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Supremo Tribunal da Internet faz mais uma vítima
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Bastou um vídeo de um minuto e meio, publicado pelo site de fofocas TMZ para que Johnny Depp fosse sentenciado pelo Supremo Tribunal da Internet em 2016: homem que bate em mulher. Ele sempre negou as acusações e entrou na Justiça questionando as declarações da ex, o que não impediu que a imprensa no mundo todo enxovalhasse sua imagem.

Os jornalistas que reportaram o caso falando em "supostas agressões" foram enxovalhados: machistas! Não havia supostas diante de fotos que a própria Amber Heard postou na internet demonstrando a surra que levou, tinha olho roxo e tudo.

Era o clichê perfeito. Johnny Depp é um ator famosíssimo de Hollywood que se casou com uma moça 23 anos mais jovem que ele. Queria se impor sobre ela inclusive fisicamente, sentia-se intocável. O pai dela chegou a ameaçar publicamente o ator de morte, tão revoltado estava.

O acordo de divórcio foi esquisitíssimo para sustentar a versão de mulher agredida. Ela retirou a queixa de agressão feita na Justiça, recebeu US$ 7 milhões e doou toda a quantia para instituições de caridade. Àquela altura, já havia muita gente próxima do casal contestando a versão de Amber, mas era impossível convencer o Supremo Tribunal da Internet que ele não sabia os bastidores de alguma coisa. O acordo foi retratado como a certeza de que ela não queria se aproveitar dele, só queria expor o caso de violência doméstica.

Quase 4 anos depois, a reviravolta: o Supremo Tribunal da Internet condenou mais um inocente. Era Amber Heard que batia em Johnny Depp e ainda tirava sarro da cara dele depois.

O deboche de Amber Heard diante das reclamações do então marido está em um áudio liberado somente agora pela Justiça dos Estados Unidos. Trata-se de uma briga em que o ator reclama das agressões físicas que vem sofrendo enquanto ela ri dele, arremeda, xinga e grita. Faço questão de transcrever (e tomei a liberdade de retirar os palavrões) para que o leitor possa avaliar o nível de crueldade.

Depp - Depois que você ficou absurdamente violenta fisicamente comigo... Eu mandei uma mensagem para o Travis... Eu disse "venha aqui".

Amber - Eu sei!!!

Depp - Porque eu não queria que nada acontecesse...

Amber - (interrompe tirando sarro) Venha me salvar!!!

Depp - Venha o quê? Me salvar?

Amber - Não, pode continuar... Trevis e o resgate.

(...)

Depp - Eu disse: "conte para ele o que aconteceu".

Amber - E então eu menti.

Depp - Então você me socou na cara e disse "não, eu não fiz isso".

Amber - Você está certo, descobriu tudo.

Depp - Não, não descobri. Do que você está falando? E eu te vi mentir.

Amber - Eu não soquei você. Eu não soquei você, aliás. Desculpa se eu não bati em você...

Depp - Você me socou sim.

Amber - ...na cara com um tapa apropriado, mas eu estava batendo em você, não socando. Você não foi socado.

Depp - Não venha me dizer qual é a sensação de um soco!

Amber - Você sabe... você esteve em muitas brigas, está aí há muito tempo, eu sei...

Depp - É quando você fecha o punho!

Amber - Você não foi socado, você apanhou!!! Desculpa ter te batido assim, mas eu não te soquei. Eu não dei uma surra em você. Eu só estava estapeando você. Eu não sei qual o movimento real que a minha mão fez. Mas você está bem! Eu não machuquei você! Eu não soquei você! Eu estava estapeando você!

Depp - Como estão seus dedos dos pés?

Amber - Eu não estou aqui de mimimi sobre isso... estou? Você está!

Depp - Seus pobres dedos dos pés.

Amber - Essa é a diferença entre você e eu: você é um bebê!!!

Depp - Porque você começa brigas físicas?

Amber - Você é tão bebê!!! Cresça, Johnny!!!

Depp - Porque você começa brigas físicas?

Amber - Eu comecei sim uma briga física.

Depp - E foi por isso que eu tive de sair daqui.

Sinto aflição só de imaginar esse tipo de diálogo em um casamento. É angustiante. Mas o caso real foi além disso. Depois de manter essa rotina de abuso físico e deboche, Amber Heard ainda prestou queixa contra Johnny Depp por agressão e buscou a mídia alternativa de fofoca para difundir um vídeo em que ele se defende mas que, na edição, parece que faz um ataque.

É óbvio que, no Supremo Tribunal da Internet, essa discussão vai descambar para machismo, feminismo e a existência de falsas denúncias de agressão, afinal já há hashtags consagradas para isso e pega muito bem fazer discursos com palavras de ordem sobre o casamento dos outros. Eu proponho ir além, pensar em quantas pessoas são julgadas e canceladas instantaneamente todos os dias em casos semelhantes.

O vitimismo nos seduz. É tentador pensar que o mais fraco ou mais sonso necessariamente é uma vítima que jamais poderia fazer uma pessoa forte e poderosa se sentir ameaçada. Também temos muito apreço pelo papel de defensor dos fracos e oprimidos, sem levar em conta que podem não ser fracos nem estar oprimindo. Por isso, as hordas atacam o forte, em todo e qualquer conflito.

Todos nós já nos decepcionamos com alguém do nosso relacionamento que, anos depois, revelou ser de uma forma ou ter feito algo que não admitimos moralmente. Conhecer alguém leva tempo e todos sabemos disso. Também creio que todos já experimentamos na vida tanto a posição de vítima quanto a de algoz em julgamentos apressados e injustos. Esse processo parece muito mais intenso nas redes sociais. Cada vez mais precisamos verificar com disciplina se nossas atitudes cotidianas estão de acordo com os nossos princípios.

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