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John McAfee, o prodígio do Vale do Silício que dedicou uma vida ao crime
Mesmo depois de uma trajetória impressionante de criminalidade, John McAfee continuou popular na imprensa e nas redes sociais.| Foto: twitter John McAfee

Você deve ter reconhecido o nome McAfee do seu computador, aquele antivírus famoso e longevo. Todos os dias, milhões de seres humanos têm sua vida digital protegida pelo fruto da genialidade de um homem que destruiu a própria vida. Esta semana, o britânico John McAfee foi encontrado morto em sua cela na Espanha.

Muitos estão associando a história de vida dele e a morte numa cela à trajetória do bilionário Jeffrey Epistein. Se você viu o documentário sobre ele, sabe que pareceria forçado demais na ficção. Demorou uma eternidade para que a opinião pública descobrisse a indústria de abuso sexual tocada por uma figura que circulava em todos os ambientes de fama e poder nos Estados Unidos e Europa.

A história de vida de John McAfee supera todos os limites da imaginação. Difícil imaginar que tipo de ficção é capaz de competir com essa realidade. Falamos aqui de um gênio da matemática e computação, menino prodígio e pioneiro do Vale do Silício, que trabalhou ativamente para destruir a própria vida até que conseguiu. Traz informações importantes para este momento de reflexão sobre as Big Techs.

John McAfee era formado em matemática e, com apenas 23 anos de idade, foi contratado pela NASA como programador no Instituto de Pesquisas Espaciais. O talento dele ficou conhecido e foi requisitado pela iniciativa privada. Na década de 1980 trabalhou em gigantes da tecnologia.

A genialidade ficaria conhecida no mundo quando os computadores pessoais começaram a se popularizar e surgiu o primeiro vírus, o Pakistani Brain. Ele foi produzido por dois irmãos no Paquistão, Amjad Farook Alvi e Basit Farooq Alvi. Não era uma operação de guerra, foi uma ideia de dois programadores de 17 e 24 anos de idade.

O vírus foi detectado pela primeira vez na Universidade de Delaware em janeiro de 1986. Ele destruía a memória dos computadores, fazia com que eles ficassem muito lentos e depois mostrava uma mensagem de copyright com o nome dos dois irmãos. Tudo teria sido feito na maior das boas intenções, a luta contra a pirataria.

Amjad e Basit criaram um programa que era o vírus, mas ele só atacava computadores com software pirata. Diziam ter criado isso porque ficaram com raiva ao ver outras pessoas comercializando ilegalmente programas que eles criaram. Foram tratados como heróis até a Time Magazine descobrir que eles também pirateavam software caros na época, como o Lotus.

Os dois irmãos paquistaneses vendiam software pirata sem problemas dentro do Paquistão. Mas, para estudantes e mochileiros dos Estados Unidos, vendiam o programa pirateado com o vírus que criaram. Hoje, os dois são donos da Brain Net, o maior provedor de internet do Paquistão. John McAfee começou a carreira interrompendo a transmissão do vírus Pakistani Brain.

Ele foi o único programador do mundo capaz de criar um software eficiente para desabilitar o primeiro vírus para computadores pessoais. Em 1987, começou a construir um império de segurança digital, a McAfee. Estabeleceu liderança mundial e, 7 anos depois, vendeu a empresa para a Intel, que manteve o nome dele.

Até a morte, John McAfee tinha raiva da Intel. O acordo feito o impedia de usar o próprio nome em outras marcas, ele foi vendido junto com a empresa. É um modelo de aquisição de marca que ficou famoso na indústria da moda com Halston, estilista preferido da primeira-dama dos Estados Unidos Jackeline Kennedy. Na decadência, ele também vendeu a empresa e o próprio nome.

Mas a decadência de Halson, usuário de drogas, não se compara à loucura que virou a vida de McAfee. Um documentário de 2016 chamado "Gringo: a perigosa vida de John McAfee" mostra a primeira parte dessa história, a rotina dele em Belize.

O novo milionário mudou-se para o país da América Central depois de separar-se da mulher e virou alvo da polícia por suspeita de produção e tráfico de drogas. São fartas as imagens em que era acompanhado por diversos seguranças usando armas de grosso calibre. Era só o começo de uma história vivida nos olhos da opinião pública e perdoada pela imprensa e pelo Vale do Silício sem que McAfee jamais tivesse pedido perdão.

