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Bolsonaro gay no carnaval de SP é ou não é ofensivo? Com a palavra, a lacração
| Foto: Twitter Jair Bolsonaro

No almoço de Páscoa, tomei uma bronca da minha tia. Ela fez alguns comentários sobre o Jornal Nacional e a Folha de São Paulo. Acabou percebendo que eu não sabia direito do que se tratava e resolveu cobrar mais seriedade da minha parte, já que sou jornalista. Então lancei no meio do almoço a história da violência contra a mãe cujo filho de 5 anos foi barrado no botequim proibido para menores de idade. Minha tia começou a rir.

Não é desprezo nem escolha ideológica, apenas uma preferência por ler os moldes mais clássicos de informação: registro de fatos, artigos de opinião ou entrevistas. Quando você mistura as três coisas no combo do jornalismo declaratório faz esse sarapatel de coruja que leva o jornalismo ao ridículo. Hoje, infelizmente, a pauta de viés ideológico fundamentada unicamente em declarações e que elenca opiniões como se fossem fatos ganhou o lugar das reportagens.

É por este caminho tortuoso do jornalismo kamikaze que chegamos à manchete da Folha de S. Paulo anunciando que a Escola de Samba Gaviões da Fiel vai levar à avenida em São Paulo um Bolsonaro gay. Grandes veículos reproduziram a declaração do cabeleireiro Neandro Ferreira. A Gaviões informou depois que o personagem nem é o Bolsonaro. O circo estava armado. E se o Bolsonaro quiser sair do armário? Pode ou não?

Vamos por partes. Quem é Neandro Ferreira? É um designer de cabelos estreante nos desfiles do grupo especial do carnaval de São Paulo. Deu entrevista falando do papel que pretende desempenhar na avenida: "Vou vir como um Bolsonaro bem gay, bichíssima, dando muita pinta". E aqui vamos às entranhas do caos em que o moralismo nos meteu: Bolsonaro bichíssima é ofensivo ou não e para quem?

É uma questão que só existe na lógica de uma sociedade dominada por forças divisionistas e moralistas, que enxergam o mundo pelo prisma de uma briga do bem contra o mal. Como saber qual é o lado do bem? É o meu, obviamente. O do mal é o outro, o que não for o meu lado.

Bolsonaro fala desde sempre as piores coisas sobre gays e homossexualidade. A seita do identitarismo, que alega ser representante e defensora de todos os gays do mundo, definiu Bolsonaro como satanás brasileiro. Qual o resultado? Para o bolsonarista juramentado, será profundamente ofensivo retratar Bolsonaro como gay. Para o identitarismo será profundamente ofensivo retratar um gay como Bolsonaro. Vejam que projeto maravilhoso de nação nos tornamos.

O que eu acho? Eu acho é pouco. Eu fujo de carnaval. Quanto menos eu pensar nas preferências sexuais dos políticos brasileiros, melhor será minha sanidade mental. Para mim, tanto faz. Quer dizer, mais ou menos. Achei positivo porque além de rir muito, eu fiz esse artigo.

Tivessem mandado um WhatsApp para alguém da Gaviões da Fiel, saberiam que o personagem representado pelo designer de cabelos nem é o Bolsonaro, é uma alegoria representando o governante fascista. Escrava dos cliques, a imprensa nacional está inundada com as duas histórias: a do Bolsonaro gay e a da Gaviões desmente Bolsonaro gay.

E eu vivi para ver a torcida organizada do Corinthians dar lição de moral nos outros e falar de paz. Não há dúvidas de que a ideia controvertida do Bolsonaro gay rende cliques para a imprensa, mas é suicida porque mina a credibilidade. Quem ganha com isso de verdade? Quem sabe manobrar o divisionismo nas redes: Neandro e Bolsonaro.

Se você é alguém ligado ao jornalismo e à política, provavelmente está ouvindo falar de Neandro Ferreira pela primeira vez. Eu, que parei de ler bobagem nos jornalões para ler no Glamurama, sou fã de carteirinha dele. É hairstylist dos famosos mais badalados e chiques, cria tendências, trabalha com visagismo na construção de personagens e de editoriais de moda. Formado da Vidal Sassoon de Londres, tem uma carreira sólida construída em 25 anos de profissão e abriu uma escola de cabeleireiros na periferia de São Paulo.

Estamos falando de um homem poderoso e muito bem sucedido, tratado com um certo desdém pelo jornalismo, cuja arrogância manipulou com maestria. Talvez sejam pontos em comum entre Neandro Ferreira e Jair Bolsonaro.

O hairstylist é um homem de negócios que fez uma mudança de vida na boca da pandemia. Antes dividia o tempo entre Londres e Rio de Janeiro. Resolveu vir para São Paulo bem quando os serviços pararam. Ampliou a área de atuação para cursos. Hoje, cobra R$ 1500 reais por pessoa em turmas presenciais de 2 dias. É um dos profissionais da sua área que trabalha melhor a grande novidade do mercado de luxo: o identitarismo.

