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Jornalismo de salto alto
Todos erramos, apoiar a cultura do cancelamento faz com que o jornalismo calce o salto alto de não admitir erros.| Foto: Crédito: Divulgação

Há uma relação estreita entre a cultura do cancelamento e o episódio mal resolvido das vacinas vencidas que não estavam vencidas. Sei que parece um tiro longe demais, mas explico passo a passo como o jornalismo pode estar no rumo da imbecilização. O caso concreto tem um erro, algo humano e comum. O problema está em outro lugar, no desfecho. Não sabemos mais conviver com erros.

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Na última sexta-feira, dia 2 de julho, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem dizendo que 26 mil doses da vacina AstraZeneca haviam sido aplicadas após o vencimento em 1532 municípios. Não era verdade. A informação não foi corrigida até agora e o caso virou mais um de barraco e ataques nas redes. O que aconteceu com o jornalismo?

O "jornalismo de dados" tem deslumbrado muita gente, eu inclusive. Fiz o primeiro curso na área em 2001, quando ainda chamava-se Computer-Assisted Reporting. Avaliem o que a evolução tecnológica desses 20 anos pode nos trazer em termos de informação.

A diferença do "jornalismo de dados" é a utilização de tecnologia da informação para verificar, catalogar, selecionar e comparar bases gigantescas de dados públicos. Dessa forma, é possível identificar informações de interesse do cidadão que ficam escondidas num emaranhado de números e burocracia. É o que foi feito no caso.

Um trabalho de fôlego comparou todos os dados de vacinação no Brasil, algo que só o "jornalismo de dados" é capaz de fazer. Verificou que a data em que o Ministério da Saúde informava que a vacina foi aplicada era posterior ao vencimento. Só que isso é a pauta e foi publicado como reportagem.

Para que fosse uma reportagem, era preciso ter certeza da integridade dos dados. Sem isso, não é possível afirmar que 26 mil pessoas tomaram vacinas vencidas. Caso os dados fossem íntegros, o mínimo que se espera é um complemento falando ao cidadão como agir caso esteja na lista. Caso não fossem íntegros, haveria aí uma outra reportagem mostrando que os dados não são confiáveis.

Por alguma razão, não foi cumprida a etapa de verificar a integridade dos dados para decidir qual seria a reportagem a partir da pauta. Poderia ser a de que os dados não são confiáveis ou de que são confiáveis e a vacina foi aplicada após o vencimento. É um erro grave, mas errar é humano. Desumano é casar com o erro como estamos vendo na realidade em que ninguém mais pode errar.

É sempre ingrato cumprir tarefas com muitos detalhes ou aprofundar-se demais em um assunto. Corremos o risco de desconexão com o mundo real. Todos nós, em algum momento, já nos voltamos tanto para aquilo em que estávamos interessados a ponto de perder o pé da realidade. É horrível quando acontece com a gente, mas acontece. Que aprendamos sempre para evitar uma próxima.

A obrigação do jornalista é com o público. Se disse que a vacina estava vencida e, no final, viu que não estava, faça o máximo para substituir a informação errada pela verdadeira. Isso não foi feito. No lugar do único movimento sensato, iniciou-se um labirinto de caça às bruxas, mentiras, vitimização, excessos e, como sempre, ameaças nas redes sociais.

O jornal não publicou um desmentido. Diversos jornalistas começaram a dizer que o problema está nos dados do Ministério da Saúde, inadmissível que estejam errados. Concordo. Só que esta era a reportagem e ela não foi feita por erro dos jornalistas. No lugar, foi feita outra, que alarmou pessoas durante o caos que vivemos hoje. Um grupo que pune erros com cancelamentos não pode errar e emburrece.

O humorista Danilo Gentili costuma dizer que, na dinâmica atual da imprensa e das redes sociais, pouco importa o que se fala, importa quem fala. Este é um caso lapidar. Imagine que qualquer jornalista conservador, de direita ou que já questionou vacinas tivesse feito a mesma reportagem, com exatamente os mesmos dados. Teria o apoio incondicional dos demais colegas? Não sei.

