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Lacração e cancelamentos unem conservadores e dividem progressistes
| Foto: BigStock

A pesquisa foi feita nos Estados Unidos, não no Brasil. Ocorre que o nosso debate público tem importado muitos temas de lá, principalmente nessa era em que as reds sociais contagiam a imprensa e a política. O Pew Research Center faz levantamentos de Tipologia Política desde 1987, identificando exatamente quais ideias fazem a cabeça de Republicanos e Democratas. Este último é o maior e mais complexo, ouviu mais de 10 mil pessoas em julho deste ano.

Escolhi para este artigo um pequeno recorte que representa a quase totalidade dos bate-bocas e campanhas em redes sociais. Muitos acreditam tratar-se de polarização política, mas o fato é que se trata do mais legítimo suco de antipolítica. A política busca pontos comuns e trabalha com convencimento. Recentemente foi invadida por uma onda de intolerância, verdades absolutas, patrulhamento, pressão e linchamento. Tudo isso, claro, pelo bem da humanidade.

Tenho bastante experiência com cultura do cancelamento no papel involuntário de cancelada. Não é monopólio de nenhum espectro político, é caso psiquiátrico mesmo. Há, no entanto, uma diferença interessante entre ataques de milícias virtuais reacionárias e esquerdistas. As justificativas morais utilizadas para linchamentos de esquerda tendem a colar para a imprensa e algumas empresas.

As acusações das milícias reacionárias são tão delirantes que nem os próprios reacionários acreditam. É algo que só vira verdade para sérios candidatos à camisa de força. Quando fui acusada de ser satanista e pedófila por tirar foto ao lado de uma artista internacional, jamais cogitei que alguém em sã consciência ou devidamente medicado acreditasse. Apenas temi as reações dos realmente desequilibrados.

Quando as milícias são de esquerda, as acusações partem de premissas igualmente delirantes mas aterrissam em palavras importantes para o mainstream. Quando uma pessoa é acusada de racismo, homofobia ou transfobia, pouco importa se é verdade ou não. Isso chegará a jornalistas indignados que precisarão dar lições de moral nas redes sociais para evitar que sejam as próximas vítimas. Marcas gigantescas rompem contratos por isso. As consequências são diferentes.

A busca por pureza moral é tão violenta e surreal que já cansa até os próprios progressistas. Dia desses, um amigo da esquerda operária sindical raiz confessou que não aguenta mais ouvir a palavra "desconstrução". Está praticamente alérgico. Gosta de embate político, de fazer greve, de conquistar apoiadores, mas é um homem bruto. Fica desolado ao ver a política transformada num divã. Queria muito sentir-se confortável com a psicanálise, mas ainda não consegue.

A militância de universo simbólico é um fenômeno de base social muito pequena. Linguagem neutra e patrulhamento de expressões verbais, por exemplo, são significativos para uma parcela muito diminuta da militância progressista das grandes metrópoles. Ocorre que elas ditam a pauta da imprensa e da publicidade e isso passa a ter consequências no jogo do poder. A primeira é que ninguém mais tem paciência. A segunda é que uniram os conservadores e dividiram os progressistas.

Temos falado muito da tal "geração floco de neve", que se sente ofendida com qualquer coisa. Há pessoas que sentem-se verdadeiramente ofendidas se você não disser todEs, uma palavra que nem existe. Ignorar uma palavra inventada vira ofensa grave e sinônimo de alguma-coisa-fobia que levará ao cancelamento. Por outro lado, também temos gente falando coisas que o pessoal do PCC ia achar que é pegar pesado demais. A galera perdeu completamente a noção.

Até gente da minha família já lançou mão daquele argumento maroto de que o povo não quer "só coisas limpinhas". Até aí, eu concordo. Mas falo de outra coisa. Dia desses tinha gente achando que era piada colocar "Marielle Peneira" numa invasão de site. Pode ser piada? Pode. O problema é onde e para quem. Precisa ser gente metida em coisa bem pesada para achar realmente engraçado esse tipo de coisa. Por causa da patrulha, hoje tem diversos desses flanando por aí como se fosse normal. Eu é que não quero pegar elevador sozinha com esse povo.

Nesse ponto é que surge a questão interessantíssima do levantamento do Pew Research Center. "O maior problema é ter gente falando coisas muito ofensivas ou ter gente que se ofende com qualquer coisa?" Para mim é uma questão bem difícil, porque Deus me privilegiou com muitas coisas, não com paciência. O resultado da pesquisa mostra algo interessante. Lacração e cancelamento são tiros no pé do progressismo.

Não é preciso nem falar inglês para analisar o gráfico. Perguntar sobre isso une os conservadores (em vermelho) num único quadrante enquanto polariza os progressistas (em azul). Para todos os tons de Republicanos as pessoas que se ofendem muito facilmente são o problema mais grave. Estão todos unidos nesse ponto. Se muitos temas - por exemplo, a figura de Donald Trump - dividem os Republicanos, a lacração e cancelamento os une.

Por outro lado, Democratas se pulverizam quando o tema é cultura do cancelamento ou lacração. Os centristas e democratas vêem ambos como problemáticos. Esquerda, progressistas e liberais dizem que o problema maior são as pessoas que dizem coisas ofensivas demais, mas as avaliações de cada grupo também estão divididas. Ocorrem que todos eles fazem parte da mesma força política.

O falecido Antonio Carlos Magalhães costumava dizer que o homem é servo do amor mas escravo do ódio. O festival histriônico de injustiças promovido pela cultura do cancelamento não é unanimidade nem mais na esquerda. No centro e na direita já é visto como fenômeno autoritário e perigoso. Ainda faz sucesso na nossa imprensa. Resta saber se é um processo autofágico ou se acordaremos a tempo de tomar as rédeas.

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