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A artista queer drag Mrs Tan se apresenta durante uma manifestação pedindo "igualdade de direitos e oportunidades para membros da comunidade LGBT" (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros) na Universidade das Filipinas (UP ) em Quezon City, Metro Manila, Filipinas, 29 de outubro de 2021
| Foto: EFE/EPA/ROLEX DELA PENA

Ontem eu pensei mais de duzentas vezes antes de clicar num link postado pelo Raphael Tsavkko Garcia. Cliquei e fui simplesmente abduzida. Estou presa até agora na sensacional página "Orientando", inteiramente voltada para a criação de uma novilíngua e de uma realidade paralela sobre a condição humana, principalmente na área da sexualidade.

Ali tem um manual que parece feito por uma versão passivo-agressiva do Kim Jong-un. Com uma linguagem fofa, o site argumenta que você precisa agir para evitar que outras pessoas sejam magoadas. E então precisa mudar toda a sua linguagem e o seu pensamento, incluindo as diversas nuances de sexualidade que estão ali. Se você embarca nessa, vai cair na ribanceira do cancelamento rapidinho.

De onde tiraram as tais nuances? Do que chamam de "vivências", ou seja, do que alguém disse e pode ser verdade ou a mais pura invenção. Se alguém é do grupinho dos Che Guevara de apartamento e inventa algo, isso passa a ser um axioma. É mais até do que a Bíblia, já que existem outras religiões no mundo. O alecrim dourado do grupinho inventou uma nova sexualidade? Se você não souber o nome, o artigo e como falar disso, será cancelado.

Vamos começar aqui pela maioria, os heterossexuais. Esqueça, não existe mais heterossexual. Se você falar isso, é cancelamento na cabeça. Eu, por exemplo, ainda não sei direito o que eu sou: duárique ou julietiana. Pode ser que eu seja as duas coisas ao mesmo tempo. A lista completa está aqui, mas eu vou conduzir você pelo universo encantado dos "termos juvélicos" e suas bandeirinhas.

Duárique: Alguém que é homem e capaz de sentir atração por mulheres, ou que é mulher e capaz de sentir atração por homens, exclusivamente ou não (HAM ou MAH). Um relacionamento entre um homem e uma mulher pode ser chamado de duárico.

Se você é parte de um casal heterossexual, para respeitar o sei-lá-o-quê que esse povo inventou agora os sentimentos e a diversidade, você não diz mais que está num casamento, numa relação hetero, num namoro ou o que quer que você diga. Você está em um relacionamento duárico.

Mas agora começam as minhas dúvidas. Eu não sei mais se eu sou duárique ou julietiana. Se, até ontem, você era um homem heterossexual, agora você é romeriano. Ou duárique também, vai saber. Mas as duas coisas têm bandeirinhas e definições.

Romérico: Um homem capaz de sentir atração por mulheres, exclusivamente ou não (HAM).

Julietiana: Uma mulher capaz de sentir atração por homens, exclusivamente ou não (MAH).

Se você é homossexual, pode ser que assuste bastante agora. Já ouvimos na vida todo tipo de termos pejorativos para falar de homens e mulheres heterossexuais, mas agora o povo exagerou: equárique. Como aluna honorária da 5a série C, confesso que estou rindo até agora do que eu pensei que fosse.

Equárique: Alguém que sente atração pelo mesmo gênero ou pela mesma categoria de gênero, exclusivamente ou não (HAH, MAM e/ou NBANB).

Você deve estar pensando o que seriam essas siglas após as explicações. Sim, também foi criada uma mitologia que explica as siglas. Eu transcrevo mas não tenho condições de opinar porque não entendi nada.

