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Lula
| Foto: Joédson Alves/EFE

Lula lançou sua pré-candidatura de forma apoteótica no final de semana. Teve anúncio de casório com a noiva 21 anos mais jovem, Janja. Ela fez parte do evento com uma "surpresa" daquelas bem naturais, um remake de "Sem Medo de Ser Feliz", jingle histórico da campanha de Lula em 1989. Os políticos tentaram adotar um tom democrático e conciliador, mas tem a torcida.

Abro um parêntese para o debate sobre a obrigatoriedade de cônjuge décadas mais nova para concorrer à presidência. Isso já está virando uma palhaçada. Além de Lula, Bolsonaro e Ciro aderiram. A coisa está tão descarada que Fernando Henrique, já afastado do cargo, resolveu trucar todo mundo e competir num nível Michel Temer. Resta saber se Dória e Simone Tebet serão obrigados a arrumar novinhos para poder ter registro eleitoral. Fecho o parêntese.

Saímos da era daquelas primeiras-damas vetustas para uma versão mais, digamos, "Sininho" da coisa. E também saímos da era da militância petista de fazer greve e lotar estádio para a gourmetização do PT. Um momento clássico foi o da exibição de ignorância do nobre representante do identitarismo. Ao propor esclarecer algo, ele usa a palavra "escurecer":

Gente, se eu fosse o iluminador, desligava tudo na hora. Não é para escurecer? O mais ridículo é tentar enfiar uma pauta racial no meio de algo que remete a luz e sombra. Aliás, pode ser uma reação à revolta da militância gourmet diante de uma foto escancarando a "branquitude" das cúpulas do PT e PSB. Vi muita gente comemorando nas redes a presença de pessoas negras no palco.

Uma conhecida disse estar feliz porque avançamos. "O PT entendeu que não dá para ter só homens brancos na foto", comemorava. E o PT entendeu tudo mesmo. Na foto tem de ter diversidade, já nas posições de mando não. É igualzinho no mundo da publicidade. Você é o gatekeeper da diversidade, cria vaga com cota, abre porta para mulheres e negros mas eles que não se metam a querer mandar. Vamos de fotinho que está de ótimo tamanho e a elite branca antirracista comemora.

O Lula de antes costumava chamar esse pessoal de "elite branca de olho azul". Agora talvez ele tenha de chamar de elite branquE de olho azul, já que virou tudo eleitor dele. Esse pessoal já decidiu que a eleição em dois turnos vai ter um turno só e quem não votar em Lula ou criticar Lula é fascista porque precisamos resgatar a democracia. Oi? Criança que nunca ouviu um "não" geralmente raciocina assim.

A ala gourmet e mimada do petismo, que não é militância mas gosta de se confundir com ela, começou a surtar. "Quem não tiver um orgasmo na urna quando apertar 13 Lula é fascista", bradam os mais luloafetivos. Os supostamente moderados pregam que qualquer crítica a Lula agora é apoio ao fascismo. Não votar em Lula é ser linha auxiliar do fascismo. Ainda não sei se é campanha pelo voto nulo ou pelo Bolsonaro, mas está indo de vento em popa.

Vamos a um quiz: qual corrente política tem como uma de suas principais características o culto ao líder, que não pode ser criticado? Dica: é a mesma corrente política que defende o emparedamento ou execração de todo indivíduo que questionar o líder supremo, único legítimo representante do povo. Gente, vejam só, tem isso no fascismo!

Ou seja, aplicar teorias e métodos do fascismo seria a única forma de garantir a democracia. Vi gente séria dizer: primeiro a gente garante a democracia, depois a gente reclama. Amores, esse é o famoso "na volta a gente compra". Se não pode ser criticado, o projeto não é democrático. Se propõe emparedar e julgar moralmente quem critica, também não é democrático.

É direito da pessoa amar o Lula e querer dar um cheque em branco para ele governar como quiser, virar imperador do Brasil. Cada um com seus gostos. O que não dá é para dizer que defesa da democracia consiste em silenciar críticas e fazer julgamento moral sobre posição política dos outros. Isso não chama democracia e não leva a democracia. Mas é essa a ideia de governo do petismo gourmet.

Vi diversos colegas jornalistas entre ontem e hoje dizendo que vão calar as próprias críticas sobre Lula até que ele ganhe no primeiro turno em nome da democracia. Não existe democracia sem imprensa livre e consciente do seu papel. Se a imprensa não exercer o seu papel durante essas eleições, perde ainda mais credibilidade junto à população.

O mais assombroso é a burrice. Se um jornalista diz isso, o que ele pretende como resultado? Não pode ser ajudar o Lula a se eleger. Se for isso, tomara que nunca caia de quatro. A população já tem desconfiança sobre uma tendência da imprensa à esquerda, desconfia que exagera com Bolsonaro e passa pano para Lula. Quando diversos jornalistas declaram abertamente a intenção de fazer isso, o que as pessoas vão concluir?

Exatamente! O que todo ser humano mais ama concluir, que estava certo. Então não vai adiantar mais o jornalismo bater em Bolsonaro porque as pessoas pensarão que é exagero. Também não adiantará poupar Lula de críticas, as pessoas vão ver o noticiário sobre Bolsonaro e imaginar que haveria a mesma quantidade de pautas negativas sobre Lula, só que foram escondidas.

A decisão de não criticar Lula e patrulhar quem critica é inócua para que mais gente vote no petista. Não é militância política, é a antipolítica que a ala gourmet do PT já fez na eleição passada e quebrou a cara. É um movimento que serve apenas como autoajuda. Um elogia o outro, todos se sentem parte de um grupo e moralmente superior aos demais. Quando der tudo errado, botam a culpa em alguém.

Outro dia, desabafei que mulher burra não me irrita, tenho a maior paciência. Já com homem burro não tenho nenhuma. Foram os homens no próprio Twitter que corrigiram minha percepção. Meu problema não é ser homem ou mulher, é com arrogância. Homem burro tem muito mais chance de posar de grande sábio da montanha enquanto fala suas platitudes do que a mulher burra.

Agora eu confirmei isso. Vi pessoas propondo interdição do debate democrático porque, se criticar Lula, o Bolsonaro dominará a galáxia. Todas, homens e mulheres, posavam de grandes sábios da montanha. O mais grave é gente desse nível de incompetência se julgar capaz de defender a democracia. Não é e está corroendo a democracia pelo luxo de arrotar a virtude que não tem.

Este ano, o V-Dem, instituto da Universidade de Gottemburgo, mostrou que a democracia retrocedeu 30 anos e o autoritarismo tem um novo fio condutor: polarização tóxica. O que é isso? Julgamento moral do adversário, ver a política como uma luta entre o bem e o mal. É justamente o que estão fazendo os gloriosos integrantes da militância petista. Dizem defender a democracia, agindo da forma como está comprovado que hoje se consegue autocracias.

O estudo também mostra que cada vez mais gente está preocupada com a defesa da democracia e cada vez mais autocracias se impõem. Um ponto importante é que boas intenções e boa vontade não são suficientes para manter uma democracia em pé, é necessário ciência e eficiência. São coisas muito chatas. Melhor mesmo patrulhar vocabulário alheio e xingar todo mundo de fascista.

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