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Lula e Alckmin: como foi o jantar deles
Lula e Alckmin (no centro) fizeram primeiro aceno público desde o início das negociações para 2022| Foto: Ricardo Stuckert/PT

De tédio a gente não morre. O grupo Prerrô, formado por ilustres advogados brasileiros - alguns deles queridíssimos amigos - promoveu um jantar no restaurante preferido dos convescotes de final de ano da burguesia jurídica, A Figueira Rubayat. Serviu para unir o Santo com o Operário, Lula (agora ex-bandido) com Alckmin (agora ex-fascista). Bravos revolucionários pagaram R$ 500 para entrar. Justíssimo.

No último convescote da burguesia jurídica a que compareci no mesmo restaurante não paguei nada. Ainda ganhei um conjunto de cortadores de queijo que até hoje não descobri como usa porque não cheguei a esse nível espiritual. Mas também não teve formação de nenhum par improvável como Lula e Alckmin. Muito menos político mostrando aos meus queridos amigos do Prerrô quem é que manda nessa pátria em chuteiras. Sim, eles sapatearam nas prerrogativas bem no encontro dos caras.

O Prerrô às vezes é descrito como anti-lavajatista. Conheço vários dos integrantes. Alguns encaixam-se na descrição e outros não. Vejo mais como garantistas de diferentes áreas do Direito e diferentes vertentes políticas. Era um grupo de whatsapp que acabou virando uma espécie de associação. "O Prerrogativas foi criando há cerca de cinco anos, como um grupo fechado no WhatsApp, primeiro para defender as prerrogativas profissionais dos advogados, sistematicamente violadas no Brasil da Lava Jato. Prerrogativas, diga-se, não se confundem com privilégios. Aquelas são as garantias previstas em lei para que advogados possam representar e defender os interesses de seus clientes sem restrições", diz o site.

O jantar Lula-Alckmin é organizado pelo grupo que defende as garantias legais dos advogados. Pois bem, quem o Lula resolve homenagear? Delfim Netto, que assinou o AI-5 e disse recentemente que assinaria de novo. O cara resolveu retirar todas as prerrogativas, mas para o Prerrô ele pode ser elogiado e o problema é o Moro. Fosse agir com justiça, anistiava além do Alckmin o Bolsonaro também. Afinal, ele protestava contra a ditadura que o Delfim Netto apoiou. Merece anistia progressista.

"Não podemos nos esquecer daqueles que em 2018 acharam que a escolha era difícil. São responsáveis diretos e [têm] as mãos sujas de sangue. O grupo Prerrogativas, entretanto, nunca se escondeu na conveniência do silêncio", discursou o queridíssimo Marco Aurélio de Carvalho, que encabeça o grupo Prerrô. Minutos antes, ele havia silenciado quando se elogiou um signatário do AI-5 que foi o único a dizer nos tempos atuais que assinaria de novo. Nem o Bolsonaro engolia a truculência desse povo, organizava passeata na época.

Às vezes a gente não entende direito o que é ou não democrático nem o que é ou não calar diante do autoritarismo. Maldosos diriam que é um escândalo calar diante da dupla Lula-Alckmin passando pano para Delfim Netto, que não tinha nem motivo para ser citado ali além de uma demonstração cabal do poder de Lula sobre os demais. Nada disso, precisamos atualizar o seu dicionário.

O que quer dizer democrata? Capacho do Lula. O Alckmin nunca foi fascista, dizem os tucanos. Mentira. Era fascista sim, mas agora encontrou a redenção porque abraçou o Lula. Isso já aconteceu com Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães, José Sarney e até com o próprio Delfim Netto. Ao aceitar o senhor Lula, os espíritos sem luz da política encontram a redenção definitiva. Ganharão também um free pass progressista à la José de Abreu. Não importa o que façam, tudo pode.

Os tucanos estão numa posição confortável dizendo que Geraldo Alckmin saiu do PSDB, então isso não quer dizer que eles aceitaram o petismo nem o lulismo. Mas isso quer dizer que todo mundo que não idolatra Lula pode ter sido chamado de liberal fascista esses anos todos à toa. A anistia será ampla, geral e irrestrita? José Serra, por exemplo, continua sendo fascista ou também foi redimido? E Doria? Marina Silva ainda é fascista ou já deixou de ser? Queria saber onde a gente protocola os documentos para tirar a carteirinha de ex-fascista.

Tempos atrás, fiz uma lista atualizada de todo mundo que os petistas tinham chamado de fascista na última semana. A Anistia Alckmin vale também para todo esse pessoal? O senador Randolfe Rodrigues estava no jantar, isso estende a unção do desfacistamento para Marina Silva? Seria justo até porque ela apoiou Haddad na eleição passada e não recebeu nem um muito obrigado. Mas daí teríamos um problema enorme com a militância virtual petista, achar o que fazer da vida. Nos últimos anos, a atividade principal é passar o dia na internet achando fascismo até em barraquinha de cachorro-quente.

Suponhamos que a unção do desfascistamento só tenha sido dada pelo senhor Lula àqueles que foram ao jantar. Daí fica complicado. O marqueteiro digital do Bolsonaro, um que até prestou depoimento acusado de disparos em massa, estava lá. Baleia Rossi, do golpista PMDB de Michel Temer também. Gilberto Kassab, se bobear, já até montou o grupo de whatsapp do Ministério e presidentes de estatais. E o pessoal condenando o editorial da "escolha muito difícil", bancando herói da democracia mundial. Quem conta?

Nessas horas, eu sinceramente entendo o que o Ciro Gomes foi fazer em Paris. Vai ser xingado para sempre porque se ausentou e permitiu que o fascismo tomasse conta da nossa pátria? Vai. Só que a Marina Silva, que pediu voto para o PT mesmo depois de tudo o que tinham feito a ela, também vai ser xingada sempre. Não importa quem você é, o que você fez, como age ou prega, importa se idolatra ou não nosso supremo senhor Lula. Mais fácil o fascista receber a unção do desfascistamento do que alguém ser respeitado por talibã político.

A política real é composição, não estão errados eles. Até Jair Bolsonaro e Ciro Gomes estiveram na base de Lula em 2002. Está errado quem acha que política é moralismo, sair xingando os outros, achando que ninguém presta ou se comportando feito torcida organizada de futebol. Não deixa de ser divertidíssimo ver os discursos moralistas e puristas durante o maior evento de realpolitik da nossa história recente. Tem quem compre. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

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