Jornalismo para mulheres muito além dos clichês
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Primeiramente, Feliz Dia das Mulheres para todas nós!!! Antes que os homens perguntem o que pode dar de presente e o que ofende, adianto que estamos numa pandemia e numa crise econômica. Estava mandando indireta para alguém que planejou me presentear com uma batedeira mas uma seguidora me advertiu no Twitter. Batedeira está super cara, não é hora de recusar. Ela tem razão. Há um abismo entre o que é ser mulher e o que gostaríamos que fosse. No meu gostaríamos não ter louça a ser lavada, por exemplo.

No jornalismo também há um abismo entre a realidade das mulheres e aquelas mulheres imaginárias para quem são feitas as publicações femininas. Uma pesquisa do Instituto Reuters e da Universidade de Oxford mostrou que as mulheres estão especialmente descontentes com o noticiário durante a pandemia. O levantamento feito em 11 países, incluindo o Brasil, tem dados importantes sobre como o jornalismo pode atender melhor o que demandam as mulheres.

Há diferenças entre o que e como homens e mulheres consomem notícias. Aqui falo para além dos clichês. Futebol continua tendo um público majoritariamente masculino e dicas de maquiagem continuam tendo um público majoritariamente feminino. Esse levantamento vai muito além disso. Homens e mulheres consomem de formas diferentes notícias que vemos como "unissex". Cobertura da pandemia, cidades, política, cultura e economia são as mesmas, mas mulheres e homens têm demandas diferentes. O levantamento do Instituto Reuters foi feito no Quênia, África do Sul, Coreia do Sul, Hong Kong, Japão, México, Brasil, Finlândia, Alemanha e Reino Unido.

As conclusões mais importantes do levantamento são as seguintes:
- Os homens são mais propensos do que as mulheres a dizer que estão "extremamente" ou "muito" interessados ​​em notícias políticas em todos os mercados.
- As mulheres são mais propensas do que os homens a expressar altos níveis de interesse por notícias sobre saúde e educação.
- As mulheres são mais propensas do que os homens a relatar que usam noticiários ou boletins de TV.
- O Facebook ainda é uma fonte importante de notícias para homens e mulheres, mas o YouTube e o Twitter são mais populares entre os homens.
- As mulheres falam pessoalmente sobre notícias com amigos e familiares mais do que os homens. Eles são menos propensos a comentar notícias em sites de notícias ou nas redes sociais.
- Os níveis de confiança das mulheres nas notícias e preocupação com as "fake news" online são muito semelhantes aos dos homens.

O modelo de consumo do jornalismo foi feito em torno do dia a dia das famílias. Havia o jornal impresso que o homem lia de manhã, antes de sair para o trabalho, com segunda edição à noite, quando voltava. As mulheres ouviam rádio e depois tinham a companhia da televisão enquanto cuidavam dos afazeres doméstico. A dinâmica das famílias já virou do avesso, mas alguns hábitos permanecem. Aproveito para informar sobre o direito a beatificação dos homens que fazem serviço doméstico sem a mulher ter de pedir.

O levantamento feito na Inglaterra mostra que, diferentemente dos homens, mulheres ainda encaixam o consumo de notícias nas suas tarefas práticas. "Muitas das mulheres com quem os pesquisadores falaram relataram que as notícias são uma prioridade baixa para elas: não é algo que elas acreditam que precisam no curso de sua vida cotidiana e nem algo que não deve substituir outras tarefas. As notícias não lhes forneciam o que precisavam: nem fuga, nem informações que sentiam que poderiam utilizar, e as emoções que evocam são negativas. Em vez disso, evitar as notícias era muitas vezes uma decisão estratégica de cuidadores ocupados para estreitar seu 'círculo de preocupação'."

