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Só há liberdade com responsabilidade
| Foto: Bigstock

A pandemia nos faz discutir sobre liberdade talvez mais do que já tenhamos feito mesmo em momentos críticos da nossa história. Todos nos sentimos privados de liberdade de alguma forma, é inevitável. Perdemos a sensação de poder controlar e planejar nossas vidas e nossos destinos, de solucionar problemas, de realizar sonhos. Embora a vida seja, na realidade, um navegar por incertezas e obstáculos, a pandemia nos dá uma dimensão mais concreta dessa realidade incômoda.

Mais uma vez, a nossa reflexão sobre liberdade é pautada pela nossa cultura, construída sobre a premissa de que não precisamos nos responsabilizar pelos nossos atos. Um direito corresponde a uma obrigação? Depende. Vão nos obrigar? Assumir responsabilidades por vontade própria, sem motivo de força maior, pode gerar o rótulo de trouxa a quem pretende apenas ser correto.

Somos humanos, fazemos bem e mal. Há os que fazem o mal conscientemente. Há os que não conseguem fazer o bem que querem e acabam fazendo o mal que não querem. Não é humanamente possível acertar sempre ou só fazer o bem, mesmo para os melhores de nós. A questão da infalibilidade sequer está posta, a única certeza sobre ela é ser impossível. A grande questão é como reagir diante dos nossos próprios erros e malfeitos e aí se inicia o debate que nos falta, o da responsabilidade.

Vivemos uma sociedade desigual, tolerante com as atrocidades de alguns privilegiados e implacável com qualquer pequeno deslize da maioria. O cidadão comum, que tenta cumprir suas obrigações, conhece bem as consequências de uma falha, esquecimento ou planejamento equivocado. Para os amigos do poder, as consequências são bem mais mansas, delicadas, vagarosas, muitas vezes inexistentes.

É natural que as pessoas pautem seu comportamento pelos exemplos que vêm de cima, das lideranças políticas, econômicas, culturais, sociais. Seja na pandemia ou no cotidiano que conhecíamos antes dessa tragédia, são os mais resistentes em seguir as regras voluntariamente. Ironicamente, são os que mais condições objetivas teriam de seguir regras e reparar os erros que cometem, que todos os seres humanos cometemos. Criamos uma dinâmica em que mais poderes não significam mais responsabilidades, pelo contrário, significam mais meios de fugir das responsabilidades, uma aberração completa.

Examinemos o curioso caso dos 73 mil militares que, sem ter direito, receberam os R$ 600 de auxílio do governo durante a pandemia. Se vivêssemos em uma sociedade onde honestidade e responsabilidade realmente fossem valores levados a sério, a maior parte desse dinheiro já estaria de volta nos cofres da União. É muito fácil para qualquer servidor emitir uma GRU, Guia de Recolhimento da União, informar seus dados, o motivo da restituição, gerar um boleto e pagar imediatamente. Como nem esperamos que as pessoas sejam responsáveis e honestas, tudo toma outras proporções.

Chegamos ao cúmulo de ter declarações presidenciais dizendo que haverá punição para quem recebeu o dinheiro indevidamente. Aqui perde-se completamente o senso de responsabilidade: punido deve ser quem efetuou o pagamento e quem se recusou a devolver, não quem recebeu. Aliás, difícil entender por que esta medida ainda não foi tomada.

Suponhamos que uma parte dos militares tenha restituído este dinheiro aos cofres da União por honestidade, mesmo precisando da soma no orçamento doméstico. Não duvide que serão ridicularizados em seu meio social, às vezes recriminados pela família e amigos. Numa sociedade em que levar vantagem sobre os outros é qualidade - e não imoralidade - o honesto pode ser ridículo.

"De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto", disse Rui Barbosa em um discurso no Senado em 1914. Continua atual.

Uma das fugas da responsabilidade que mais indigna a sociedade é a das mortes no trânsito. A infame existência do motorista embriagado que apresenta a tragédia à vida de uma família e sai impune, caminha livre pela porta da frente do tribunal.

Culpa das leis frágeis, dos inúmeros recursos, do sistema penal, costumamos dizer. Pode ser, mas não apenas. Como essa pessoa dorme sabendo que nada fez para amenizar a dor que causou? Como a família desta pessoa vive o dia-a-dia sabendo que nada fez para tentar reparar a desgraça que um dos seus causou a outra família? É a cultura da irresponsabilidade.

Pessoas adultas têm a consciência de que são livres para perseguir seus sonhos, expressar suas opiniões, realizar seus desejos. Isso implica assumir as consequências, pedir perdão e reparar os danos que causamos aos outros e à sociedade quando erramos.

Essa parte das consequências não é muito bem digerida pela sociedade brasileira. Muitas vezes, quando se chama um adulto à responsabilidade, ele imagina que lhe estão tolhindo a liberdade. Um exemplo lapidar é o do infame movimento antivacina, que tem como base a ignorância, o desprezo pela vida em sociedade e o desejo de inimputabilidade. Os integrantes deste movimento reivindicam a liberdade de infectar outras pessoas com doenças evitáveis e de sabotar a cobertura vacinal mínima necessária para a segurança de uma comunidade. Adivinha qual a proposta para assumir as consequências? Isso mesmo, nenhuma.

Passemos agora à realidade da pandemia, em que há quem reivindique a "liberdade" de expressar fantasias sem nenhum embasamento científico, teórico ou empírico e dar a elas o rótulo enganoso de "opinião". Quando se trata de cidadãos comuns, é algo corriqueiro, falamos do que queremos, precisamos desabafar. O problema é quando o ato vem com a chancela de uma instituição respeitada. Neste contexto, há razão para que outras pessoas realmente acreditem que não se trata de uma fantasia, mas de alguém que tem autoridade para dizer o que diz.

É um caso de liberdade de expressão? Pode ser, não sei. Caso seja, qual o plano de quem exerce essa liberdade para assumir as responsabilidades decorrentes dela? Há pessoas sem formação científica comentando estudos científicos e, em decorrência disso, recomendando remédios. Só que não se trata das senhoras antigas que recomendavam Cibalena, são pessoas tratadas até por meios de comunicação como especialistas no tema, falando para uma população desesperada diante de uma pandemia.

Nos acostumamos a reivindicar direitos e a tolerar que eles sejam exercidos sem que as pessoas assumam naturalmente suas responsabilidades. Fazer com que o adulto brasileiro deixe de se enxergar como inimputável é uma operação que leva tempo, precisa de ajuda do Estado-babá e muitas vezes não dá certo. Nas horas de emergência, não temos tempo nem energia para isso.

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