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A peça de teatro com nudez que ensina sexo a crianças a partir de 5 anos
| Foto: Lidia Crisafulli

Se esse pessoal super preparado da foto que ilustra o artigo quisesse falar sobre sexo com seu filho de 5 anos, o que você faria? Eu chamaria a polícia. Mas, em Londres, tem gente pagando para que essa turma legal tenha a oportunidade de ensinar com nudez sua visão queer e não binária da sexualidade às famílias. É uma proposta apoiada por universidades e dinheiro público que tem revoltado muita gente.

Na cultura woke ou identitarismo, o valor de alguém é determinado pela equação entre a opressão sofrida pelo indivíduo e o tanto que diz agir em nome do bem. A peça infantil de sexo com gente nua une as duas coisas. Fala de minorias e também enfrenta o tema da violência sexual presente na pornografia. "The Family Sex Show" é uma peça inclusiva. Ou inclusivE, sei lá.

Adolescentes têm tido cada vez mais contato com pornografia pela internet. Ao mesmo tempo, a indústria pornográfica deu uma guinada com a tecnologia. Aqui saímos de uma discussão sobre moralidade para uma discussão sobre consequências na vida real.

A primeira é na indústria pornográfica em si. Não temos mais a necessidade de grandes investimentos em estúdios, filmes, distribuição. Qualquer um faz filmes pornográficos, sobe na internet e lucra com eles. Já era bem difícil estabelecer limites de dignidade quando falávamos de gente que tinha muito dinheiro a perder em um escândalo, agora estamos numa zona bem pantanosa.

Entre adultos que consentem, a indústria pornográfica é um debate sobre moralidade. Ocorre que agora ela já traz inúmeras denúncias de abusos de mulheres, tráfico de pessoas, cárcere privado e barbaridades do tipo. Chegamos ao absurdo de ter, inclusive no Brasil, gente ficando rica e famosa com filmes dos abusos sexuais que comete no transporte público. Algumas vítimas são menores.

Falar sobre sexualidade com os filhos nunca é fácil nem para quem pensa que vai ser fácil. É um desafio que muitos não encontram meios de enfrentar. Adolescentes acabam aprendendo sobre sexo vendo pornografia, que agora é algo bem mais pesado do que os pais pensam. E já há pesquisas mostrando que isso torna os abusos mais frequentes, já que a ideia sobre respeito e consentimento fica completamente adulterada. Adolescentes pensam que os filmes retratam a sexualidade cotidiana, quando são algo bem diferente.

É ponto pacífico que a indústria pornográfica não deve assumir o papel de educação sexual de crianças e adolescentes. Quem deve fazer isso? Há décadas escolas e famílias têm um consenso tácito da divisão da tarefa, focada principalmente no conhecimento do corpo humano e das noções de consentimento. Mas agora chegou o identitarismo, o movimento woke, que embola o meio de campo e torna a discussão completamente irracional e polarizada.

Nos últimos anos, vemos debates acalorados sobre a educação sexual nas escolas, algo tradicional no Brasil. Por que essa discussão começa depois de décadas? Por causa da mudança no conteúdo. A questão não é se a educação sexual deve existir, mas o que deve ser ensinado. Na maioria das vezes o debate não é sobre educação sexual em si, mas sobre ensinar ideologia woke e chamar de educação sexual.

Diante da ideia estapafúrdia de ensinar teoria queer, gênero neutro e possibilidade de sexo binário a crianças pequenas, muitos vão para o extremo oposto. Então que a escola saia de cena e apenas as famílias cuidem da educação sexual. Infelizmente, vivemos num país com realidade dura. A maioria dos abusos sexuais de crianças e adolescentes acontece dentro de casa e os criminosos são familiares e pessoas do convívio direto.

Como dividir as famílias em que crianças correm riscos ou não? Impossível. O problema, aliás, nem é esse, é o conteúdo em si. Não conheço quem seja contra o ensino de biologia sobre órgãos sexuais e reprodutivos. Só ouvi elogios a projetos como o "Eu Tenho Voz", do Instituto Paulista dos Magistrados (Ipam), que ensina nas escolas sobre o direito ao próprio corpo e o que é consentimento.

