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Patrulhar discursos é a forma mais efetiva de acabar com a liberdade acadêmica.
Segundo relatório da ONU, no mundo inteiro governos e grupos sociais estão minando a liberdade acadêmica com patrulha de discursos e destruição de reputações.| Foto: Priscila Forone / Gazeta do Povo / Arquivo

Experimente reclamar de imposições ideológicas autoritárias que prejudicam o ambiente universitário. As pessoas que fazem essas imposições decidirão que você é fascista e tem mania de perseguição. Então, vão te perseguir até não sobrar uma migalha da sua reputação. Quem te defender será perseguido também, fascista disfarçado. Por isso, a maioria cala e se submete.

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Não é um fenômeno brasileiro. A liberdade acadêmica está ameaçada por pressões externas que patrulham discursos na maioria dos países do mundo. Grupos da sociedade e governos têm interferido com pressões tão grandes que a própria ONU já considera que se tornou uma violação de direitos humanos.

Em relatório apresentado ao Conselho de Direitos Humanos da ONU no ano passado, são feitas duas recomendações a universidades com autonomia institucional:
1. Respeite os direitos de todos os membros de suas comunidades, incluindo
professores, alunos, pesquisadores, funcionários, administradores e convidados a participar de atividades acadêmicas. Esse respeito deve incluir o direito de todos
à liberdade de opinião e expressão, incluindo protesto pacífico contra premissas acadêmicas;
2. Garantir que os membros das comunidades acadêmicas tenham proteção
contra a coerção de terceiros, sejam do Estado ou de grupos da sociedade. Isto requer, em particular, que as instituições defendam os membros das suas comunidades que enfrentam ataque ou restrição pelo exercício de sua liberdade acadêmica.

Vivemos tempos em que tudo foi politizado e polarizado. Vacina, máscara, remédio, cor, meio de transporte, categoria profissional. E a gente sempre acha que está fora disso, só que ninguém vive fora da sociedade.

Dependendo do pólo em que você está, vai pensar num primeiro momento que o texto se aplica a um grupo específico. Podem ser governantes autoritários que estão retirando a autonomia universitária e perseguindo pessoas ou grupos da elite da sociedade que querem legitimar suas crenças como ciência e fazem isso perseguindo pessoas. O relatório tem os dois casos e mais outros, é mundial.

Quando a gente vive numa sociedade polarizada, passa a ter a ideia errada de que dois grupos que fazem a mesma coisa estão em lados opostos porque a justificam com ideias opostas. Quem faz a mesma coisa e tem o mesmo efeito - no caso, impedir a liberdade acadêmica - está do mesmo lado.

A forma de agir é rigorosamente a mesma e parte do princípio de vincular a dignidade humana à aceitação ou no mínimo não contestação dos ideais do grupo. Jamais se cria uma regra clara que impede a liberdade acadêmica e isso é importante para desacreditar os que estão sendo massacrados por grupos autoritários.

Quem está fora conhece só as regras formais, não como elas são aplicadas, então imagina que há liberdade e que a pessoa massacrada está exagerando e reclama porque não gosta de críticas merecidas. Com punições exemplares se aniquila o pensamento contrário, já que os demais passarão a calar.

As punições são todas de ordem social. Quem discorda é rotulado, estigmatizado, ridicularizado, falsamente acusado, xingado o tempo todo, acaba sendo naturalmente sabotado por quem está ao redor. Estender a mão ou interromper o ciclo pode significar ser a próxima vítima. Assim que são destruídas carreiras em nome de ideologias.

A patrulha identitária que quer impor teorias críticas como pensamento único acredita piamente que é necessário fazer isso por um bem maior, a inclusão. Sentem-se guerreiros por uma sociedade mais justa. O mesmo vale para aqueles que se dedicam a governos autoritários. Eles creem nesse tipo de projeto, no bem maior, por isso têm uma desculpa moral para calar dissidentes.

