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| Foto: DENIS CHARLET/AFP

Nos últimos anos, parecia que haviam colocado abaixo todos os estudos de comportamento e a evolução na área de Recursos Humanos devido a uma espécie de redescoberta da roda. Bastava fazer um escritório com playground para adultos, se possível escorregador, videogame, estacionamento de bicicleta, comida e bebida à vontade e todos seus problemas se acabariam. Vejam que surpresa: não durou muito porque adultos precisam de mais que um parquinho no trabalho.

O Google acaba de ganhar seu primeiro sindicato, formado por 230 trabalhadores com diversos tipos de contrato. Eles não estão interessados em negociar salários, como faz o sindicalismo tradicional. A primeira intenção é garantir que ninguém tenha de trabalhar em projetos que sejam contra seus princípios, principalmente contra a democracia. Não teve puff colorido, escorregador nem discurso lacrativo que resolvesse isso.

Nós somos brasileiros, acreditamos em tudo. Acreditamos até que produtos do Google como a busca ou o YouTube podem garantir algum nível de liberdade de expressão a quem quer que seja. Há até ingênuos que acreditam haver uma rivalidade entre essas plataformas e as mídias tradicionais, a despeito dos acordos que diversos canais de rádio e TV têm com as plataformas no mundo todo. Brasileiro acredita até em político brasileiro, vamos admitir que esse pessoal do Vale do Silício pelo menos tem charme, hype e se veste bem.

Acreditador profissional, o brasileiro começou a desconfiar da imprensa com alguns séculos de atraso. Mas não deixamos de nos dedicar ao hobby da acreditação apaixonada. Estão aí os canais "alternativos" do YouTube, empresa do Google, que o Brasil acredita serem realmente alternativos, independentes, livres e dizer o que pensam. Os que têm mais sucesso são os das áreas de medicina alternativa, beleza, desenvolvimento pessoal, dicas de investimentos e conspiração ou gritaria política. Parabéns a eles. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Trabalhadores de elite do Google, principalmente da área de tecnologia da informação, têm se dedicado há muitos anos a construir os mecanismos das plataformas. Eles é que codificam os algoritmos que dão aos acreditadores profissionais a sensação de serem mais espertos que todo mundo, parte de um grupo de elite. E ganham muitíssimo bem para isso, tem o tal do escritório com videogame, escorregador, bicicleta e tudo mais. Até para eles a coisa passou do ponto.

Nos últimos 3 anos, os problemas dos funcionários do Google com os projetos da empresa já extrapolaram os escritórios e se tornaram passeatas. O maior deles foi o protesto internacional contra o "Project Dragonfly", Projeto Libélula, encomendado pelo Partido Comunista Chinês. Trata-se de um mecanismo de busca orwelliano. Você busca uigures, por exemplo. Em vez de "campo de concentração" viria "campo humanizado de trabalho". Os próprios funcionários se recusaram a participar.

Foram feitas passeatas de funcionários nas sedes do Google nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Índia, México, Chile, Argentina, Suécia, Suíça e Dinamarca contra o Project Dragonfly do governo chinês. No Brasil não teve protesto sobre isso e você provavelmente nunca ouviu falar de mecanismo de busca tendencioso ou censura de internet porque no Google e no YouTube daqui não tem nada disso. É tudo a sua vontade, o que bomba mais e a liberdade de expressão. Só em outros lugares do mundo que há problemas, fiquem tranquilos.

A principal preocupação dos funcionários do Google com o Project Dragonfly não era nem a filtragem dos assuntos, era coisa pior. Se você fizesse uma busca por termos como "Dalai Lama", "democracia" ou "protestos em Hong Kong", o governo chinês poderia obter imediatamente todos os seus dados sem que você soubesse. Funcionários do Google no mundo todo - não no Brasil - se recusaram a participar disso em 2018.

Em 2007, o Yahoo passou ao governo chinês os dados de quem havia enviado determinadas informações sobre proibição de imprensa a alguém nos Estados Unidos. Eram dois ativistas, que foram presos por anos. O Yahoo pediu desculpas publicamente. Também se tornou a única plataforma ocidental que até hoje tem permissão para operar em território Chinês. Embora tenha encerrado oficialmente o Project Dragonfly, nunca se soube se o Google deixou de trabalhar com o governo chinês. Que bom que esse pessoal lacrador tem tanto compromisso com os direitos humanos e a diversidade, né? Isso nos dá muita esperança de superar o capitalismo selvagem.

