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Guilherme Boulos durante a campanha presidencial de 2018
Guilherme Boulos, líder do MTST, disse que os protestos são contra a fome e o desemprego no país.| Foto: Daniel Ramalho/AFP

Há os que tentam entender a política brasileira como direita e esquerda, progressistas e conservadores, algo que tenha a ver com política pelo menos. Isso até existe, mas não é o que embala corações, serve para empacotar discursos. Os corações são movidos por ídolos e pela perseguição implacável a quem ouse criticá-los. O PT é um partido histórico que gira em torno de Luiz Inácio Lula da Silva. Vamos a mais um capítulo dessa história.

O novo traidor é Guilherme Boulos. Na última eleição presidencial, a campanha dele pelo PSOL mais parecia uma campanha Lula Livre. No lançamento da candidatura, o candidato falou mais de Lula - que era de outro partido e estava preso - do que de si. Apoiou Lula em todos os momentos, nunca questionou nada. Muitos até diziam que Guilherme Boulos seria o sucessor de Lula, enxergavam uma semelhança física.

Lula não tem sucessores, queridos. Lula tem sempre um jeito de dar seu "tchau, querida" a quem ousa questionar seus planos. O PSOL lançou Guilherme Boulos ao governo de São Paulo e pretendia ter o apoio do PT em troca de dar apoio à candidatura de Lula. Ocorre que o PT tinha outros planos. Queria que o PSOL desse apoio à candidatura de Fernando Haddad. Boulos colocou a campanha na rua. Em menos de uma semana virou o mais novo infiltrado do imperialismo.

O problema é que Boulos conta pontos para Lula como fez na eleição passada, falando para o pessoal da Vila Madalena e do Leblon, nossos amados revolucionários de parque de areia antialérgica. Entre eles há muitos formadores de opinião que amplificam as falas favoráveis ao dono do PT. Com Lula preso e Boulos numa campanha prioritariamente midiática e de mídias sociais, a lacração não-lulista engole a esquerda old school de Lula. Ou seja, atrai mais gente.

Avaliem Lula fazendo comício na festa do peão de Barretos levando Guilherme Boulos a tiracolo como seu candidato ao governo do Estado. Capaz de apanhar. A rejeição ao MST no interior de São Paulo acaba sendo fundida à rejeição ao MTST e, portanto, a Boulos. O interior de São Paulo entende que Lula apóie Haddad porque é do partido dele e ponto. Mas não vai entender de jeito nenhum questionar propriedade privada, não há conversa.

Guilherme Boulos serviu enquanto Lula precisou do hype dele, do apelo que tem junto à lacração e às elites urbanas cirandeiras. Agora, Lula não pode ser visto ao lado dele. O problema nem é Boulos querer sair candidato a governador, é fazer isso e apoiar Lula. O eleitorado que Lula pretende atrair com populismo e saudosismo no interior de São Paulo tem alergia a Boulos. Coincidentemente, ele começa a ser esculhambado pela ala mais sequelada da esquerda brasileira.

O Partido da Causa Operária tem um jornal que fez uma reportagem bombástica. Guilherme Boulos seria um agente do imperialismo norte-americano plantado no Brasil para atender interesses do governo dos Estados Unidos. Fizeram uma longa postagem alinhavando toda a vida profissional do psolista mostrando que ele representa os mesmos interesses que a Operação Lava Jato.

Como assim? Isso mesmo que você ouviu. Agora, para parte da esquerda, Guilherme Boulos é uma espécie de novo Sergio Moro. O infliltrado da CIA.

Ah, mas é o PCO, né? Quem acredita? Petista. Eles pegaram um instituto, o IREE, Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa, para o qual Guilherme Boulos presta consultoria. Dentre os nomes nacionais da política, difícil encontrar um que não tenha passado por lá, já que a missão do instituto é pluralismo. Ouvem de A a Z. Pensa no prato perfeito da perseguição online e durante as eleições.

O próximo passo é ir pegando nomes de outras pessoas que também passaram pelo instituto, obviamente sem dizer que o negócio ali é o máximo possível de pluralidade. Vão achar, por exemplo, Raul Jungmann, General Etchegoyen, Milton Seligmann, Armando Monteiro, para ficar com os que eu vi na primeira página de programação. O que começa no PCO como uma grande teoria da conspiração ganha outra roupagem ao entrar no PT.

Claro que o partido garantirá que não tem nada com isso, já que não se responsabiliza nem por nota oficial da diretoria do próprio PT publicada no site do PT e assinada por diretor. Nesse caso, ainda mais fácil fingir que não está queimando quem precisa queimar para não perder voto em São Paulo. Os peixes pequenos do PT, geralmente os machos-palestrinha de Twitter, começam a pinçar pontos específicos da história contada pelo PCO, sem dizer que vem de lá. É o início da boataria sobre Boulos.

Daí vem o golpe de misericórdia, a "Propaganda Amplificada". Lembram daquela história de que internet não é conteúdo, é contexto? Vamos lá. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, entra no meio da briga com um texto ambíguo em defesa de Guilherme Boulos. Não fala claramente que o defende, sai pela tangente, diz que são "fake news", alega motivos táticos (unir a esquerda) e não fáticos (a acusação é mentirosa) para defendê-lo. É como apagar fogo jogando gasolina, confiram nas respostas. E, claro, a campanha difamatória chega ao mainstream.

Depois de ler uma "defesa" dessas, até eu fiquei curiosa. Não bate aquela sensação de "mas será que o Boulos era esse tempo todo agente americano e eu não percebi"? Sim, eu li todos os causos contatos ali e as ligações entre as pessoas. É o estilo clássico de desinformação difamatória eleitoral e a mais fácil delas, a que usa o talento mais precioso e automático da nossa mente: a formação de padrões. Sabe quando a gente vê figuras nas nuvens, tipo cachorro? É esse mecanismo.

Vou dar um exemplo recente que colou inclusive entre jornalistas. "A assessoria da Marilia Mendonça mentiu dizendo que a cantora estava viva após o acidente". Isso é dedução e projeção de maldade sobre o outro, não informação. Sabemos que a assessoria deu uma informação que estava errada, mas sabemos se ela tinha a informação correta? E se ela comunicou-se com os socorristas e disseram que estava tudo bem, como acontece na maioria dos casos? Pode ser e pode não ser, não sabemos. Preenchemos as lacunas da história automaticamente.

O levante dos lulistas contra Boulos, Marina, Heloísa Helena e quem quer que ouse questionar Lula segue o mesmo padrão sempre. Neste caso específico, ele deu uma palestra no instituto tal que também contratou fulano de tal ligado a uma ação contra a esquerda no país tal. Portanto, é um agente infiltrado que recebeu para derrubar a esquerda aqui. Adultos deveriam saber que os amores políticos de Lula duram enquanto são úteis para ele. Mas é bom você ficar alerta, essa campanha será cheia de novos fascistas.

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