Muitas famílias descobriram verdades terríveis depois que crianças passaram por programas como os do Ipam. Ali, elas descobrem que nenhum adulto tem permissão para dispor do corpo delas. Entendem que não têm culpa em situações de abuso porque são crianças. Mais importante ainda, aprendem que há pessoas com autoridade dispostas a dar proteção e fazer esses adultos responderem por seus atos.

O movimento woke é sorrateiro ao misturar sua ideologia com educação sexual. Alega que educação sexual é necessária para prevenir abusos e isso é verdade. Diz também que evitar que a indústria pornográfica chegue antes às crianças é necessário, outra verdade. Mas fazer pregação sobre gênero fluido, teoria queer e não binários é um departamento completamente diferente. Incentivar sexualidade em crianças pequenas também. Só que é precisamente esta a proposta.

O identitarismo vive de simular uma confusão entre suas teorias de seita e as minorias que diz proteger. No caso da educação sexual de crianças, alega a boa intenção de proteger de abusos e da vergonha do próprio corpo e da própria sexualidade. Mas a proposta para enfrentar esses problemas é uma peça de teatro para crianças de 5 anos com gente pelada falando de teoria queer.

Não faz nenhum sentido lógico, mas é um recurso retórico sensacional. Caso alguém se oponha, será acusado de querer evitar a educação sexual por razões moralistas e colocar crianças em risco de abuso sexual. As famílias acabam empurradas para uma encruzilhada. Ou deixam que seus filhos sejam doutrinados na teoria queer ou serão vistas como potenciais abusadoras.

No desespero, muitos mordem a isca. Acabam defendendo de maneira apaixonada que não devemos mais ter nenhum tipo de educação sexual nas escolas. É um erro. Nem pode se qualificar como educação sexual falar sobre teorias críticas de sexo não binário e gênero fluido para crianças de 5 anos de idade. E é a isso que os pais se opõem, não à educação sexual tradicional.

"Uma performance divertida e boba sobre o assunto dolorosamente ESTRANHO do sexo, explorando nomes e funções, limites, consentimento, prazer, estranheza, sexo, gênero e relacionamentos. Usando corpos da vida real, histórias pessoais, músicas e movimentos, The Family Sex Show coloca as coisas boas na vanguarda da conversa e imagina um futuro onde não há vergonha; mas uma celebração da diferença, igualdade e libertação. ThisEgg convida você a trazer seus pais, seus filhos, amigos, amantes e trazer todo o seu eu", diz o convite aberto a crianças a partir de 5 anos de idade.

Já existe um abaixo-assinado online com mais de 33 mil assinaturas pedindo que a peça de teatro seja suspensa. Movimentos conservadores do Reino Unido argumentam que é um absurdo subsidiar essa "obra de arte" com dinheiro público, como está sendo feito:

Cá entre nós, uma "obra de arte" intitulada "The Family Sex Show" corre o risco de ser considerada inadequada até por serviços conservadores como XVideos e PornoTube. Certeza absoluta de que pelo menos vão parar nas classificações de tabu ou excentricidades. Parece um indicativo de que não seria algo adequado a crianças de 5 anos de idade. Aliás, a proposta de que elas assistam com os pais e amantes dos pais também parece que poderia ser censurada por essas plataformas tão moralistas.

Uma reportagem da BBC de Londres feita ontem diz que tem gente tentando "cancelar" a performance. Seria algo com nudez não-sexual e alguns pais e mães ouvidos gostariam de levar seus filhos. Não duvido.

Diante do absoluto absurdo da situação, é natural que alguém se pergunte como tanta gente não percebe quantos limites isso cruza. Na lógica do identitarismo, não cruza nenhum. Basta defender minorias e dizer ter boas intenções que a realidade não importa.

Para combater essa distopia é necessário ter os pés fincados na realidade. Dizer o exato oposto dos argumentos utilizados leva a outro extremismo distante da realidade. Diante de uma espécie de seita que pretende impor suas crenças para todos, só a objetividade nos salva.

A questão aqui não é educação sexual nem o papel das escolas na educação sexual. O real problema é quem decidiu que colocar pessoas não especializadas nem em educação nem em sexualidade para lidar com o assunto seria uma boa ideia. Crianças não são cobaias nem passaportes para o mundo encantado do identitarismo, são indivíduos, pessoas com dignidade.

A era da sociedade digital nos traz inúmeros desafios. O mais importante deles é ter clareza sobre os nossos princípios. As futuras gerações dependem desse equilíbrio.

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