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Almoço de Natal
| Foto: Arquivo pessoal

Os almoços de Natal na casa de meus avós maternos eram mágicos. Diante do presépio, montado logo na entrada, eu me detinha por alguns minutos, rezava. Jesus, o aniversariante, nos unia. Tios, primos, tios-avós... Não havia ausências, silêncio, falta de amor. Aquele dia, aqueles momentos, eu tentava uma forma de estendê-los indefinidamente, como desejou Carlos Drummond de Andrade em crônica que termina com a seguinte frase: “E será Natal para sempre”.

Meus avós, tios-avós, um primo, um tio, meu pai, os que já se foram continuam comigo, vivos no meu coração, na minha lembrança. Olho em volta, e não há Natal sem eles. Hoje, sob a árvore, deixaram mais uma vez para mim um grande cesto de palha. Quem me oferta este presente trançou com as próprias mãos a palha e organizou no bojo do cesto ferramentas que aprenderei a usar, atento à voz calma, aos ensinamentos passados num sotaque alemão.

Penso nas ferramentas que a vida nos oferece. Aprender a usá-las é tarefa diária. Vamos nos esforçar, nos empenhar, criar, construir

Frederick Bonawitz, um judeu, fugiu da Alemanha nazista. Era carpinteiro, marceneiro, serralheiro, era um artista. Não havia nada que seu talento, sua criatividade, suas mãos não pudessem produzir. Quando conheceu a irmã mais velha de meu avô materno, Tia Mabel, a família dela, católica, muito tradicional no Rio de Janeiro, foi contra o relacionamento. Ele era 20 anos mais novo do que ela, era um imigrante recomeçando a vida no Brasil... Os dois fugiram e reapareceram, já casados. Frederick Bonawitz virou o Tio Fritz.

Sozinho, ele projetou e construiu uma casa na Ilha do Governador, zona norte do Rio, com bela vista para a Baía da Guanabara. Sua oficina, no primeiro andar, era imensa, e dela saíam brinquedos em lata, madeira, pano, cordas para os sobrinhos-netos: carros, caminhões, guindastes articulados, animais selvagens, bonecos... Ficavam dispostos num canto da grande sala da casa na Ilha. Quando visitávamos Tio Fritz e Tia Mabel, as brincadeiras duravam horas.

O largo cesto de palha trançada cheio de ferramentas que vejo agora sob a árvore é igual aos que me esperaram, e pelos quais esperei ansiosamente, nos almoços de Natal na casa de meus avós. Martelos de todos os tipos, serras, alicates, chaves de fenda, tesourão para cortar metal, torno, soldadora, pincéis. Tio Fritz vai me entregar o cesto, vai me puxar para um canto e me explicar como usar aquilo tudo. Não tenho o talento dele, ninguém tem, mas vou me esforçar. Da lata de óleo nascerá um elefante.

Então, penso nas ferramentas que a vida nos oferece. Aprender a usá-las é tarefa diária. Vamos nos esforçar, nos empenhar, criar, construir. Vamos pensar na família, em passar aos que vêm depois de nós princípios e valores sem os quais não teremos nenhuma chance. Acredite no amor que Jesus pregava. Aprenda e ensine sempre. Feche os olhos e entregue-se à melodia... Tio Fritz também oferta música, com seu acordeão, seu serrote tocado com arco de violino. Emocionado, posso ouvi-lo perfeitamente.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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