Diversos levantamentos em todo o mundo mostram como aumentou a carga de trabalho das mulheres na pandemia, sobretudo a de trabalhos domésticos. O que mais pesa é a atividade de cuidadora, que demanda mais a depender de quanto tempo as escolas ficam fechadas em cada localidade. Antes da pandemia, mulheres já gastavam 3 vezes mais tempo que os homens com essas atividades, agora isso aumentou. Bem aventurados os que fazem divisão igual de tarefas sem ninguém pedir e poderão ser canonizados. A maioria dos mortais ainda está no estágio do meme que compara o "home office" com o "muié office". A diferença afeta tanto a demanda quando a forma de consumo do jornalismo.

Homens e mulheres também interagem de forma diferente nas redes sociais. Os motivos se dividem entre escolhas pessoais e como são tratados de forma diferente em debates públicos. E isso não sou eu que estou dizendo nem é no nosso atraso tupiniquim, é na Finlândia. O estudo de Marjan Nadim e Audun Fladmoe sobre uso de mídias sociais foi feito em 2019, antes da pandemia. A Finlândia é um dos países mais igualitários do mundo e tem um sistema de mídia independente muito sólido.

"Embora os homens quase recebam mais comentários direcionados a suas opiniões e atitudes, as mulheres que sofrem ataques tendem a mudar seus comportamentos e se tornar mais cautelosas ao expressar opiniões publicamente. E enquanto os homens tendem a ser atacados pelo que pensam, ou seja, seus argumentos e atitudes políticas, as mulheres são atacadas mais simplesmente por serem mulheres", mostra o estudo feito na Finlândia. Os ataques nem sempre partem de homens, é bom deixar claro.

Mas como os pesquisadores sabem que os homens são atacados pelo que pensam e opinam enquanto a mulher é atacada "por ser mulher"? Cá para nós, saber o motivo exato de um ataque exige estar na cabeça de quem atacou nas redes sociais. O que os pesquisadores medem é o vocabulário dos ataques. Homens também são xingados, mas o grosso dos xingamentos contra mulheres é bem específico. "O tom geral do assédio online contra as mulheres se fundamenta em uma linguagem hipérbolica e sexualizada, junto com sugestões mais sutis de que as mulheres são de alguma forma inferiores, indignas de recursos e menos capazes do que os homens", diz o levantamento da Pew Research nos Estados Unidos.

Mulheres são hoje um público consumidor de notícias tão interessante quanto os homens, mas o mercado jornalístico ainda não percebeu isso. Na era digital não falamos apenas em conteúdo, mas em contexto. A forma como o público feminino quer receber notícias, o uso que faz delas e o que espera do noticiário é diferente das expectativas do público masculino. Não há um jeito melhor de fazer, há dois jeitos que podem ser feitos simultaneamente.

Com a popularização das redes sociais, a partir de 2010, o jornalismo de opiniões fortes ganha mais espaço. Chegamos a um ponto em que o público já confunde o que é reportagem e o que são os artigos. Há uma explicação. Como o consumo se faz majoritariamente pelas redes sociais, boa parte do público não tem acesso à forma como os veículos organizam sua produção. O espaço de opinião é sempre bem delimitado e separado do que é informação. Mas, fora da plataforma do veículo de comunicação, são as Big Techs que decidem como distribuir.

Hoje, temos um avanço enorme naquilo que os homens mais gostam de fazer, socializar com notícias nas mídias sociais. A demanda é por oportunidades de posicionamento público e debates, principalmente sobre política. Homens comentam mais nos artigos e interagem mais via redes sociais usando noticiário. As mulheres têm demandas diferentes, como a de notícias sob medida para conversar de forma privada com amigos e conhecidos. Também demandam um tom de noticiário que ajude a entender o que acontece no mundo sem aumentar o nível de stress, principalmente na pandemia. É algo que já existe, mas não ganhou volume de produção como as novas demandas dos homens.

