A enfermeira Monica Calazans foi a primeira  brasileira a receber a vacina Coronavac.
A enfermeira Monica Calazans foi a primeira brasileira a receber a vacina Coronavac.| Foto: AFP

A realidade se impõe sobre narrativas, é inevitável. Apesar do nosso eterno vício de cair em tudo quanto for conversa de malandro, o despertar sempre chega. O mundo não é dos barulhentos, dos vagabundos, dos espertos, dos oportunistas, dos paranóicos, dos violentos. O mundo é do cidadão comum que leva no coração a esperança. A união quase natural dos esforços diários desses cidadãos ao longo de décadas nos trouxe a esperança em forma de vacina.

A imagem da enfermeira Monica Calazans recebendo a primeira dose da vacina produzida pelo Instituto Butantan trouxe alento aos corações de um país que chorava diante do inferno em Manaus. Saber que nossos cientistas da Fiocruz também concluíram uma vacina viável é outra vitória do Brasil que trabalha apesar de seus políticos.

Dizem que cientistas não acreditam em Deus. Discordo. Difícil achar gente com tanta fé quanto cientista brasileiro que decide trabalhar com pesquisa no Brasil. Nem sei se é trabalho. Há décadas se corta cada vez mais verba, se dificulta, se desvaloriza. Ultimamente, a boçalidade orgulhosa tem até se metido a difamar cientista. Deve ser para completar o pacote da prova de fé.

Pode ir conferir em jornal de tudo quanto é ano, vai um passo adiante de dois para trás. Este ano cortaram as tais "bolsas", vai ter ano que aumentam, dali a diante corta de novo. Alguns acreditam que o Brasil não tem um plano para a ciência. Eu acredito que tem sim, provar que se trata de milagre e estamos aí diante da prova: duas vacinas viáveis, de duas equipes diferentes, vindas de institutos centenários, legado dos nossos pioneiros da ciência.

A "bolsa" é o salário que alguém ganha para fazer sua pesquisa acadêmica num instituto como Butantan ou Fiocruz. Se você tiver fazendo pós-doutorado, pode chegar ao milionário patamar de R$ 4 mil por mês. Já é um milagre conseguir formar as equipes, mas elas são excelentes, trabalham de verdade e conseguem produzir no mesmo nível de equipes internacionais que são respeitadas por seus governos e compatriotas. Se não for obra divina, desisto de explicar.

Estamos numa situação de vida e morte em que heróis e vítimas são, na quase totalidade dos casos, cidadãos comuns. Ainda assim há uma grande massa de cidadãos que insiste em dar mais importância aos poderosos que aos seus pares. Deve ser algum tipo de fetiche ou transe coletivo, tomara que arrumem vacina para isso um dia. Nossa grande pátria de chuteiras precisa fazer uma mudança importante para virar um país: sair do "sabe com quem você está falando?" para o "quem você pensa que é?".

Nós escolhemos políticos pensando contra o cidadão comum, não a favor. Calma que eu explico. A prioridade é abraçar um candidato que irrite até o último fio de cabelo aquele seu cunhado chato que enche a sua paciência com o candidato dele. Se você é de direita, vai pensar em quem incomoda até a alma o esquerdinha que lhe aporrinha. Se é de esquerda, vai procurar quem tire do sério o reaça que faz seu sangue borbulhar. E aí todos ficamos felizes, já que a desgraça alheia realmente é o melhor para a nossa nação.

Suponha que você tenha um sonho enorme para o seu filho e a realização desse sonho possa ser facilitada pelos planos de um candidato. Ocorre que o candidato pensa igualzinho ao seu cunhado mala que fica esfregando a ideologia dele na sua cara a cada churrasco. Como escolher? Não temos a menor dúvida. O filho que lute, afinal a prioridade brasileira é espezinhar pessoas próximas e entrar em grupos raivosos de whatsapp e redes sociais.

Nós colhemos o que plantamos. Votamos para espezinhar o "outro lado", educamos a classe política assim. A prioridade do político brasileiro é ter um bom rival, nem trabalhar precisa. Imaginamos lutar contra a corrupção, pedir justiça, querer um país melhor. Só faremos isso quando aceitarmos que há diferenças entre os cidadãos e que nós devemos ser a prioridade, não os políticos.

Imagine o que o Instituto Butantan e a Fiocruz seriam capazes de fazer se houvesse um plano de Estado para eles, algo de longo prazo? Avalie se os planos para a educação pública fossem suprapartidários, para além dos governos, inspirados em realidade e no que dá certo. Vários países já estiveram na situação em que estamos hoje e viraram a chave. Só que ninguém faz isso desunido.

Vivemos uma polarização política única na história e algo que se alastra pelo mundo, um fenômeno propiciado pelas novidades tecnológicas e a concentração de poder das Big Techs. O mal não é a polarização, é colocar a dignidade humana abaixo do posicionamento político. Em tudo quanto é canto vai haver gente, alguns até cidadãos de bem, dizendo que "esquerdista" ou "direitista" não presta, não merece tal coisa, não deveria ter direitos. É desse pensamento que nasce nossa dependência dos políticos.

Importa para você qual é a orientação política da pessoa que descobriu o "pulo do gato" para viabilizar a vacina? Para mim não. Importa que tenha competência e seja honesta nas suas pesquisas. Precisamos aceitar que pessoas pensam de forma diferente e que as grandes conquistas virão do dia a dia de todos nós, das pequenas coisas. Não haverá um salvador da pátria, ninguém virá nos salvar se não nos salvarmos coletivamente.

Hoje é um dia para renovar as esperanças e ter muito orgulho dos nossos compatriotas. Temos inúmeros defeitos sim, mas também temos uma gente lutadora que segue acreditando no amanhã e tornando possível que ele aconteça. Já recebi hoje tudo quanto é tipo de lixo no whatsapp. Tem o povo achando que a enfermeira mentiu e foi vacinada duas vezes, o pessoal que espalha boatos e fotos da família dela, várias torcidas de políticos diferentes, enfim, a inutilidade. Brasileiro desconfia da própria competência, acha sempre que tem algo por trás quando as coisas dão certo. Você pode se dar hoje o direito de ter esperança no futuro. Apesar de tudo, estamos caminhando.

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