Muitos justificam que o apoio é dado porque as reações, principalmente xingamentos e ameaças, são completamente desproporcionais. Concordo integralmente. Aliás concordo integralmente desde 2015 e, neste artigo, você pode ver diversas situações em que os mesmos jornalistas tiveram a oportunidade de demonstrar sua indignação diante de ataques. Novamente, não é o ataque, é quem foi atacado.

Sucumbir à dinâmica social criada pelas redes é um movimento suicida para o jornalismo, cuja força está em revelar fatos. Nas bolhas criadas na Cidadania Digital, fatos pouco importam, importa o grupo. Se alguém do grupo erra, foi acerto. Se alguém de fora erra, precisa ser cancelado de forma implacável e toda atitude é justificável pelo bem maior.

Fiz esses dias um texto sobre a campanha contra o comunicador Sikêra Jr. e a ameaça que representa para demais jornalistas. Goste ou não goste dele, concorde ou não com o que ele falou, normalizar a lógica do justiçamento é algo ruim para a sociedade e idiotizante para o jornalismo.

Existe quem fale da imprensa tradicional como "o quarto poder". Concorde você ou não com a afirmação, uma coisa é certa, jornalismo é institucional e só tem força agindo dentro das regras. Apoiar punições em forma de justiçamento nunca levou o jornalismo nem jornalistas a bom lugar.

Quando você admite que determinado grupo pode quebrar todas as regras por agir em nome do que este grupo considera um "bem maior", está entrando na fila de próxima vítima. Haverá grupos que discordam de você e você cometerá erros que justifiquem represálias. Elas serão dentro das regras ou na lógica do justiçamento?

No momento em que o jornalismo apoia o justiçamento contra quem está na imprensa tradicional e errou, isso vale para todos os casos. Cada parcela da sociedade, de acordo com seus valores e princípios, entenderá qual caso é mais grave e merece justiçamento. Haverá para todos, ódio é um item que não fica em falta jamais.

Estamos agora diante dessa encruzilhada. Que tipo de atitude é justificável contra uma pessoa que, no meio da pandemia e do caos que já vivemos, diz a um país que milhares de pessoas tomaram vacinas vencidas? Todas aquelas que estejam dentro das leis e regras de convivência civilizada. Infelizmente, neste caso, muita gente acredita que a civilização acabou.

Por outro lado, o jornalismo que apoiou justiçamentos fica sem coragem de voltar atrás, de reparar erros. O ataque pelo erro persiste na lógica da internet a despeito de qualquer explicação ou reparação, ele é eterno porque independe de fatos. Muitos optam então por casar com o erro, aceitar o prejuízo e seguir em frente. Conversei ontem sobre isso, aliás, com o jornalista Rica Perrone.

Eu não tenho dúvidas de que o nível de ensino formal, técnico e de erudição dos jornalistas só melhorou nas últimas décadas. Viemos de uma realidade quase artesanal, em que meninos de 13 anos eram metidos nas redações, para regras claras e novas técnicas, até inteligência artificial. Ocorre que isso não basta, precisamos aprender mais sobre gente e valores humanos.

A cultura do cancelamento trata erro como pecado mortal, elimina da realidade humana a ideia de redenção, de misericórdia e de perdão. Traz à realidade dos grupos sociais a indulgência de não enfrentar os próprios demônios pela possibilidade de simular virtude. Basta apontar o defeito do outro para ter certeza de que é bom e seu grupo é bom.

Quanto mais tecnologia tivermos, mais precisaremos entender de pessoas. Vale para tudo, inclusive para o jornalismo. É preciso entender de pessoas para que o "jornalismo de dados" possa trazer ao público informações seguras e importantes. Também precisamos compreender o comportamento humano para lidar com o fato de que erramos, erraremos e errarão conosco. A vida, no entanto, prosseguirá.

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