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Marcel van Hattem

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Corrupção

A delação que pode salvar o Brasil

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Daniel Vorcaro pode negociar delação premiada no caso Master. (Foto: Reprodução/Youtube/TVLIDE)

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No dia em que Daniel Vorcaro foi preso, seu celular teria registrado mensagens trocadas com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Não é um detalhe menor, nem um elemento lateral de investigação. É o tipo de fato que, por si só, exige explicações imediatas e completas. Afinal, o que um investigado teria a dizer a um ministro da mais alta corte do país no dia em que foi preso? E o que foi que Vorcaro queria bloquear? Que resposta de visualização única foi dada por seu interlocutor?

Essas perguntas, sozinhas, já justificam por que a delação que Vorcaro estaria negociando, se confirmada, será, ao mesmo tempo, o momento mais revelador da história recente da República bem como mais uma página de sua decadência. Uma coisa já é certa: a companhia telefônica confirmou que o número com o qual o banqueiro se comunicava era, mesmo, do STF. A CPMI do INSS solicita agora ao STF que indique quem usava o contato.

O Brasil não precisa de mais uma narrativa cuidadosamente editada para preservar reputações e proteger estruturas de poder. Precisa de uma apuração completa, sem exceções negociadas, sem privilégios de foro informal

A delação de Vorcaro pode representar um divisor de águas institucional ou, ao contrário, mais uma prova de que o sistema brasileiro se aperfeiçoou não para fazer justiça, mas para se proteger e cometer crimes. Em lugar de defender o cidadão e trazer segurança ao povo brasileiro, a ação de vários ministros do STF assemelha-se muito mais à de máfias e grupos criminosos que sequestram o poder estatal para a prática de ilícitos.

Os rumores, porém, de que Vorcaro poderia fazer uma delação “parcial”, sem incluir ministros do STF é o suficiente para confirmar a premissa: membros da corte estão enroscados no esquema. É fundamental portanto que a verdade não seja negociada conforme os limites impostos pelo próprio sistema que deveria investigá-la. Uma delação que nasce com áreas previamente blindadas não cumpre função de Justiça. Cumpre função de contenção de danos. É a institucionalização da meia verdade. André Mendonça, relator do caso no STF, não poderá tergiversar e terá de exigir – se já não o fez – que a delação seja ampla, geral e irrestrita.

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O Brasil não precisa de mais uma narrativa cuidadosamente editada para preservar reputações e proteger estruturas de poder. Precisa de uma apuração completa, sem exceções negociadas, sem privilégios de foro informal. Se Vorcaro decidiu mesmo colaborar, que o faça de forma integral: que esclareça contratos, relações, mensagens, interlocuções e decisões. Que exponha tudo, inclusive aquilo que, por conveniência, muitos prefeririam manter oculto.

O cidadão brasileiro, que sustenta um Estado caro, ineficiente e frequentemente capturado por interesses próprios, não pode continuar sendo tratado como espectador de um teatro institucional. Temos o direito à verdade, custe a quem custar, doa em quem doer.

Enquanto Vorcaro negocia, Brasília reage preocupada e cambaleante. Líderes partidários e presidentes das duas casas legislativas tentam obstaculizar a Justiça. Enquanto isso, o país observa. Todo o país comenta. A nação quer saber o que vai acontecer. Em ano eleitoral, não há nada mais favorável a uma qualificação da representação popular do que a consciência popular do atual estado de coisas – e também, de que é também responsabilidade do povo escrever um futuro melhor para o país.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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