Nos casos em que o autoritarismo é estatal, a situação torna-se muito mais complicada. Na China, por exemplo, o aplicativo Zoom bloqueia dissidentes a pedido do Partido Comunista Chinês. Na realidade pós-pandemia, essas pessoas ficam praticamente excluídas da vida acadêmica.

No mundo democrático, grupos sociais poderosos é que ameaçam a liberdade acadêmica. Esta semana, a ex-reitora da Universidade de Edimburgo disse publicamente que temeu pela própria segurança quando virou alvo da militância trans. Ann Henderson declarou uma vez que gostaria de um debate mais razoável em torno de questões de gênero, então virou a transfóbica da vez.

Quem já foi alvo do esculacho festivo-violento da patrulha identitária conhece um dos principais efeitos, as confidências. De repende diversas pessoas começam a te mandar mensagens privadas contando o que passaram e dando apoio. Para a professora Ann Henderson, isso significa que já existe uma cultura do silêncio diante de grupos agressivos.

Universidades em todo o mundo têm julgado que a melhor política é calar diante da virulência, assim os grupos esquecem. Se confrontar, se inflamam. É o melhor jeito de se agachar diante deles e de, pouco a pouco, começar a viver sob o jugo dos mais radicais. O caso da professora Ann Henderson é lapidar,

Depois de pedir mais razoabilidade no debate sobre gênero, virou a transfóbica. Na época, a principal ONG LGBT do Reino Unido estava com a campanha "transwomen are women", da qual já disse publicamente ter se arrependido. Foi aberto um processo contra ela, que precisou se defender e foi declarada inocente.

Mesmo assim, o jornal da entidade estudantil continuou publicando matérias que a chamavam de transfóbica. Ela pediu que o diretor da universidade desse um basta e ele recusou-se a intervir. “Grande parte da minha energia foi consumida com alegações infundadas de ‘transfobia’. Houve um custo pessoal significativo, o uso do meu tempo de descanso, noites sem dormir e temor por minha própria segurança física nas instalações dos alunos do campus. Eu considerei renunciar.”, declarou Ann Henderson.

A reitora organizou um jantar para mulheres, mas ele foi boicotado pelas entidades estudantis femininas. Alegavam que o apoiar o evento significaria abandonar as mulheres trans. Foi feito um abaixo-assinado online mentindo, dizendo que a reitora deveria sair por ter retuitado comentários transfóbicos. O diretor mais uma vez se recusou a intervir temendo que a situação escalasse.

Ann Henderson disse que vários estudantes e funcionários a procuraram dizendo que tinham medo de ter as carreiras arruinadas por algo que disseram, que estavam sendo alvo de ataques por pensar diferente ou que não se sentiam à vontade para debater nada na universidade. Diante disso, imagino a dificuldade de produzir conhecimentos novos.

A cultura do cancelamento só prospera onde é tolerada. Ela consiste na demolição das regras básicas das sociedades liberais para adoção da lógica de matilha. Grupos que creem estar 100% certos e lutando por um bem maior podem destroçar como bem entenderem indivíduos que ameaçarem esse ideal, mesmo que a ameaça seja imaginária. Eles podem porque é por um bem maior.

Historiador famoso no Reino Unido e também professor em Endimburgo, Tom Devine acredita que entramos em uma era sinistra de censura, que é como um vírus maligno que precisa ser extirpado. "Compartilho as preocupações que foram expressas tanto em particular quanto na mídia sobre o efeito inibidor e os graves danos psicológicos e sociais que podem ser causados tanto por ataques online quanto por investigações desnecessariamente punitivas sobre alunos e funcionários que expressam opiniões consideradas ofensivas por alguns.”

Muitas pessoas reclamam que hoje as pessoas se ofendem com tudo. Também tenho essa sensação, mas não creio que o problema está aí, está na reação. Todos nós já fomos ofendidos e ofendemos por querer e sem querer.

Para quem apanha dói igual, pouco importa o motivo do tapa. Mas nada justifica que a reação contra quem ofendeu seja sempre de uma massa colérica e incontrolável, independentemente das intenções ou da verdade da acusação. Não é possível lutar por respeito a regras sem obedecer regra nenhuma.

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