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É um problema mundial... Jornalistas de toda parte já não são mais capazes de entrevistar. Não pensam mais nas perguntas relevantes, que seriam inescapáveis, em tempos de jornalismo sério, independente. A primeira questão que se impõe a essa gente é: “quero prejudicar ou beneficiar o entrevistado?” E, assim, um roteiro desconectado daquilo que é realmente importante, do mundo real, dos fatos é porcamente rabiscado. Se o entrevistado é visto como “inimigo”, haverá questões incômodas, confrontamento, insistência em assuntos sensíveis. Se o entrevistado é visto como “amigo”, terá certamente vida fácil. E assim foi a conversa entre a jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, uma britânica, filha de pai iraniano, que morou até os 11 anos de idade em Teerã, com o “companheiro” Lula.
Amanpour não demonstrou o menor interesse em questionar, por exemplo, a anulação das condenações de Lula por corrupção e lavagem de dinheiro. Só faltou repetir a trágica frase de William Bonner: “o senhor não deve mais nada à Justiça”... Os escândalos atuais também ficaram fora da pauta. A trágica situação econômica do Brasil também não despertou interesse. Mesmo que o enfoque fosse o cenário internacional, geopolítica, caberiam, claro, perguntas sobre o déficit fiscal e a dívida pública em níveis recordes. E, a menos de duas semanas do primeiro turno das eleições, um jornalista, mesmo estrangeiro, não poderia se furtar a questionar por que Lula não fez até agora tudo o que promete realizar num quarto mandato... Ou a jornalista da CNN não sabe que o PT está completando 18 anos no poder e que Lula disse que, finalmente, a partir de 2027, o Brasil vai se tornar um país de classe média alta, com uma das economias mais prósperas do mundo?
Christiane Amanpour não tinha mesmo interesse em expor o verdadeiro Lula, pois ambos têm inimigos em comum
Lula e a emissora de Amanpour têm um inimigo em comum: Donald Trump. Por isso, o petista pôde tratar o presidente dos Estados Unidos como um político autoritário e chamá-lo de “imperador do mundo”. A jornalista até citou alguns países que sentaram para negociar questões comerciais com o governo Trump e tiveram sucesso. Mesmo assim, Lula não foi rebatido, quando disse que tentou conversar – o que não é verdade – e questionou o poderio americano, tratado como “unilateralismo”. Amanpour ainda permitiu que Lula defendesse à vontade a sua versão de “multilateralismo”... Como se isso fosse sinônimo de democracia, harmonia, equilíbrio e paz. Pelo que se conhece dos dois – entrevistadora e entrevistado –, eles acham mesmo que é muito bom para o planeta que decisões sejam transferidas para organismos internacionais.
Christiane Amanpour não tinha mesmo interesse em expor o verdadeiro Lula, que se vendeu como político moderado, neutro, contra o “sistema” que ele mesmo representa, alguém que disse há pouco tempo que “nunca foi esquerdista” e que “o mundo é centrista”. A jornalista engoliu toda a historinha de Lula sobre sua “luta” contra o “golpismo”, o “fascismo” e a “fome”. E a profusão de aspas é necessária... Nada foi perguntado sobre o apoio de Lula a regimes autoritários, sua relativização de democracia, seu endosso a violações graves às leis no Brasil, usadas contra seus adversários políticos... Foi assim mais uma entrevista de Lula que não foi entrevista. E Christiane Amanpour fez uma chamada nas redes sociais desse seu encontro com o petista, que ela tratou como uma “conversa franca”. Uma jornalista de verdade deveria saber que isso é algo impossível de se ter com o petista, a alma mais desonesta do Brasil, e, provavelmente, uma das mais desonestas do mundo.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Luís Ernesto Lacombe é jornalista há 37 anos. Trabalhou nas principais emissoras de televisão do Brasil. Recebeu o Troféu Imprensa e, por duas vezes, o Prêmio Comunique-se. Hoje, comanda a Revista Timeline e produz conteúdo para suas redes sociais, que reúnem quase 10 milhões de pessoas. É autor best-seller, com cinco livros publicados, de gêneros variados: poesia, literatura, romance e crônica. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



