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Marcio Antonio Campos

Marcio Antonio Campos

Vaticano, CNBB e Igreja Católica em geral. Coluna atualizada às terças-feiras

Eleições

Por que os “bispos de Lula” não deveriam afastar ninguém da Igreja

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Sei que é trágico ver padres e bispos "fazendo o L", mas ninguém deveria abandonar a Igreja por causa deles. (Foto: Imagem criada utilizando Google Gemini/Gazeta do Povo)

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Eu quase nunca comento as reações às minhas colunas, mas alguns dos comentários ao meu texto da semana passada, dirigido aos bispos que “fizeram o L” nestas eleições com aquela cartinha cínica, em que retalhavam a doutrina da Igreja para pegar só aquilo que beneficiava seu candidato enquanto ignoravam o resto, chamaram a minha atenção, e achei que valia a pena respondê-los. Não vou citar nomes, nem frases específicas, mas apenas refletir sobre as ideias gerais por trás desses comentários.

“É por causa desses bispos que deixei de ser católico”

Quem não nasceu e cresceu em um lar católico, convertendo-se mais tarde na vida, não raro conheceu e se apaixonou pela Igreja graças ao exemplo de alguém, anônimo ou famoso: um amigo, um padre, um bispo, um papa, um frei Gilson, um padre Paulo Ricardo, um padre Zezinho, um padre Marcelo, um padre Reginaldo, um bem-aventurado Fulton Sheen, uma Zilda Arns, um dom Hélder, um cardeal Arns, um São João Paulo II, um Bento XVI, um Francisco, enfim, a lista é grande.

Mas uma das primeiras coisas que o convertido aprende, ou ao menos devia aprender, é que nossa fé em Cristo e na Igreja não depende das pessoas. Somos católicos porque cremos que Deus existe e nos ama, que enviou seu Filho ao mundo, que Cristo fundou uma Igreja (e apenas uma) e prometeu que estaria sempre com ela, e que as portas do inferno não prevaleceriam. É essa fé que nos protege contra a decepção com os homens da Igreja – porque é muito possível que eles nos decepcionem mais cedo ou mais tarde.

Os “bispos de Lula” não são motivo para ninguém sair da Igreja. Como escrevi uma vez, a respeito da ida de um ex-católico para a Igreja Ortodoxa, “você não pode recusar a ideia absurda de que, se um bandido puxa o gatilho de um revólver, a culpa é da ‘sociedade’, e ao mesmo tempo defender que, se uma pessoa resolve mudar de religião, a culpa é de um papa, um bispo ou um padre. Há circunstâncias que favorecem um certo comportamento ou ato, mas no fim das contas o bandido escolhe livremente fazer o que faz, e o converso também”. Não bote nos outros, por mais errados que eles estejam, a culpa pelas suas próprias decisões.

Cremos que Deus existe e nos ama, que enviou seu Filho ao mundo, que Cristo fundou uma Igreja e prometeu que estaria sempre com ela. Essa fé nos protege contra a decepção com os homens da Igreja

“É por causa desses bispos que parei de ir à igreja, embora continue católico”

Essa é uma versão atenuada da primeira afirmação. A pessoa segue católica, mas não vai mais à missa, só reza em casa, “se confessa com Deus”. Bom, eu nem deveria ter de lembrar que a missa dominical é uma obrigação do católico, e a confissão, ao menos uma vez por ano, também é. Mas, para além da mera obrigação, temos de lembrar que praticamente todas as definições que conhecemos da Igreja – “povo de Deus”, “Corpo Místico de Cristo” e por aí vai – apontam para o seu caráter comunitário. O grego ekklesia significa “assembleia”. São raros os que Deus chama para uma vida de isolamento; como regra geral, não há como ser um bom católico totalmente apartado dos demais – e muito menos afastando-se da oração por excelência, que é a missa.

