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Lula e Dilma ensinam: ditadura de aliado chama democracia
| Foto: Ricardo Stuckert/PT

Ultimamente tenho uma séria suspeita de que produtos requintados de ficção como "A Usurpadora", "Maria do Bairro" e "Beth, a Feia" são responsáveis pelo estado de coisas da política nacional. Anos atrás cheguei a comemorar o despertar do interesse do brasileiro para política. Ingenuidade da minha parte. A gente só descobriu um outro lugar para tratar igual novela da vida real. E a qualidade dramática é aquela que aprendemos a vida toda.

O PT passou o mandato todo de Bolsonaro dizendo que ele é ditador. Daí, justo no dia em que rola um papo sobre Hitler entre ele e um seguidor, Lula resolve defender publicamente Daniel Ortega e Dilma diz que a China é um exemplo moral para o ocidente. E agora a culpa é de quem? De quem reclamou dos petistas porque teria descontextualizado os elogios. Contextualizo aqui.

Vamos começar pela história do Hitler, que parece coisa de enredo ruim de filme do Corujão. Confesso que estou frustrada com o vídeo porque até agora não sei quem é o interlocutor. Gosto de episódios bizarros, mas confesso que jamais me ocorreu a possibilidade de chegar tão longe.

Imagine que uma pessoa tem o privilégio de conversar diretamente com o presidente da República. É um momento especial, para o qual a pessoa se prepara com cuidado. Resultado: pergunta ao presidente quando ele vai implantar no Brasil o trabalho com crianças que era feito por Hitler. Hitler. Assim, na maior naturalidade. O presidento nem perde o rebolado, explica que não implementa porque o ministério está aparelhado ideologicamente.

Era um dia para o petismo sapatear na cara da humanidade com o famoso "eu avisei que era nazismo". Avisou que até barraca de cachorro-quente era nazismo, mas o que vale é a empolgação. Ocorre que eleitor brasileiro é igual coração de periguete. No mesmo dia, os dois ex-presidentes petistas defendem ditaduras sangrentas. Alguma surpresa?

Vamos começar pela ex-presidente Dilma, que ressurgiu na mídia para participar do lançamento de um livro falando sobre a China. Lá pelo meio da live, enquanto analisava a economia chinesa, engata: "A China representa uma luz nessa situação de absoluta decadência e escuridão que é atravessada pelas sociedades ocidentais." Más línguas diriam que é vingança contra Lula, que agora ressurge solto e candidatíssimo.

Os petistas já correram para dizer que foi tudo descontextualizado. Trata-se da versão política do famoso: "amor, não é nada disso que você está pensando". Geralmente não funciona mas o autor da tese vai insistir infinitamente. Para os petistas, Dilma não estava elogiando a ditadura, é preciso assistir uma hora de vídeo para compreender a profundidade do raciocínio. Economias ocidentais estariam a crescer num salve-se quem puder enquanto a China distribuir as riquezas. O problema é com quem. Estamos bem arrumados.

Diante disso tudo, acho que Lula deve ter ficado com inveja. Como assim ele seria o único presidento escolhido pelo Brasil neste século a não passar a mesma vergonha nesse dia? Não, a gente merece. Ocorre que ele não é qualquer um, é "o cara", então a coisa foi internacional. Acostumado à nossa imprensa domesticada, Lula comparou Daniel Ortega a Angela Merkel. Só que a jornalista respondeu à altura.

Adivinha qual foi a defesa? Isso mesmo: descontextualizaram. Então fiz questão de colocar o trecho completo para todo mundo entender bem o raciocínio em que nosso querido ex-presidento conclui que há semelhanças entre Angela Merkel e Daniel Ortega. Ele diz que é contra uma pessoa passar 16 anos no poder e começar a pensar que é única, insubstituível. Eu estou pensando em pegar esse trecho e mandar para um político brasileiro que eu não vou dizer quem é. Segredo.

Em seguida diz que, mesmo sendo contra governantes que se perpetuam no poder, não cruzaria a linha da soberania nacional. Se um povo se autodetermina assim, ele respeita. Antes de começar a xingar, chamo atenção para o uso flexível da palavra autodeterminação. Cito um exemplo prosaico, que aprendi com o motorista de reportagem José Catarino, nos idos do século passado. "Na minha casa, todo mundo é livre para torcer para o time que quiser, desde que seja o Corinthians", declarava. Para ele, era sinônimo de autodeterminação e liberdade de escolha.

Concordo que 16 anos no poder é muita coisa, mas por que Angela Merkel é tão diferente de Daniel Ortega? "Ela não mandou prender seus oponentes", argumentou a jornalista do El País da Espanha ao atacar o conceito torto de autodeterminação. Aqui, as paquitas de político já falaram que o Moro prendeu o Lula. A real diferença é que Merkel nunca teve nada garantido. É parlamentarismo, o gabinete poderia ter caído qualquer dia, era provado diariamente.

No governo parlamentarista não há data para um mandato acabar. Se alguém permanece 16 anos no poder é porque todos os dias seu mandato foi aprovado e foi colocado à prova. Nós não temos essa vivência porque temos mandatos de 4 anos. A Nicarágua muito menos. Tem eleições consideradas fraudadas no mundo todo e todos os candidatos de oposição são violentamente perseguidos e presos caso ofereçam qualquer risco eleitoral. Falamos de terrorismo de Estado.

Antes que venham com a história da "falsa equivalência" já rebato porque tenho alergia. Lula e Bolsonaro não são iguais, longe disso, são opostos. Gente que é fã de relacionamentos abusivos diz que os opostos se atraem. Aí há um ponto de atração, que é o fã-clube truculento que perdoa tudo e persegue quem questiona. Chegaram a ser aliados por um tempo (conforme você pode conferir aqui) mas isso é história do passado.

O que fazer? Quem assume é o Aécio? Deveríamos ouvir os tucanos? Nos metemos em um sarapatel de coruja. O PSDB de Mario Covas, Franco Montoro e FHC foi capaz de conter a hiperinflação com o Plano Real. No presente momento, a situação é outra. O pessoal não consegue fazer funcionar um app de celular para decidir qual deles eles mesmos preferem. Complicado.

Sempre defendi que nossa saída da ditadura militar (e perdoem-me os amigos queridos das FFAA que respeitosamente discordam da denominação) não foi saudável. Com essa tese eles concordam. Ao perdoar de maneira indiscriminada e não responsabilizar quem usou a situação política dramática para exercer perversidades individuais, contaminamos a moral do país.

Agora estamos diante de uma oportunidade de virada de página. Ou ficamos com as forças políticas que emergiram dessa história mal resolvida ou iniciamos uma nova caminhada. Impossível saber o que o futuro nos reserva. Hoje, mais uma vez, sabemos o que nos reserva o passado.

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