Aqui no Brasil, o Google tem emocionantes produções sobre diversidade e respeito às mulheres. Elas bombam entre os lacradores porque devem trazer muitas verdades e funcionar na prática. Já entre os funcionários, não pegou muito bem a recompensa milionária dada a um chefe assediador sexual. Aliás, o estopim foi a terceira vez em que fizeram isso, os US$ 90 milhões dados ao criador do Android, Andy Rubin, depois que uma investigação interna concluiu que as denúncias de assédio eram verdadeiras. Em duas outras vezes, a conduta foi a mesma, elogiar o demitido, dar recompensas milionárias voluntariamente e nada dizer sobre assédio. Teve uma até em que nem se demitiu o diretor. Ainda bem que esse pessoal faz um discurso politicamente correto sobre culpabilização das vítimas, né? Estão mudando o mundo.

Diante da revolta dos programadores, o Google contratou um dos cientistas mais respeitados do mundo em Ética da Inteligência Artificial, Timnit Gebru. Ele durou menos lá do que a viagem de João Doria para a Miami e fez um estrago parecido. A demissão deixou claro que não havia como programadores negociarem individualmente não participar em projetos dos quais discordam. Está aí o sindicato, Alphabet Workers Union.

Nos Estados Unidos, as leis sindicais são diferentes, então é possível você criar um sindicato só com trabalhadores de uma única empresa, por exemplo. Este inclui quem é contratado do Google, prestadores de serviço e alguns terceirizados. No estatuto, eles já deixam claro que o objetivo não é negociar contrato e salário, é exclusivamente a questão do não trabalhar nos projetos de ditaduras nem compactuar com diretores assediadores ou que discriminam funcionários. Você pode odiar sindicatos, mas vai ter de admitir que um deles é mais eficiente para resolver isso do que botar uma mesa de bilhar no escritório.

"Se esse pessoal está descontente, por que não pede demissão?". É uma pergunta justa, que eles próprios responderam em um artigo de opinião publicado no The New York Times. Confesso que nunca havia pensado nisso porque sou a que pede demissão quando exigem que viole meus princípios. Mas também sou jornalista, é um meio onde tem muito pinscher e pouco rotweiller. O dos engenheiros de TI aparentemente tem muito rotweiller mesmo, são bem quietos, não ficam gritando verdades em público, mas agem na hora certa. E agora fizeram.

Se fosse uma única pessoa descontente ou um pequeno grupo, concordo que o correto é procurar seu destino. Mas estamos falando aqui de um mercado muito novo, criado exatamente pelo trabalho inovador destas pessoas. Todos se dedicaram a um projeto no qual acreditaram e que resolveu mudar de rumo moral no meio do caminho. No editorial, que é aprovado por mais de 230 empregados do Google, a maioria da área de TI, eles dizem que construíram a empresa acreditando num lema simples "Don't be Evil", não seja O mal. Dizem que isso deixou de ser seguido e precisa voltar aos eixos.

Exatamente na indústria mais inovadora do mundo voltamos aos valores mais básicos. Tentaram nos fazer acreditar que os propósitos da vida humana ainda não haviam sido descobertos e o Vale do Silício os entregava. Seriam coisas como levar o cachorro ao trabalho, trabalhar de camiseta furada, beber cerveja nas reuniões e ter uma mesa de ping-pong no escritório. Pelo que diz o sindicato do Google, os valores além do salário são outros: respeito, ser reconhecido e ter um propósito. Seria um movimento vintage?

E aqui vale uma reflexão novamente sobre cachorros. Cão que ladra não morde. Tenho uma que morde, mas é exceção que confirma a regra. O Google tem diversos departamentos dedicados à inclusão, diversidade, ética, justiça social. A gente ouve falar nessa história e logo pensa que todo esse povo super lacrador que faz os melhores discursos mundiais sobre respeito é quem está no sindicato. Ocorre que no sindicato tem que dar a cara, coisa que o bom lacrador só faz para cantar vitória. Na vida real, pessoas também perdem.

A quase totalidade dos membros do sindicato do Google é de engenheiros, a maioria da área de engenharia de software. Talvez quem preste atenção em discursos não tenha a dimensão de como é importante o contexto, especialidade desses profissionais. Nós conhecemos as redes sociais como algo que nos traria liberdade e mais democracia. Eles também. Se eu me sinto usada só por ter acreditado, avalie os engenheiros que foram obrigados a construir isso, às vezes sem saber do plano completo.

Enfim, caiu mais um mito, o de que a grande inovação em gestão de pessoas é fazer uma arquitetura revolucionária, sem privacidade, fingir que todo mundo é amigo, idolatrar workaholic, usar roupa mal ajambrada e bancar o cult. Uma pena porque isso é bem mais fácil que trabalhar, só chamar o decorador e depois ficar mostrando para os amigos e postando no insta. Infelizmente tem de botar pessoas dentro e elas são complicadíssimas, exigem até ser tratadas como seres humanos. Que seja só um começo.

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