“Mas o padre Fulano só fala besteira / só fala de política / defende o Lula / celebra mal pra burro.” Compreendo a sua dor, meu caro. Se a coisa é realmente insuportável, considere procurar outra paróquia, só cuidando para não virar aquele “sommelier de missa” chato que sai xingando quando a missa desvia um milímetro daquilo que você gostaria que fosse. E, se a situação onde você mora é tão caótica que não haja como escapar de uma missa mal celebrada ou de absurdos teológicos e políticos na homilia, faça o que o meu amigo Carlos Ramalhete sempre recomendou: colocar-se ao pé da cruz (porque a missa é isso, é a Cruz) como Nossa Senhora, as santas mulheres e São João, que sofreram horrores, rangiam os dentes de dor, mas não deixaram de estar lá. Só não me vá para as SSPXs e outros cismas da vida.

“É por causa desses bispos que não contribuo mais com a Igreja”

“Ajudar a Igreja em suas necessidades” é um dos cinco mandamentos da Igreja: o cânone 222 afirma que “os fiéis têm obrigação de socorrer às necessidades da Igreja, a fim de que ela possa dispor do que é necessário para o culto divino, para as obras de apostolado e de caridade e para o honesto sustento dos ministros”. Lula, Haddad e Dario Durigan podem até achar que existe geração espontânea de dinheiro, mas você e eu sabemos que isso é terraplanismo econômico esquerdista. Igreja paga água, luz, funcionários, e depende de nós para isso. Um padre amigo, canonista, diz que considera justo “o fiel ajudar a paróquia na qual participa, já que usufrui do espaço físico, material litúrgico etc., e a paróquia teria ‘despesas’ com ele”, mas não existe uma obrigação estrita de ajudar a sua paróquia – seja a sua paróquia territorial, seja a paróquia que você frequenta, caso fique em outro bairro –, nem sequer a sua diocese.

Em outras palavras, se você não quer ajudar financeiramente sua paróquia porque não gosta do que vê lá, pode ajudar uma obra assistencial da Igreja, pode ajudar uma congregação cujo trabalho você admire... só não pode deixar de ajudar. E esse mesmo amigo padre ainda afirma que, a rigor, nem o Catecismo, nem o Código de Direito Canônico preveem explicitamente que a ajuda tenha de ser monetária. Penso, por exemplo, no tempo: quem tem a possibilidade pode muito bem se tornar catequista, ou dar curso de noivos – para católicos bem formados, é uma chance e tanto de ajudar os demais, quando o padre não colabora. Ou, ainda, no trabalho braçal mesmo: ajudar na limpeza, em uma obra, na festa do padroeiro. Oportunidades não faltam.

Uma reportagem da Gazeta do Povo sobre empresários que estão suspendendo ações sociais depois da reeleição de Lula teve bastante repercussão. Na maioria dos casos, o argumento é orçamentário, e nesse caso eu não me meto: cada um sabe como estão as suas contas e o que pode ou não pode fazer – até porque a elevação automática do valor da hora trabalhada com o fim da escala 6x1 vai mesmo forçar muita empresa a rever suas planilhas. Mas uma rede de sorveterias deu um outro motivo: “Estamos cansados de ajudar quem não quer ser ajudado e prefere viver dos auxílios do governo”.

Eu nem sei se o dono é católico. Mas, caso seja, ou caso haja outros que sejam católicos e estejam pensando em fazer a mesma coisa, recordo que o mesmo cânone 222 citado anteriormente diz, ainda, que os fiéis “têm também a obrigação de promover a justiça social e, lembrados do preceito do Senhor, socorrer os pobres com as próprias rendas”. Repito aqui o que eu escrevi a propósito de um padre argentino esquerdista que, após a vitória de Javier Milei, em 2023, disse que os pobres que votaram no libertário não deveriam mais aparecer no refeitório mantido pela paróquia:

“Este sacerdote não é nada diferente do boçal brasileiro que promete não dar esmola ou emprego a quem tenha votado no Lula. O que ele está dizendo, no fim das contas, é que pobre bom é o pobre que vota na esquerda, que seu amor ao Cristo presente no mais necessitado está sujeito a certas condições. O que todos esses esquecem é que, domingo que vem [em 2023, seria a solenidade de Cristo Rei], iremos ouvir o fim do capítulo 25 do Evangelho de São Mateus, em que Cristo fala do Juízo Final e da separação entre bons e maus, colocando entre os bons também aqueles que praticaram as boas obras incondicionalmente, sem saber que o faziam a Jesus. Ele diz apenas ‘tive fome e me destes de comer’, não ‘tive fome e, como votei em Fulano, me destes de comer’. E, aos condenados, dirá simplesmente que ‘tive fome e não me destes de comer (...) Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes’. A preferência política do pobre não servirá de desculpa para ninguém ter deixado de fazer o que deve ser feito, mas muita gente só vai perceber isso quando for tarde demais.”

