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Meu sonho, quando menino, era estudar Literatura Brasileira. Cresci na enorme biblioteca do meu avô materno, Américo Jacobina Lacombe, imortal da Academia Brasileira de Letras, e aquele era o mundo que queria para mim. Infelizmente, meu pai, um administrador de empresas, um executivo, nunca gostou da ideia. Por pressão dele, fui estudar Processamento de Dados (era assim que se chamava na época) na PUC/RJ e Estatística na Uerj. Sim, meu pai achava fundamental que, além de cursar informática, eu também me dedicasse a uma faculdade com base matemática.
Foram quase três anos de pura tortura, às voltas com Cálculo, Cálculo Integral, Álgebra, Álgebra Linear, programas de Cobol de 700 comandos, linguagem de máquina, operações em sistema binário, hexadecimal, cartões perfurados (não existiam terminais de computador)... Quase enlouqueci. Acabei trancando as duas faculdades, para desgosto do meu pai, que me obrigou a fazer terapia. Sim, eu só podia estar louco. Ele tinha me apontado para o mercado que mais crescia, para a “profissão do futuro”, e eu... Eu não servia para aquilo.
Como eu não conseguia “permissão” para cursar Letras, da terapia para a faculdade de Psicologia foi um pulo. Fiz um ano do curso, também na PUC. Estive às voltas com cérebros e medulas nas aulas de Neuroanatomia, sempre incomodado pelo formol e pela distância que eu continuava tomando do meu sonho... Dois períodos, e pronto. Eu me enchi de coragem e fui ao meu pai: “Eu quero estudar Letras, Literatura Brasileira”. E a resposta dele foi assim: “Ah, é? Quer ler e escrever? Então, vai fazer Jornalismo”.
Mesmo inexperiente e não tendo incialmente o desejo de atuar com câmera e microfone, fui bem na cobertura das eleições de 1989
Meu pai comemorou comigo quando eu passei no vestibular para Comunicação Social em segundo lugar, mas, infelizmente, não acompanhou nada da minha experiência no jornalismo. Ele morreu quando eu cursava o terceiro período. Não estava ao meu lado quando passei na seleção para estágio na TV Bandeirantes... E aqui se confirma a série de acasos que me encaminharam para uma carreira feita quase toda em televisão. O que eu queria mesmo era trabalhar com impressos – jornal ou revista –, mas a primeira oportunidade que surgiu foi na Band, que na época ninguém chamava assim.
Minha primeira grande cobertura foi a das eleições de 1989. Um repórter teve problemas e não pôde trabalhar. Naquele momento tão importante – a primeira eleição presidencial direta depois do regime militar –, fui para a rua pela primeira vez como repórter. E, mesmo inexperiente e não tendo incialmente o desejo de atuar com câmera e microfone, fui bem. Em pouco tempo, já estava me dedicando não apenas à reportagem, mas também à apresentação do telejornal local.
Depois da Bandeirantes, fui para a Rede Manchete, na qual me tornei repórter especial. Em 1992, com a crise na emissora da família Bloch, aceitei um convite de uma amiga para trabalhar na RBS TV, afiliada à Rede Globo, em Florianópolis. Depois de cinco anos, voltei ao Rio, contratado como repórter da emissora dos Marinho. Ainda passei pela Globo News, pelo SporTV, até me firmar como apresentador do Esporte Espetacular e, depois, dos blocos de esporte do Bom Dia, Brasil.
Quando saí da Globo, depois de 20 anos, de volta à Bandeirantes, o Aqui na Band, atração originalmente de variedades que eu apresentava, passou por uma transformação orgânica e me reconduziu prioritariamente às pautas políticas. Enfrentei todo tipo de pressão nessa época, até que a emissora resolveu tirar o programa do ar. Acabei me transferindo para a RedeTV!. No primeiro e no segundo anos, tudo correu bem. Quando chegou 2022, com eleições importantes se aproximando, eu perdi a liberdade para trabalhar.
Nesses quase 40 anos de carreira, também tenho me dedicado a jornais impressos – Diário Catarinense, ND (SC), O Liberal (PA) –, jornais digitais e portais de notícias – Gazeta do Povo, Brasil Paralelo e, mais recentemente, O Cruzeiro, meu novo projeto. Portanto, minha experiência é vasta, em mídias variadas e em inúmeras funções: produtor, repórter, repórter especial, editor de texto, editor-executivo, apresentador, âncora, narrador e comentarista.
Há mais ou menos seis anos, comecei a planejar o lançamento de um curso de Jornalismo. Nesse período, reuni vasto material de jornais e revistas impressos e digitais, portais de notícias e emissoras de televisão. Exemplos positivos e, em número muito maior, negativos. E descobri que não havia no mercado nenhum curso decente, feito por jornalistas com uma experiência mínima e carreira reconhecida. Encontrei apenas alguns produtos oferecidos por profissionais ainda inexperientes, e até por estudantes de Jornalismo.
Organizei tudo o que vivi, vi e testemunhei em quase quatro décadas de trabalho nos maiores veículos de comunicação do país. Preparei uma mescla de teoria com exemplos práticos, destrinchando de forma clara e objetiva todos os processos do jornalismo: pré-produção; produção; reportagem; edição; fechamento; e apresentação de telejornal ou programa jornalístico.
A virada pode se dar com jornalistas comprometidos incondicionalmente com todos os princípios da sua profissão e com consumidores de notícias com senso crítico aguçado
Inicialmente, pensei nos estudantes de Jornalismo e nos jornalistas recém-formados ou buscando ascensão no trabalho – uma turma que eu gostaria de trazer para trabalhar comigo –, e nos produtores de conteúdo para redes sociais e plataformas de vídeo. Mas também me interessavam profissionais de outras áreas – advogados, publicitários, médicos, executivos, empreendedores. Quem não quer se tornar mais observador, mais argumentativo? Quem não quer escrever, falar, se comunicar melhor?
Mas não me esqueci dos consumidores de notícias, os que não aguentam mais ser enganados por uma imprensa que deixou de ser imprensa. Eles querem saber como os jornalistas trabalham – para o bem e para o mal –, para poder identificar todas as artimanhas empregadas num esquema que transforma notícias falsas, ou parcialmente falsas, em verdade absoluta.
Assim, o nome do meu curso é Jornalismo para Todos. É o trabalho de uma vida, com um objetivo ambicioso: plantar a semente de uma virada. E isso pode se dar com jornalistas comprometidos incondicionalmente com todos os princípios da sua profissão e com consumidores de notícias com senso crítico aguçado, capazes de escapar do jornalismo corrompido e subvertido. Por isso, convido todos vocês, leitores da Gazeta do Povo, a conhecer o meu curso e se juntar a mim nessa empreitada de resgate do verdadeiro jornalismo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