É um dos que melhor trabalha o discurso do feminismo no universo da moda, principalmente nas revistas de luxo. Explica às jornalistas, que reproduzem com deleite, como o corte Joãozinho agora é chamado de Pixie porque o feminismo influencia a moda. Fala que cabelos longos reproduzem estereótipos machistas da Bíblia. Prega que a gorda pode usar o cabelo que quiser - como se fosse novidade - e ganha espaço na imprensa especializada.

Neandro Ferreira vende um produto de alto luxo que desenvolveu durante muitos anos de profissão. Não é um corte de cabelo, mas a construção de uma imagem que reverta o desejado na vida profissional de seus clientes abastados. Mas ele sabe que hoje qualidade não basta para vender, o mercado de luxo demanda o moralismo da lacração. Tem ideia melhor do que um Bolsonaro gay? Não se fala de outra coisa. E ninguém nem estava falando do carnaval.

Mestre das redes sociais, Jair Bolsonaro sabe que pouco importa o que falem dele a essa altura do campeonato, importa a reação. Dado o imbroglio todo, a leitura será a mais favorável ao presidento, a de que ele é perseguido pela mídia. Além disso, a simplificação permitida pelo discurso de redes sociais ainda alivia todo o discurso sobre homossexuais que ele fez na sua vida de deputado.

Mas Bolsonaro sair por cima nessa história não é ruim para o identitarismo, o grande trunfo do mercado de luxo em que Neandro nada de braçada? Não, é maravilhoso para ambas as partes. Tanto a política populista quanto o identitarismo se retroalimentam porque precisam dividir o mundo numa luta do bem contra o mal. O oposto disso seria um projeto de Brasil que una todos nós como nação.

Antes que alguém me pergunte "mas e o Lula" e eu já imagine o Lula vestido de bailarina na passarela do samba, vamos lá. Não poderia ser o Lula gay porque não daria essa dissonância capaz de deixar tanta gente indignada. O grupo progressista, que prega o orgulho gay e o grupo do identitarismo mais radical é lulista até o último fio de cabelo. O segredo de bombar nas redes é alimentar o divisionismo, precisa ser condenar um do grupo ou opor valores do grupo do bem contra o mal.

Já falei de quem ganha, vamos falar agora de quem perde. Tem gente que perdeu tempo e energia passando nervoso com essa história. Mas é uma perda só no curto prazo. No médio prazo, essas perdas acumuladas geram uma experiência que é um ganho. A gente aprende a não cair mais nesse enredo e a ver a real oposição, que é entre divisionistas e patriotas.

O patriota é o que vê em primeiro lugar o Brasil, nosso povo, nossas raízes, nossa cultura e o respeito aos valores de todos nós como prioridade. O divisionista é o que vê antes o que nos divide para depois, quem sabe, considerar o que nos une.

A perda mais significativa é de credibilidade da imprensa e de confiança nas instituições democráticas. É algo muito grave porque ocorre aos poucos e percebemos o estrago apenas quando se agiganta. Sempre soubemos que a imprensa de moda foi refém das grandes personas dessa área, mas é preocupante que eles consigam agora manipular até mesmo o noticiário político.

O universo da alta moda é o carro chefe do mercado de luxo. Opera na lógica da escassez a ponto da exclusividade e serve um público muito exclusivo da mais alta elite econômica, social e cultural. As tendências da alta moda são reverberadas para toda uma indústria que atende os demais cidadãos. Assista "O Diabo Veste Prada" que você vai compreender exatamente como um desfile aparentemente maluco impacta em vendas de milhões em grandes magazines do mundo todo.

Quando o mercado de luxo começa a pautar quais são as causas sociais importantes, ele corrói completamente as instituições e coloca na moda a antipolítica. A democracia é um sistema em que um voto vale um voto, seja de quem for. Os eleitos dessa forma é que decidem prioridades sociais e regras morais. O identitarismo derruba as instituições e coloca nas mãos das elites o poder que era do povo.

O mercado de luxo é quem dita quais são as prioridades sociais, quem são os oprimidos que devem ser atendidos, como e por quem. A imprensa corrobora e quem ousa questionar é cancelado. As poderosíssimas Big Techs sabem navegar nesse oceano com maestria.

Políticos que sabem surfar bem na dinâmica das redes, no populismo e no divisionismo têm lucrado com esse movimento no mundo inteiro. A grande questão é por quanto tempo. Um povo dividido perde princípios e valores morais coletivos, não vê mais sentido nas instituições e limites, confia em quem grita mais alto ou é mais violento.

Pense no pior político que você conhece. Ele é um coroinha perto de quem será capaz de ganhar um jogo neste tabuleiro de instituições corroídas e ausência de valores morais, onde uma pequena elite define os valores morais que a nação deve seguir. Nessa dinâmica, os verdadeiros vencedores não se submetem à vontade popular. Aliás, fazem justamente o contrário.

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