhões, sendo R$ 2,7 milhões para participar de cerimônias militares ou visitas a instalações das Forças Armadas – atividades próprias de comandantes militares. Mas esses dados são relativos apenas aos escalões avançados. A Presidência da República mantém em sigilo, como prevê a legislação, os dados da comitiva presidencial. Os valores foram atualizados pela inflação.

Bolsonaro gastou R$ 9,6 milhões com viagens nacionais no ano passado, mas a despesa já estava em R$ 1,5 milhão até o início da pandemia (11 de março). A partir dali, foram gastos mais R$ 8,1 milhões. Com a atualização monetária, chegamos ao valor de R$ 8,6 milhões. No período de 11 de março até dezembro de 2019, foram gastos R$ 7,2 milhões em valores atualizados.

A “gripezinha” e as viagens de Bolsonaro na pandemia

Num primeiro momento, Bolsonaro subestimou a pandemia da Covid-19. Chegou a afirmar publicamente que seria apenas “uma gripezinha”. E criticou o isolamento social adotado em todo o mundo, porque a medida traria prejuízos à economia, com reflexos na população mais pobre. Mas reduziu bastante o número de viagens nos cinco primeiros meses, com despesas totais de R$ 800 mil. No final de julho, houve o pico da primeira onda, com 1.595 mortes registradas em 29 de julho. No dia seguinte, na inauguração do sistema de abastecimento de água de Campos de Lourdes (BA), montou num cavalo em meio a centenas de pessoas que se aglomeravam a sua volta, apertando a mão de várias pessoas, sem usar máscara.

Mas o presidente da República continuava negando a importância do isolamento social e a gravidade da crise sanitária. Em agosto, gastou R$ 1,3 milhão com visitas a 13 cidades. Esteve em inauguração de usinas, de radar, visitas a obras, inauguração de escola cívico militar, brevetação de paraquedistas, colheita do milho, enfim, uma festança. Parecia que tinha acabado a pandemia. Naquele mês, segundo nota oficial da Pfizer, o Brasil recebeu a oferta de 70 milhões de doses de vacina, para entregar em dezembro. O governo brasileiro não respondeu.

Em setembro, Bolsonaro visitou mais 11 cidades, com gastos de R$ 1,2 milhão. A festa continuou. No dia 3, Bolsonaro esteve no Vale de Ribeira, região pobre no sul de São Paulo, onde passou a infância e a adolescência. Teve apresentação de projetos de pontes e evento para 2 mil pessoas, além de visita ao posto da Polícia Rodoviária em Registro. Nas semanas seguintes, participou de formatura de sargentos, visitou o Parque do Curso de Artilharia, em Resende (RJ), e obras como a Ferrovia de Integração Leste-Oeste (FIOL), onde houve uma enorme aglomeração.

Na apresentação de projeto de ponte em Pariquera-Açu, houve aglomeração de cerca de duas mil pessoas. Foto/Carolina Antunes
Na apresentação de projeto de ponte em Pariquera-Açu, houve aglomeração de cerca de duas mil pessoas. Foto/Carolina Antunes| Carolina Antunes

Bolsonaro mergulha nos sertões

Em outubro, enquanto outros países tratavam de produzir ou comprar vacinas, o presidente da República mantinha a sua peregrinação pelo país. Naquele mês, as despesas com viagens chegaram a R$ 1,7 milhão. Ele procurava se aproximar ainda mais do eleitor nordestino, num reduto dominado pelo PT nas últimas décadas. Visitou obras do projeto de Transposição do Rio São Francisco, em Sertânia, e inaugurou uma etapa do Sistema Adutor do Pajeú, em São José do Egito, ambas em Pernambuco.

Também esteve em culto em ação de graças em São Paulo e fez mais uma entrega de espadins em Resende. Ainda sobrou tempo para passar dois feriados no Guarujá, em 12 de outubro e em 2 de novembro. Enquanto as autoridades sanitárias recomendavam cuidados, Bolsonaro passeou pelas ruas e pelas praias, andou de moto e jet ski e provocou mais aglomerações. A recreação praiana custou mais R$ 890 mil aos cofres públicos.

"Estamos no finalzinho", diz Bolsonaro sobre pandemia

As viagens foram reduzidas em novembro, com gastos de R$ 710 mil, num mês em que a média semanal de mortes caiu a 333, no dia 10; mas voltou a subir, dando início à segunda onda da pandemia, como já acontecia em muitos países. Ainda desconectado da realidade, em 10 de dezembro, o presidente afirmou, quando inaugurava uma ponte em Porto Alegre: “Estamos vivendo o finalzinho de pandemia". E completou: “O nosso governo foi aquele que melhor se saiu, ou um dos que melhores se saíram na pandemia".

Ele ainda levantava dúvidas sobre a eficácia de vacinas. “Se você virar um jacaré, é problema de você, pô”. Em dezembro, Bolsonaro gastou R$ 2,1 milhões com suas viagens. Prestigiou novas entregas de espadins, a cerimônia do Dia do Marinheiro e a formatura de soldados da Polícia Militar no Rio de janeiro. Também visitou obras em andamento. Foram 12 viagens naquele mês. Mais um período de folga no Guarujá custou R$ 850 mil.

O mês de dezembro fechou com média semanal de 700 mortes, e o Brasil ainda não contava com vacinas. Mas os momentos mais graves da crise sanitária estavam só começando. No início de março, o presidente demonstrava que ainda não estava entendendo o que acontecia no país. Na inauguração de um trecho de ferrovia, em São Simão (GO), criticou mais uma vez o isolamento social: “Chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?”. Em 31 de março, o número de novas mortes chegou a 3.870, com 90 mil novos casos diários. Com escassos estoques de vacinas, apenas 17,6 milhões de brasileiros haviam recebido a primeira dose – o que representa 8,3% da população.

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