O milionário sempre foi uma constante na imprensa e nas mídias sociais com polêmicas, provocações e frases de efeito. Em Belize, John McAfee montou um harém com 7 mulheres de 17 a 25 anos de idade. Questionado pela imprensa dos Estados Unidos, declarou que já havia sido casado duas vezes e era muito menos estressante viver com um harém de mulheres bem mais jovens.

Os problemas não paravam. O milionário foi acusado de contratar um matador de aluguel que assassinou seu vizinho. Alegou que o vizinho havia matado seus cachorros. Também é acusado de participação no assassinato de um homem que tentou roubar sua casa. Ele foi imobilizado com armas de choque e morreu esfaqueado. Nunca chegou a ser indiciado em Belize.

Primeiro, McAfee passou um tempo escondido e depois fugiu para a Guatemala com uma namorada só, de 20 anos de idade. Acabou preso por imigração ilegal e ameaçado de deportação para Belize com o objetivo de responder pelos assassinatos. Ele simulou um ataque do coração e conseguiu negociar uma deportação para os Estados Unidos.

Na mesma noite em que chegou à Flórida conheceu, em 2012, a mulher com quem se casaria e seria sua companheira até a morte, Janice Dyson, quase 40 anos mais nova que ele. Ele solicitou uma prostituta. Tanto o cafetão quanto o cartel a que ele era ligado enviaram alguém com a missão de entrar na vida de McAffee para espionar. Foi exatamente o que ela fez.

Os dois casaram-se em 2013 no Tenessee, onde passaram a morar em uma casa fortificada e cheia de seguranças. Somente no ano seguinte, 2014, Janice acabaria contando que desde o princípio passava informações aos criminosos. John McAfee relatou depois ter sido um momento maravilhoso.

Numa entrevista do casal ao programa 20/20, eles contaram em detalhes as exigências do cartel a Janice. Além de mandar informações, queriam que ela facilitasse a entrada deles na casa e fosse envenenando McAfee aos poucos. Quando a pressão tornou-se insuportável, ela contou. Ele compreendeu e acolheu a esposa e os 3 filhos dela. A última postagem de John McAfee nas redes foi o Feliz Dia dos Pais dado por Janice.

A paternidade a que Janice se refere na postagem não é dos filhos dela. John McAfee era um sério rival do também falecido Mister Catra. Declarava publicamente ter 47 filhos, a maioria não registrados. Mas ponderava que mantinha contato com todos, apesar de ser difícil acompanhar os filhos e os que iam nascendo, garantia ajudar todos financeiramente. Dizia que as idades variavam entre adolescentes e homens de 50 anos. John McAfee morreu com 75 anos de idade.

Calma que eu já chego na última prisão. Antes tem outra. Em 2018, John McAfee promoveu um espetáculo midiático dizendo que tinha sido vítima de um atentado de envenenamento dentro da própria casa. Resolveu então fugir para Cuba em um iate com a mulher, Janice. Tal como os policiais que procuram o assassino Lázaro, postavam constantemente sua localização nessa missão tão secreta.

John McAfee foi preso pelo governo da República Dominicana por entrar no país com armas ilegais. Foi aí que ele começou a dizer que era perseguido pelo governo dos Estados Unidos por expor a corrupção dos agentes públicos, história que a viúva mantém até agora.

Na época da prisão, o milionário disse que foi tudo armado porque ele foi cercado no porto assim que desceu do iate, antes que as armas fossem encontradas. Apesar do grosso calibre que você vê nas fotos, alegou que é o normal de qualquer iate, já que há muitos piratas no mundo e o cidadão precisa ter o direito de defesa.

As autoridades dominicanas queriam deportá-lo para os Estados Unidos, mas não havia nenhum pedido formal nem crime cometido em território norte-americano. John McAfee foi então para Londres, em seu país natal. Continuava postando fotos da fuga em redes sociais, narrava o caminho até o que seria um abrigo seguro, à prova de internet e sinais de celular.

Pouco tempo depois, o pioneiro do Vale do Silício deu entrevista em vídeo ao tablóide britânico The Sun diretamente do esconderijo secreto na Lituânia. Era um abrigo totalmente coberto de papel alumínio. Ainda não era o final da história. Havia decidido ser candidato à presidência dos Estados Unidos, fato amplamente noticiado pela mídia.

Se você chegou até aqui, deve estar imaginando o quanto as pessoas ficavam indignadas com o comportamento de John McAfee. Um prodígio que teve todas as oportunidades do mundo optava por jogar tudo fora e virar criminoso e, ainda por cima, debochado. Ocorre que o milionário tinha todos os predicados para virar queridinho da mídia, do Vale do Silício e também um fenômeno nas redes sociais. Foi essa fama que o levou à prisão.