  • A: “atraíde por”, “que é atraíde por”, “que ama”. É a parte que indica que é o termo que vem antes que sente atração pelo termo que vem depois;
  • B: pessoa binária (alguém que é sempre apenas mulher ou sempre apenas homem);
  • H: homem;
  • M: mulher;
  • NB (ocasionalmente N): pessoa não-binária;
  • NG: pessoa neurogênero;
  • Q: pessoa queer, ou seja, fora da di/cis/heteronorma;
  • X: pessoa agênero;
  • XE (ocasionalmente X): pessoa xenogênero.

Peço uma atenção especial ao conceito de XENOGÊNERO. Segundo a publicação, a única definição precisa vem de Baaphomet, que vem a ser um perfil anônimo da internet com foto de montagem de estátua. "Xenogênero: um gênero que não pode ser contido por entendimentos humanos de gênero; uma preocupação maior em criar outros métodos de categorização e hierarquia de gênero, como relacionados a animais, plantas, e outras criaturas/coisas".

Isso vai muito além de todos os seus sonhos mais doidos. Vamos partir da dualidade entre feminino e masculino:

A coisa vai evoluindo pouco a pouco. Quando chega na figura a seguir, ainda não é possível enquadrar o que seria o tal do xenogênero:

Achou muito confuso? Isso é só um resumo feito para você começar a entender esse material tão profundo, complexo e elaborado para o bem da humanidade. Como o identitarismo diz sempre, você precisa "se educar". Bom, vou fazer um carrossel de fotos com algumas das minhas identidades e bandeiras preferidas e gostaria do seu comentário sobre as suas preferidas também.

A melhor parte, no entanto, é aquela escrita de maneira empolada para mimetizar o estilo acadêmico e intelectual explicando de onde tiraram essa palhaçada toda. Faço questão de grifar alguns trechos:

Muito do conteúdo foi escolhido a dedo entre centenas de conceitos e traduzido de fontes como Pride-FlagsPride Flags For Us (o blog original, que tinha mais conteúdo, foi deletado), Pride ArchiveMOGAI Lexicon (blog deletado), Variant Archive e Beyond MOGAI Pride Flags, entre outras páginas creditadas nestas fontes ou nas páginas mais específicas para cada identidade.

Parte do conteúdo também foi baseado em fontes que já estavam em português, como Wiki Identidades e Ume Garote Alternative. Outras coisas foram decididas em grupo ou deduzidas a partir das informações dadas ou experiências de convivência com pessoas que usam determinadas identidades.

As pessoas que fizeram toda essa lista de supostas identidades sexuais admitem abertamente que parte do conteúdo foi DEDUZIDO. Vou repetir porque fica difícil de acreditar até lendo: DEDUZIDO. O que não foi deduzido veio de conteúdo "escolhido a dedo". Ou seja, selecionaram o que gostaram e inventaram o que faltou.

É assim que esse pessoal do identitarismo "se educa". Aliás, a diva do progressismo Chimamanda Ngodzi Adchie, também já perdeu a paciência com esse pessoal. "Pessoas que pedem que você se 'eduque' sem ter realmente lido nenhum livro, sem ter capacidade de defender com inteligência suas próprias posições ideológicas, porque com "educar" eles querem dizer , na verdade, eles querem dizer 'repetir feito papagaio o que eu digo, anular todas as nuances, afastar-se da complexidade'.", disparou.

É precisamente o caso aqui. Após assumir que tiraram da internet um punhado de bobagens e inventaram deduziram outro punhado, os grandes salvadores da humanidade por trás dos "termos juvélicos" também começam a ditar ordens para todo mundo. O que você deve ou não fazer, está ou não proibido, pega bem ou não.

Muita gente alega que é exagero meu e se trata apenas de um bando de malucos gritando bobagens. O mundo não tem saída sem limites morais e há pessoas que não têm limites. Nesse caso, se eles não forem impostos pela sociedade, serão simplesmente rompidos. No meu artigo de ontem eu mostrei a vocês que em apenas três anos a ideia de homem que menstrua passou de anedota a motivo de cancelamento.