Ainda dividimos o que é noticiário feminino ou masculino apenas pelo conteúdo. O tom, a forma de consumo e a utilidade social do noticiário ainda não são vistos como forma de categorizar entre masculino e feminino. O tom polêmico é demanda masculina, o informativo sem stress é feminina. Mulheres preferem Facebook e Instagram enquanto homens preferem YouTube e Twitter. Homens gostam de notícias que possam ser partilhadas para gerar debates em que se posicionem. Mulheres gostam de notícias que possam partilhar em fóruns mais privados para lidar com problemas reais do cotidiano. É uma novidade que precisamos incorporar por se demanda do mercado.

Um dos motivos para o jornalismo ainda não ter percebido um novo mercado feminino, com milhões de clientes, pode ser o predomínio masculino nas chefias das redações. Mesmo nos países em que as mulheres são maioria no jornalismo, as diretorias dos veículos são predominantemente masculinas. É uma forma muito eficiente de não enxergar sutilezas que podem melhorar muito a produção jornalística e atingir novos mercados.

Um levantamento também feito pelo Instituto Reuters em 12 países mostra que:
- Apenas 22% dos 180 principais editores das 240 marcas cobertas são mulheres, apesar de, em média, 40% dos jornalistas nos 12 mercados serem mulheres.
- Olhando apenas para os 10 mercados que cobrimos em 2020 e novamente em 2021, 23% dos principais editores são mulheres, a mesma porcentagem do ano passado.
- Olhando exclusivamente para as 178 marcas incluídas neste ano e no ano passado, a porcentagem de mulheres entre os principais editores mudou de 22% em 2020 para 24% em 2021.
- Entre 37 novos editores importantes dessas marcas, 16% são mulheres . (Havia 14% de mulheres entre os principais editores cessantes.)
- Em 11 dos 12 mercados, a maioria dos editores principais são homens, incluindo países como Brasil e Finlândia, onde as mulheres superam os homens entre os jornalistas profissionais. (Na África do Sul, 62% dos jornalistas e 60% dos editores principais em nossa amostra são mulheres.)
- A porcentagem de mulheres em cargos editoriais superiores varia significativamente de mercado para mercado. No Japão, como no ano passado, nenhum dos principais veículos de notícias em nossa amostra tem uma mulher como editora principal. Na África do Sul, a maioria dos principais editores são mulheres.
- Quando comparamos a porcentagem de mulheres que trabalham no jornalismo com a porcentagem de mulheres em cargos editoriais superiores, encontramos uma correlação positiva. Apesar disso, em 10 de 12 mercados, há consideravelmente mais mulheres trabalhando como jornalistas do que mulheres entre os principais editores.
- Olhando mais amplamente para a desigualdade de gênero na sociedade e a porcentagem de mulheres em cargos editoriais superiores, não encontramos nenhuma correlação significativa.
- Países como Alemanha e Coréia do Sul, que pontuam bem no Índice de Desigualdade de Gênero da ONU, têm muito poucas editoras importantes.
- Há uma variação notável no número de pessoas que recebem notícias de veículos com uma editora top do sexo feminino. A porcentagem de usuários de notícias on-line em cada mercado que afirmam receber notícias de um ou mais veículos importantes com uma mulher como a editora principal (seja off-line ou on-line) varia de 94% no Quênia a 0% no Japão (onde nenhuma dos principais veículos de notícias em nossa amostra tem uma mulher como sua editora principal).

Um dado importantíssimo para o mercado jornalístico é esse que eu fiz questão de grifar no parágrafo acima. Está aumentando muito o número de leitores dos veículos jornalísticos que têm mulheres na chefia. Aqui não se trata de competição entre mulheres e homens. Redações que não levam em conta estratégias com a lógica feminina saem perdendo porque ficam só com metade do que poderiam ter. Sempre haverá espaço para o clássico jornalismo feminino e o clássico jornalismo masculino. A questão é que o mundo evoluiu e, na era digital, notícias têm outros usos e novas demandas. Estamos prontos para admitir que homens e mulheres são diferentes, compreender essas diferenças e enxergar também como estratégia de negócio? Espero que sim!

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