Nos últimos anos de sua vida, o milionário entrou no ramo de criptomoedas. E não pensem que foi pela porta dos fundos. Apesar de toda a confusão que ele fazia questão de tornar bem pública, ainda era figurinha carimbada de eventos empresariais importantíssimos.

Nesta palestra, John McAfee mostrava que o gênio não morre. Fez uma defesa apaixonada das criptomoedas capaz de convencer muita gente esperta. Argumentou que conhece o mercado, fez muito dinheiro. No entanto, quando alguém enriquece por meio do sistema, está trabalhando para fortalecer um sistema que vigia e persegue cidadãos que desejam ser livres.

Ele pode até ter razão. Mas ainda é intrigante para mim a razão que levou tanta gente a confiar as próprias economias a John McAfee nessa altura do campeonato. O fato é que aconteceu e ele deu um golpe milionário em criptomoedas aproveitando a popularidade de sua conta do Twitter.

O golpe é conhecido como "pump and dump" e só foi possível porque ele nunca deixou de ser uma figura extremamente influente e popular. Trata-se de incentivar que muitas pessoas adquiram um bem. Na lei da oferta e da procura, se este bem é muito procurado, ele valoriza. Foi o que aconteceu com as criptomoedas que ele vendia.

Assim que houve a valorização, ele se desfez do que tinha e embolsou o dinheiro. Isso fez com que houvesse excesso de oferta e o preço caiu vertiginosamente, impactando quem havia comprado incentivado por ele. A gente é brasileiro e não acha isso tão grave à primeira vista. "Ninguém mandou ser trouxa", é possível pensar. Mas trata-se de crime. Ele não estava criando uma criptomoeda como prometia, estava de caso pensando inflando o valor de algo para se aproveitar da boa-fé das pessoas.

Nada levava consequências sérias à vida de McAfee. Tráfico de drogas, armas ilegais, acusações de estupro e assassinato não abalaram seu poder. Ocorre que este escândalo financeiro virou um problema e trouxe outro, a devassa do governo nas finanças do milionário. Estava devendo US$ 4,2 milhões em impostos e acabou na lista de procurados da Interpol. Era o começo do fim.

O processo pelo assassinato do vizinho em Belize acabou andando e ele foi condenado a pagar uma indenização de US$ 25 milhões à filha da vítima. Chegou a pandemia em 2020 e o milionário continuava solto. Teve tempo de fazer postagens incendiárias sobre COVID. Não acreditava na existência da doença. Posou com uma calcinha no lugar de máscara e uma máscara como cueca. Não contente, postou uma foto lambendo um sapato na tentativa de pegar a doença.

Em outubro do ano passado, a Interpol prendeu John McAfee a pedido do governo dos Estados Unidos no aeroporto de El Prat, na Espanha. Ele tentava escapar para a Turquia. Ficou 8 meses preso até que a justiça espanhola decidiu que deveria ser deportado para os Estados Unidos. Horas depois do veredito, foi encontrado morto na cela. O governo espanhol declara oficialmente tratar-se de suicídio.

Durante a prisão ainda houve tempo para causar mais na imprensa. O milionário afirmava que o governo dos Estados Unidos iria "suicidá-lo". Fez uma tatuagem com a inscrição "$Whacked", que significa cansado de tanto apanhar, acabado. Fez vários posts dizendo que, se acabasse como Epstein, a culpa não era dele, mas do governo norte-americano.

A fortuna de John McAfee foi multiplicada durante os anos de loucura, chegou à casa dos bilhões. Nunca saiu da imprensa, virou um hit de redes sociais e tinha credibilidade o suficiente para dar golpe financeiro em quem acreditava na sua habilidade com finanças. A trajetória de vida dele diz muito sobre a nossa cultura midiática e os valores do Vale do Silício.

Tudo o que é extremo gera atenção, compartilhamento, lucro e, portanto, é sinônimo de sucesso. O extremo precisa ser cada vez mais extremo para manter-se popular. John McAfee seguiu à risca esses princípios fundamentais das Big Techs e fez o que quis. Pisotear a dignidade humana, dele próprio e de uma multidão de outros, jamais foi empecilho para a trajetória. O limite só foi dado quando arrumou problema com algo verdadeiramente sagrado nessa cultura, o dinheiro.

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