Há um conceito de ideias infecciosas, mas ele é do universo analógico. As ideias infecciosas perversas vão convencer uma minoria. Aqui falamos do universo digital e não se entra mais na questão do convencimento, mas da conformidade social e da capacidade de silenciamento.

Muito provavelmente a maioria das pessoas que reverbera bandeiras como menstruação masculina, leite humano no lugar de leite materno e essa lista interminável de gêneros nem acredita nisso. Quando um grupo tem o poder de inventar coisas para fazer julgamentos morais injustos sobre outras pessoas e consegue, ele perde o limite e ganha poder.

Se você inventa que homem menstrua, parece uma piada. Depois você usa esse conceito para rotular de transfóbico quem ri. Então, rotula de transfóbico quem nega. Depois, tira o emprego e patrocínios de quem nega. Daí é só inventar outra coisa. Percebe como é arriscado silenciar diante do que é imoral porque parece ridículo?

O "guia de uso" dos termos juvélicos não poderia ser mais explícito sobre suas intenções autoritárias:

Evitar palavras estigmatizadas (“homossexual”, “traveco”, “hermafrodita”, etc.) para se referir ao grupo todo que estas palavras atingem (gays/lésbicas, pessoas trans, e pessoas intersexo, respectivamente). Uma pessoa pode utilizar palavras como estas para se referirem a si mesmas, ou a um grupo que se identifica com estas palavras, mas não para pessoas que não conhecem e que podem não querer que se refiram a elas com estas palavras, ou para um grupo gay, lésbico ou trans em geral.
É importante reconhecer a auto identificação: caso alguém (ou alguma organização) só queira se chamar de bicha ou hermafrodita, por exemplo, estas palavras devem ser respeitadas, e você não tem o direito de reclamar que não são adequadas ou corretas.

"Não reclamar de identidades “complicadas demais” ou “desconhecidas demais”, ainda mais quando a pessoa que está falando sobre as próprias identidades provavelmente só está explicando sua situação, e não vai se importar se você não decorar todos os detalhes", diz o manual. Eu não sei se é para rir ou para chorar, mas estou aqui rindo.

O melhor é o encerramento com a tentativa de parecer moralmente superior, algo que cola. Isso é útil tanto para gerar adesão de gente sem propósito e sem muitas conexões neurais quanto para evitar uma oposição explícita: "Caso possível e em momentos adequados, educar pessoas sobre a existência de diversas orientações, gêneros, conjuntos de linguagem e variações que compõem o sexo biológico; e, caso alguma pessoa esteja questionando sua identidade, ajude-a, ou tente direcioná-la para algum lugar onde ela poderá aprender melhor sobre si mesma, caso queira".

A linguagem fala sobre "educar" e assume que tudo ali descrito é uma verdade científica. O conteúdo deve ser usado para ajudar pessoas, principalmente as que questionam a própria identidade e têm dúvidas sobre si. Avalie o autoritarismo e a perversidade de quem assume que DEDUZIU um conteúdo e quer que isso seja empurrado goela abaixo de quem está num momento de fragilidade emocional e precisa de soluções.

Fazer os outros de cobaia é desumano e esta é a proposta. Não tem como dourar a pílula. Usar esses parâmetros inventados para julgar moralmente os demais é uma tentativa autoritária de ter poder. Uma vez me ensinaram que a melhor maneira de virar um coitadinho é tendo pena de um deles. "Coitados deles, só querem ajudar quem sofre preconceito, então fizeram esse manual". Doce ilusão.

O identitarismo vende o melhor produto do mundo, a sensação de superioridade moral praticando as piores barbaridades. É o caso. Pessoas sem preparo intelectual se metem a autoridades em um tema, exigem que todos concordem cegamente e repitam como papagaios e ainda sugerem que os métodos inventados sejam empurrados em cobaias humanas. Podem querer isso à vontade, a sociedade não pode permitir.

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