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Integrantes da Rede fecharam apoio ao ex-presidente Lula (PT)
Integrantes da Rede fecharam apoio ao ex-presidente Lula (PT)| Foto: Wesley Oliveira/Gazeta do Povo

Não lembro mais a última vez em que o cenário político do país me deu medo. Tenho casca grossa. Nem essa novidade de psicopata fingindo ser militante político e ameaçando meu filho pequeno de morte me botou com medo no sentido de não haver saída. Ontem, preciso confessar, senti um frio na barriga. A última vez que lembro de sensação parecida é quando ainda contávamos a piada infame: "Estou com medo. De quê? Da mulher do Figueiredo".

O desaforo abusivo e machista de Lula para cima de Marina Silva ontem não foi pouca coisa. Pode ser a demonstração de que a imensa maioria das análises sobre as eleições está profundamente errada. O Lula que foi presidente da República e o PT que topava ser apeado do governo, investigado e preso não existem mais. Lulinha Paz e Amor cedeu o posto ao Lula Revenge.

Eu assisti esse vídeo muito preocupada com Randolfe Rodrigues e Joênia Wapichana. A falta de espinha dorsal era tanta que temia um tombo fenomenal dos dois durante a fala do grande painho democrata. Marinheiro se conhece na tempestade. É eloquente o silêncio da galera do identitarismo diante de um "tá nervosinha" na cara de uma mulher negra. As manes desconstruídes estão sem voz?

Talvez você não tenha entendido por que eu vejo tanta gravidade nessa fala, que parece uma coisa corriqueira. Tem gente que fala bem pior. As amigues desconstruídes, afinal, ficaram a eleição passada inteirinha chamando a Marina Silva de fascista. Vivemos a sociedade digital. Política não se analisa mais só pelo conteúdo, o contexto é parte fundamental. Vamos a ele.

Goste você ou não de Marina Silva (eu gosto e admiro a fé em Jesus e a retidão moral), todo mundo sabe que ela é uma autoridade de nível mundial no assunto meio ambiente. O PT até hoje vive dizendo aos quatro ventos ser muito melhor que Bolsonaro porque o nível dos seus ministros do meio ambiente era outro - leia-se Marina Silva.

É aí que começa a briga com Lula. Ele queria fazer a usina de Belo Monte de qualquer jeito, nem que tivesse de transformar o meio ambiente brasileiro em um quarto de ambiente. Ela insistiu em ser técnica e honesta. Pior para ela, que foi escorraçada do ministério e virou alvo da primeira campanha política brasileira de fake news do universo digital.

Quem tinha razão? Segundo a Justiça Brasileira, Marina Silva. Você ouve o PT inteiro chamando dia sim e outro também o Bolsonaro de genocida, certo? Pois bem, Belo Monte é que teve, em 2020, uma condenação efetiva por um crime chamado de "etnocídio". Não é a aniquilação em si, mas uma mudança profunda e irreversível na cultura e na sociedade dos povos indígenas que ali viviam. Não vou nem começar a enumerar os demais passivos humanos e ambientais, busque você. Daria um livro.

Marina Silva teve um posicionamento contrário ao Código Florestal votado nos governos petistas. Fez, como sempre faz, críticas ponderadas e técnicas. Democraticamente, como ela gosta de dizer. Pior para ela de novo. A democracia petista não admite que se contrarie Lula do jeito que ela fez.

A novela da política brasileira seguiu. Teve o mensalão, Marina saiu do PT, foi para o PSOL, fundou um partido próprio, saiu candidata a vice de Eduardo Campos, ele morre num acidente aéreo em plena campanha, ela vira séria candidata a destronar Dilma Rousseff. Fosse novela, a gente diria que o enredo era forçado. (Calma que isso tem relação com a fala do Lula ontem, já chego lá.)

Dilma e Lula racharam na campanha dela à reeleição. Lula queria ser o candidato. O rumo poderia ter sido completamente diferente num cenário como este, inclusive a possibilidade da chapa Campos-Marina. O governo Dilma estava enfraquecido e a presidente não tem carisma. Houve uma decisão pensada de esculhambar Marina para eleger Dilma Rousseff. Foi o primeiro projeto de eleição com Fake News no Brasil e deu certo.

Desde o ano passado há petistas falando em fazer as pazes entre Lula e Marina. Ela sabe que ele não era o cérebro da campanha difamatória contra ela, mas também não fez nada para evitar nem conter. Ele sabe o quanto seus assessores mais próximos são desrespeitosos e machistóides diariamente com Marina nas redes sociais. Não creio que seja à revelia do que pensa o dono deles.

O que seria necessário para Lula obter o perdão de Marina Silva? Sinceramente, eu não sei. Mas, em primeiro lugar, precisaria pedir, né? Não pediu. Não fez a menor questão. E por quê? Porque ele sabe que não precisa. Para o luloafetivo juramentado, danem-se a democracia, as regras, a dignidade humana, é só Lula. Está ali Randolfe rindo com cara de palerma que não me deixa mentir.

Lula optou por não se reaproximar de Marina Silva durante os 5 meses iniciais deste ano. Sabia que a Rede faria um evento de apoio a ele e que ela poderia impedir mas não o fez. Democraticamente, como ela acha certo e eu fico louca só de pensar. Obviamente ele sabia que Marina Silva não estaria no evento porque ela, como ele, tem espinha dorsal.

Ele poderia ter falado com ela antes, se a relação dos dois é tão longa como ele diz. Poderia ter acertado o que falar ou não falar dela com os demais integrantes da Rede. Poderia até mesmo ter feito um aceno de aproximação durante o evento, enviado um agradecimento pelo gesto democrático e a contribuição já dada durante toda a juventude ao PT. Mas a opção foi outra.

Lula resolveu falar mal de Marina pelas costas e do jeito mais rasteiro, o típico do machista abusador. É o que bate e depois fala que a mulher é louca, ficou nervosinha e ele não entendeu. Não é isso o que mais me incomodou, é a apatia de quem parecia até ontem tão combativo. Ninguém da Rede interromper nem com uma piada para defender Marina Silva é inadmissível. Lula é dono deles também?

Você já deve ter ouvido um bilhão de vezes a análise clichê de que Lula é a esperança democrática diante de uma ameaça autoritária de Jair Bolsonaro. O presidente nunca escondeu que não é fã da democracia, diz isso dia sim outro também desde 1991. Mas nem o ministro Gilmar Mendes acredita em golpe. O que parece cada dia mais difícil de acreditar é numa proposta democrática de Lula.

Nesta campanha há o rancor do Brasil que o deixou ser preso e humilhado. Talvez o levante de petistas contra Sergio Moro e a Lava Jato seja só o trailer da vingança contra um povo ingrato. Eu cobri toda a campanha Lula presidente em 2002. Era um personagem controvertido e cobrado de maneira rigorosa, fazendo o máximo para demonstrar ser tolerante e competente. O Lula que eu vi ontem é o avesso daquele. Tem sobre si todas as certezas, inclusive a de que não pode ser questionado.

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