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texas apagão
| Foto: JUSTIN SULLIVAN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

Já ouviu falar dos "coyotes" na fronteira do México com Estados Unidos? São os contrabandistas de gente, que aproveitam-se do desespero para promover imigração ilegal. Existe no mundo inteiro. Quanto mais desesperadora a situação de um povo, mais haverá mercado para os contrabandistas de gente. São delinquentes que promovem o encontro entre corrupção e miséria. Não raro, enganam ou traficam os imigrantes ilegais para quem prometem o paraíso.

Se você estivesse no business de imigração ilegal, como faria sua publicidade? Provavelmente já pensou na deep web. É uma boa estratégia para quem vende arma para terrorista, drogas ou órgãos. Ocorre que o cliente é criminoso também e vai procurar esse ambiente. O contrabandista de imigrantes ilegais tem outro público-alvo. Que tal o Facebook? Se você achou que daria errado porque os posts seriam derrubados, trago uma surpresa: a parceria funciona superbem.

Na fronteira dos Estados Unidos há um problema específico com coyotes e coyotes fake (sim, o crime é criativo) desde que o presidente Joe Biden tomou posse. Trata-se de uma das maiores crises migratórias da história do país, vinda da união do desespero com pandemia, criminalidade organizada e desinformação. Em fevereiro, o presidente norte-americano anunciou uma mudança específica na burocracia de concessão de vistos a mexicanos que buscam asilo e são perseguidos em seu país. Foi o estopim da migração em massa.

Formou-se já um campo de migrantes na fronteira entre San Diego e Tijuana, com cerca de 1500 pessoas. Segundo reportagem da Associated Press, parece grupo de whatsapp: ninguém fala coisa com coisa, todo mundo acha que está certo e a desinformação corre solta. Tem gente que acha que a fronteira pode ser aberta a qualquer momento e fechada logo em seguida. Outros acreditam que haverá tratamento especial a quem busca asilo.

Os novos imigrantes que buscam os Estados Unidos não são mais apenas o clichê do latinoamericano em busca de uma vida melhor. Alguns países da América Central têm hoje governos autoritários envolvidos com crime organizado e narcoditaduras. Algumas delas, aliás, usam ativamente o Facebook para consolidar poder e aniquilar adversários. Quando o poder estabelecido tem laços com o crime organizado, pouco a pouco o crime toma as ruas, as casas e os negócios. Esses são os cidadãos que correm para os Estados Unidos.

Nós conhecemos a chaga da corrupção dentro dos governos. Outros países latinoamericanos, como Honduras, Nicarágua e México, estão um passo além. Os governantes têm laços pessoais com a criminalidade organizada. O presidente do México, por exemplo, tem encontros públicos com a mãe do lendário traficante El Chapo. Esse tipo de situação cria tiranetes que passam a impor localmente à população civil a lógica de vida do crime organizado.

Anos depois da instauração de narcogovernos e narcoditaduras, as gangues já imperam nas ruas. É uma situação diferente, por exemplo, da Colômbia, em que o governo enfrentou as gangues e não permitiu que Pablo Escobar tivesse acesso ao poder estabelecido, mesmo tendo sido eleito deputado. Na Venezuela, a ditadura se estabelece pelo poder concentrado nas mãos do ditador e corrupção das instituições, então não pode permitir o surgimento de outro foco de poder, que desafie o poder central. Vemos o surgimento de outro tipo de situação dramática.

Quando elementos ligados ao crime organizado chegam ao Poder Executivo, perde-se totalmente o controle da institucionalidade. A tendência, num primeiro momento, é mudar leis que favoreçam especificamente esses criminosos. A população geralmente não percebe porque a maioria não é desse universo. Agora, estamos no ponto em que as gangues tomam os negócios e casas das pessoas da mesma forma que se disputa boca de fumo. É o paraíso dos contrabandistas de gente.

No começo do mês, a NBC fez um levantamento completo sobre páginas no Facebook que anunciavam abertamente o serviço de coyotes. Tinha o preço de passar ilegalmente pela fronteira e dizia que era 100% garantido. Esses anúncios eram direcionados a pessoas que procuravam pelo Facebook como conseguir visto norte-americano ou como imigrar para os Estados Unidos.