“E por que o papa não faz nada?”

Deus é onisciente, mas até onde eu sei Ele não compartilhou esse poder com o Santo Padre. Além disso, Leão XIV acabou de lidar com um câncer, tem uma enorme viagem programada para os próximos dias, enfim, ele tem muito mais urgências que as sandices políticas de uma minoria (lembrem, são uns 60 em um universo de mais de 400) de bispos no Brasil. E, por fim, papa nenhum tem de ser microgerenciador de crises criadas por bispos e padres, e tampouco pode sair por aí “demitindo” bispos por causa do que dizem ou deixam de dizer – a possibilidade até existe, mas é para casos extremíssimos.

Se você não quer ajudar financeiramente sua paróquia porque não gosta do que vê lá, pode ajudar uma obra assistencial da Igreja, ou uma congregação cujo trabalho você admire

Aliás, já que estamos falando do papa, cabe esclarecer o que exatamente ele falou sobre a “extrema direita”, até porque durante a campanha o “exército do Janones” usou e abusou de uma fala de Leão XIV para dizer que ele estaria desaconselhando o voto em Flávio Bolsonaro (afinal, como todos sabem, qualquer um que esteja minimamente à direita do PT já é “extrema direita”, e quem discorda é fascista pior que Hitler, não é?). O papa estava retornando de sua incrível viagem à França, e um jornalista alemão fez uma pergunta sobre o sucesso eleitoral da Alternativa para a Alemanha (AfD), da direita nacionalista. A frase completa é essa, segundo a tradução oficial do Vaticano:

“Seria interessante estudar, analisar se existe e de que modo uma relação, por exemplo, entre o crescimento destes grupos de extrema direita (e a extrema direita está também agora a fragmentar-se, como se vê no caso de um grupo em particular que se está a tornar ainda mais extremista do que outros assim chamados de extrema direita) e uma certa combinação dos pontos de vista de extrema direita com um tipo específico de religião, que – não só na minha opinião, mas também segundo o que afirmam os responsáveis da Igreja Católica e da Igreja protestante na Alemanha – não representa uma expressão autêntica do cristianismo.”

O papa não disse nem que “pontos de vista”, nem que “tipo específico de religião” eram esses, mas o certo é que todo extremo político, à direita ou à esquerda, instrumentaliza, sim, a religião para seus próprios fins. Não tenho detalhes sobre as plataformas específicas da AfD (cuja líder, Alice Weidel, é lésbica e casada com uma cineasta nascida no Sri Lanka, o que deve bugar a cabeça de muita gente), mas sei que os bispos alemães, em sua maioria, andam bem complicados. Pode ser que estejam condenando como “extremismo” posições que são aceitáveis em uma democracia? Pode ser. De qualquer forma, o que o papa disse foi que esse tema precisa ser estudado, e não me parece uma afirmação que possa ser generalizada da forma como a esquerda a explorou, aplicando-a à eleição brasileira.

E finalizo com a versão local da mesma pergunta: “a CNBB não vai fazer nada?” O mais curioso é ver as mesmas pessoas que afirmam que as conferências episcopais não fazem parte da constituição divina da Igreja (porque não fazem mesmo; Cristo instituiu o sacramento da Ordem e o papado) depois querendo que a conferência episcopal puna os bispos de alguma forma. Leiam lá a Apostolos suos e repitam comigo três vezes: conferência episcopal não é instância disciplinadora de bispos. A CNBB publicou as suas orientações para a eleição, orientações bem neutras no sentido político-partidário, e depois veio a público dizer que não tinha nada a ver com a carta dos bispos lulistas, e não os autorizava a falar em nome da instituição. Mais que isso ela não pode fazer.

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