Essas páginas são monitoradas de perto pelo departamento de Homeland Security, que cuida da imigração. Ele confirmou à NBC que uma das estratégias dos contrabandistas de gente é tirar proveito da possibilidade de distribuir desinformação. Como as pessoas estão desesperadas e ouviram que algo mudou na imigração dos Estados Unidos, os próprios coyotes espalham nos grupos as mentiras como a possibilidade de abertura da fronteira, por pouco tempo, a qualquer minuto.

"Em resposta ao relatório da NBC, um porta-voz do Facebook disse que a empresa proíbe a exploração e o tráfico humano e retira esse conteúdo quando sinalizado pelos usuários. O Facebook tem sido alertado há anos sobre esse problema, com vários relatórios detalhando como os contrabandistas usam o Facebook para atrair migrantes da África e do Oriente Médio para travessias marítimas perigosas para a Europa", explica um relatório do Tech Transparency Project.

Seria necessário que os usuários avisassem sobre cada postagem para o Facebook ter controle da própria plataforma bilionária? Depende. No caso de golpistas vendendo imigração ilegal para gente desesperada, a postagem só cai se avisarem. Já no caso da compra de casas milionárias pela fundadora do Black Lives Matter, não precisa avisar. O Facebook impede automaticamente a postagem, como você confere na foto abaixo. Prioridades, né?

Eu, particularmente, fiquei muito emocionada com esse cuidado todo relacionado a assédio e bullying. Em causa própria, aliás. Quero muito saber quando o Facebook vai começar a aplicar as regras da plataforma para mim também porque não aguento mais ir à Justiça. Postagens mentirosas, feitas em 2017, me acusando de pedofilia e satanismo foram avaliadas como dentro das regras pelo Facebook. Eram milhares, algumas com meu endereço e outras com ameaças. No meu caso, a orientação do Facebook é processar cada autor por cada postagem.

Voltemos aos criminosos old school, os coyotes. A coisa anda tão descarada que eles não têm mais nem preocupação de disfarçar. O Tech Transparency Project mapeou 50 páginas diferentes, a maioria em espanhol, oferecendo serviço de imigração ilegal garantida. Uma delas, criada em 4 de março, chamava-se "Cruze frontera a EUA". Na definição da atividade, tiverama cara-de-pau de colocar COYOTE. Até o momento em que escrevo, continuava no ar. Também há agora perfis anônimos que entram em grupos de vendas nas cidades mais atormentadas pela criminalidade e oferecem o "serviço".

Deixar que contrabandistas de pessoas façam anúncios livremente em sua plataforma não é o maior problema do Facebook. O fundo do poço sempre tem um alçapão. Se você entra numa página de venda desse serviço criminal, o Facebook passa a te recomendar ativamente outras páginas que também promovem coyotes. Além disso, o Facebook promove o serviço de botchat, para que os criminosos possam conversar por mensagem com suas potenciais vítimas. Lembrando sempre, segundo o Facebook, ele é contrário ao contrabando de pessoas. Não vão esquecer isso, por favor!

O Facebook removeu todas as postagens de criminosos que foram enviadas a ele pela reportagem da NBC. Ou seja, ficou sabendo do problema. Mesmo assim, continuou permitindo a permanência de páginas semelhantes, conforme a pesquisa do Tech Transparency Project. Aliás, tente pesquisar "cruze a Estados Unidos" que você achará um punhado de resultados com propagandas de coyotes.

Há quem comemore ingenuamente quando as Big Techs derrubam postagens que não estão de acordo com suas próprias diretrizes. Não fazem nada além da obrigação, espanta é que não consigam cumprir nem as regras que elas próprias inventaram para si mesmas. No caso desse drama humano causado por narcoditaduras, é especialmente cruel que se ganhe dinheiro com a manipulação das vítimas em plena pandemia. As propagandas e ações de marketing continuarão sendo sempre lacradoras, não se preocupe. Maldosos diriam que se trata do cinismo como modelo de negócio.

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